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(A) :: De advogado das elites com "comportamento de estrela" a Presidente da direita radical. Quem é o novo líder da Colômbia?

De advogado das elites com "comportamento de estrela" a Presidente da direita radical. Quem é o novo líder da Colômbia?

Abelardo de la Espriella apresenta-se como um "outsider", mas representou políticos e empresários das elites. Já propôs o encerramento de 15 embaixadas e consulados colombianos.

Madalena Moreira
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Faltavam poucos meses para abandonar o cargo quando o Presidente da Colômbia recorreu às redes sociais para vincar uma última vez uma ideia que tinha alimentado ao longo dos quatro anos de mandato. “Esta é a Grande Colômbia, a ideia de Bolívar e proponho um voto da população para que a reconstruamos como uma federação de nações autónomas”, escreveu Gustavo Petro na legenda de um mapa dessa mesma Grande Colômbia, que corresponde à Colômbia, Venezuela, Equador e Panamá. O sonho pan-americano de Gustavo Petro morre, contudo, com a sua saída do poder.

No dia 7 de agosto, a Presidência passará do primeiro Presidente de esquerda na história democrática da Colômbia para um Presidente da direita radical, Abelardo de la Espriella, eleito em junho com uma vantagem de pouco mais de 250 mil votos para o candidato alinhado com Petro. Ao contrário do ainda Presidente, Espriella segue uma linha de nacionalismo e patriotismo, a mesma que tem tomado conta da América do Sul, depois de Donald Trump a ter imposto como ideologia no vizinho mais a norte. “É um fenómeno regional e o efeito de difusão, inspirado sobretudo por Trump, também é importante”, afirmou Laura Wills, da Universidade dos Andes, ao El País.

O mais recente anúncio do presidente eleito reflete as prioridades que deverão definir o seu mandato. Este domingo, Espriella propôs o encerramento de 15 embaixadas e consulados colombianos em vários pontos do mundo e uma reconfiguração da representação diplomática. A decisão tem uma vertente ideológica, pois prevê o corte de relações com Cuba e Nicarágua — “o meu governo não terá qualquer vínculo com tiranias”, afirmou —, mas tem também uma vertente económica, já que a maior parte dos encerramentos são justificados com a necessidade de “poupar ao erário público milhares de milhões de pesos anualmente”.

Estas duas linhas, semelhantes àquelas que foram adotadas por alguns dos seus pares na região, deverão definir os quatro anos de Espriella no poder. Ainda que a abordagem não seja nova, o perfil do novo Presidente diferencia-o dos restantes chefes de Estado da direita populista: sem qualquer experiência política, Espriella, tratado pelos apoiantes como “El Tigre“, utiliza isso como trunfo para garantir ser um outsider que procura pôr fim ao controlo das elites — elites com as quais, na verdade, conviveu de forma muito próxima ao longo da sua carreira.

Advogado das elites e empresário que canta ópera italiana. O currículo de Espriella

“Firmes pela pátria”. Foi sob este lema oficial que Abelardo de la Espriella fez a sua campanha presidencial. Mas há um outro slogan que permite descortinar mais sobre a figura do novo Presidente colombiano: “Um voto da costa para a costa“. As palavras remetem para as origens do político de 47 anos na região de Córdoba, no norte da Colômbia, junto ao mar das Caraíbas e sustentam a figura de um candidato de fora — da capital e do sistema. Foi nessa mesma região que Espriella assinou — depois de estudar direito em Bogotá — a primeira grande linha do seu currículo.

No final da década de 1990, início dos anos 2000, Córdoba era um reduto das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), um grupo paramilitar de extrema-direita que se dedicava ao combate contra as guerrilhas de esquerda e com quem o Governo procurou assinar um acordo de paz. Foi neste contexto que Espriella encontrou na “parapolítica um excelente nicho”, como declarou numa entrevista em 2008. O recém-formado advogado dedicou-se a organizar encontros entre os paramilitares e estudantes e a representar políticos acusados de colaborar com os paramilitares, defendendo o diálogo com estes grupos radicais.

https://www.youtube.com/watch?v=oflMtp_6NlY&list=PLh9GPqeNm8j4PKu6Jg-PYImo1DK8t2yUz&index=4

Mais tarde, seguiu para Miami onde viveu a maior parte da sua vida e onde acabou por se naturalizar como norte-americano. No sul dos Estados Unidos consolidou uma carteira de clientes de alto nível: representou políticos e empresários acusados de corrupção e tráfico de droga, incluindo Alex Saab, acusado pelos EUA de ter colaborado com o alegado esquema de tráfico de droga de Nicolás Maduro, na Venezuela, e o antigo Presidente colombiano, Álvaro Uribe, depois de ter sido acusado de ter recebido subornos por parte dos grupos paramilitares.

Ao mesmo tempo, Espriella desenvolveu também a sua veia de empresário: a “De la Espriella Style” opera na área da moda e a “Domínio De la Espriella” no comércio de álcool. Os lucros dos negócios foram utilizados para financiar a sua campanha, explicou, mas os sucessos também serviram outro propósito útil na corrida, apontou a professora Laura Wills. “Ele personifica parte das aspirações dos colombianos”, sintetiza.

Ambos os negócios vão ao encontro dos gostos pessoais do advogado e empresário — um bom vinho e uma gravata de seda, como simplifica a imprensa internacional — e exigiam viagens frequentes a Itália, onde tem raízes familiares: para além da nacionalidade colombiana e norte-americana, Espriella tem também cidadania italiana. A veia italiana transparece também no lançamento de dois álbuns, em que canta ópera e músicas clássicas e tradicionais italianas. “Ele tinha uma tendência para aquilo que diríamos que é um comportamento de estrela“, admitiu Ángel Becassino, biógrafo de Espriella, ao New York Times.

O regresso à amizade com Washington e Telavive, acima do multilateralismo

Tendo em conta os longos anos passados em Miami e o estilo de vida que aí cultivou, não é surpreendente saber que Abelardo de la Espriella era um jogador de golfe no clube de Donald Trump na cidade. E foi precisamente aí que, decidido a regressar à Colômbia para conquistar a Presidência, começou a reunir apoios internacionais. Primeiro, de congressistas republicanos latinos. Mais tarde, já durante a corrida, do próprio Presidente norte-americano.

"A vitória de De la Espriella encaixa nas prioridades dos EUA no hemisfério ocidental, que, além das políticas de combate às drogas e da perseguição a organizações criminosas, também envolvem o controlo e a repatriação de migrantes."
Elizabeth Dickinson, analista do think tank Crisis Group

A relação com a administração republicana em Washington — que durante a governação de Petro se tornou atribulada — deverá agora voltar a ser um vetor central da política externa colombiana, que tem nos EUA o seu maior parceiro económico. A mudança de ideologia em Bogotá funciona como uma vitória para Trump, apontam especialistas ouvidos pela BBC. “A vitória de De la Espriella encaixa nas prioridades dos EUA no hemisfério ocidental, que, além das políticas de combate às drogas e da perseguição a organizações criminosas, também envolvem o controlo e a repatriação de migrantes”, elabora Elizabeth Dickinson do Crisis Group ao canal.

Mas a relação não será feita sem alguns obstáculos. A seguir aos Estados Unidos, o maior parceiro da Colômbia é a China, o maior adversário dos Estados Unidos. Sergio Guzmán, diretor da consultoria de análise geopolítica Colombia Risk Analysis, sugere à BBC que Washington poderá exigir a Bogotá a diminuição desta relação, que cresceu sob a liderança de Petro, o que colocaria um dilema a Espriella: alinhar com os EUA e perder um importante parceiro económico? Ou abdicar da China para agradar a Washington?

Para além da relação com os Estados Unidos, Espriella prometeu apostar na relação com a Europa — e com Israel. Isto representa uma retoma das relações diplomáticas com Telavive, depois de Petro as ter suspendido no âmbito da ofensiva israelita na Faixa de Gaza. Este domingo, o presidente eleito prometeu reabrir a embaixada colombiana em Jerusalém e suspender o processo para abrir uma embaixada na Palestina que, diz, “nunca chegou a estar em funcionamento”. Estas decisões de Espriella também permitem perceber mais sobre as suas prioridades nas relações bilaterais e multilaterais.

No que toca às primeiras, o advogado prometeu, logo no seu discurso de vitória, “fortalecer as relações com todos os países que respeitam a democracia”. Isso implica, argumenta, cortar relações com países vizinhos como Cuba ou Nicarágua, governados por regimes socialistas. O encerramento das restantes representações diplomáticas tem em vista uma “gestão mais eficiente” da máquina diplomática e prevê mudanças na presença na Argélia, Azerbaijão, Barbados, República Checa, Etiópia, Gana, Haiti, Hungria, Malásia, Roménia, Senegal e África do Sul.

Mas a reformulação também se estende à diplomacia colombiana na Europa. Em Paris e Roma, as representações colombianas junto de várias agências da ONU deixarão de existir de forma independente e passarão a estar a cargo do embaixador colombiano em França e Itália, respetivamente. A medida reflete uma desvalorização do papel das Nações Unidas — e um corte de apoios que países como os EUA já têm vindo a implementar e que Espriella também prometeu fazer. A relação do novo Presidente com a ONU rapidamente será clarificada, uma vez que apenas um mês depois da tomada de posse rumará a Nova Iorque para o maior evento anual da organização, a Assembleia Geral.

À imagem de Bukele e Milei e à direita de Uribe. As promessas de Espriella

Iniciada a corrida à presidência, Abelardo de la Espriella trocou os fatos italianos por uma camisola da seleção colombiana de futebol e a residência em Miami pelas multidões e um vidro à prova de bala. A figura mais populista com que se apresentou acentua as semelhanças com o Presidente dos Estados Unidos. Contudo, olhando especificamente para as políticas que propõe, dois outros nomes sobressaem na lista de referências de Espriella.

Por um lado, o candidato vê no Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, um exemplo para lidar com a criminalidade. À semelhança do homólogo, promete ter “mão de ferro” para combater os cartéis e construir dez “megaprisões” em zonas remotas e sem acesso a telecomunicações, com recurso a financiamento privado. Além disso, recusa dialogar com os grupos armados que mantêm ativa a luta das ex-FARC, pondo um ponto final à política implementada por Gustavo Petro.

Por outro lado, na dimensão económica, o exemplo de Espriella é Javier Milei, o Presidente da Argentina. Ambos classificam a “elite” e o “sistema tradicional” como o seu maior inimigo e prometem abrir portas e incentivar o investimento privado. Espriella prevê cortes na máquina do Estado “até 40%” e a absorção de trabalhadores pelo setor privado.

Na verdade, a aposta no combate aos grupos armados (em vez do diálogo) e o investimento no privado (em vez de no Estado) não são medidas inéditas na direita colombiana. Contudo, Abelardo de la Espriella leva a sua ideologia muito à direita do “uribismo”, que dominou o país até à chegada de Petro ao poder. “O uribismo tornou-se burguês, tornou-se o partido das classes altas, enquanto De la Espriella mobiliza setores populares com um discurso de meritocracia”, argumenta Yann Basset, professor de ciência política da Universidade de Rosário, à BBC. “Esta nova direita está a recuperar o discurso do trabalho árduo que o Centro Democrático [partido de Uribe] perdeu quando se tornou num partido de herdeiros políticos”, continua.

Ainda na comparação com o “uribismo”, Espriella mostra-se muito mais conservador na dimensão social. Casado com uma mulher católica, Ana Lucía Pineda, com quem tem quatro filhos, o presidente eleito utiliza uma retórica religiosa e é assumidamente contra o aborto, a eutanásia ou a adoção por casais do mesmo sexo. Ao longo da campanha, fez comentários sexistas e homofóbicos, mas desvalorizou as críticas, garantindo que eram apenas piadas que tinham sido descontextualizadas. As polémicas, tal como aconteceu ao longo da sua carreira, não impediram a chegada a Presidente.