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Mundial 2026. Violência contra mulheres subiu 30% nos dias de jogo: "Quando soa o apito final, o que as espera pode ser uma agressão"

Derrotas, álcool e tensão emocional agravam o risco para as vítimas. Agressões a mulheres subiram 30% nos dias de jogos, mas especialistas avisam: o futebol não cria violência, apenas a liberta.

Manuel Nobre Monteiro
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O campeonato de futebol do mundo voltou a estar associado a um aumento de casos de comportamentos machistas e de violência doméstica. Os dados recolhidos durante o Mundial 2026 mostram que, em vários países, cresceram as agressões contra mulheres, os pedidos de ajuda e as denúncias de violência nos dias de jogos, sobretudo após encontros de maior carga emocional ou derrotas das seleções nacionais.

De acordo com os dados da ONU Mulheres, as agressões contra mulheres aumentaram, em média, 30% durante os dias de jogos do Mundial. Em alguns países onde a competição foi vivida com maior intensidade, como o México, os registos de lesões corporais e os pedidos de socorro cresceram até 38% quando a seleção nacional perdeu, um agravamento associado ao consumo excessivo de álcool, à tensão emocional e ao aumento das apostas desportivas.

Em Espanha, a conquista do título mundial pela seleção de Luis de la Fuente desencadeou celebrações em todo o país, mas, em paralelo, os serviços de apoio às vítimas de violência registaram uma atividade muito acima do habitual. De acordo com o El País, entre as 23h00 de domingo, depois do apito final da final frente à Argentina, e as 7h00 de segunda-feira, as chamadas para o 016 (serviço telefónico de apoio às vítimas de violência) aumentaram 120,8% em relação ao mesmo período da semana anterior. Ao longo de toda a segunda-feira verificou-se ainda um aumento de 21,9% das chamadas. Os contactos por e-mail e WhatsApp também cresceram significativamente.

Foi precisamente a concentração de vários casos graves de violência que levou a correspondente de assuntos relacionados com igualdade de género do El País, Isabel Valdés, a investigar uma possível relação entre o Mundial e o aumento das agressões. Num podcast publicado pelo jornal espanhol, a jornalista explicou que tudo começou quando, na terça-feira seguinte à final, dia 21, a redação estava a contabilizar quatro feminicídios, em Málaga, Toledo e Alicante. “Quando vários homens praticamente ao mesmo tempo assassinam as suas mulheres ou ex-mulheres, é necessário não só contar cada caso individualmente, mas também fazer uma peça de contexto”, afirmou. Ao analisar a cronologia dos crimes, percebeu que todos tinham ocorrido entre a final do Mundial e as celebrações da vitória espanhola.

Após solicitar ao Ministério da Igualdade espanhol os dados do serviço 016, Valdés confirmou a suspeita. Durante o dia da final registaram-se menos chamadas do que era habitual aos domingos, mas a tendência alterou-se logo após o final do encontro entre os espanhóis e os argentinos.

Apesar da coincidência temporal, especialistas nesta matéria insistem que o futebol não provoca violência machista. “Não é o futebol que gera a violência, tal como não é o álcool que a provoca. São fatores desencadeadores que atuam sobre relações onde a violência já existia previamente”, explicou ao HuffPost Bárbara Zorrilla, psicóloga especializada em violência machista. “Nenhum agressor agride apenas porque é ano de Mundial ou porque consumiu álcool”, acrescentou.

A mesma ideia é defendida por Isabel Valdés. No podcast do El País, a jornalista sublinhou que o álcool, as drogas, o calor ou o resultado de um jogo “não fazem surgir violência do nada”. “Tudo isso são disparadores, mas disparam algo que já existe. Há inúmeros homens que bebem álcool, cujo clube perde ou que vivem temperaturas elevadas e que nunca recorrem à violência”, disse.

As especialistas apontam para uma combinação de fatores: a elevada carga emocional dos jogos, o consumo de álcool e de outras substâncias, o calor, a permanência prolongada em casa durante os dias de festa e a frustração provocada por uma derrota podem intensificar comportamentos violentos em homens que já exercem violência sobre as mulheres.

Segundo Bárbara Zorrilla, muitas vítimas acabam mesmo por associar o calendário do futebol às agressões sofridas. “Há mulheres que odeiam o futebol porque os episódios de violência estão marcados pelo calendário da equipa ou da seleção. Sempre que soa o apito final, o que as espera pode ser uma agressão”, explicou. A psicóloga acrescentou que as derrotas tendem a agravar ainda mais o risco: “Muitos agressores utilizam as mulheres como um saco de boxe. Descarregam nelas a frustração e a tensão acumuladas”.

Outro dado identificado é que os pedidos de ajuda diminuem enquanto os jogos decorrem, aumentando significativamente nas horas seguintes ao apito final. Segundo Zorrilla, as dez a doze horas posteriores aos encontros constituem um dos períodos de maior risco para as vítimas.

Violência contra as mulheres “não nasce do futebol, mas sim do machismo”

A coincidência de o Mundial se realizar no período de férias de verão também contribui para agravar a vulnerabilidade das vítimas. Com as escolas encerradas, menos contacto com serviços de saúde e uma redução das redes de apoio habituais, aumenta o tempo de convivência com o agressor e diminui a possibilidade de terceiros identificarem situações de violência, nota o HuffPost.

Embora ainda não existam estudos científicos dedicados a esta relação em Espanha ou Portugal, a evidência internacional acumula-se há vários anos. Isabel Valdés recorda investigações realizadas no Reino Unido, Estados Unidos e Brasil que identificaram padrões semelhantes de aumento da violência doméstica durante grandes competições desportivas. Um relatório publicado em 2022, que analisou mais de 1.400 estudos, concluiu que, apesar das diferenças metodológicas, existe um padrão consistente de agravamento da violência em torno destes eventos.

Entre os estudos mais citados está uma investigação da Universidade de Lancaster, que analisou dados relativos aos Mundiais de 2002, 2006 e 2010. Os investigadores concluíram que os casos de violência doméstica aumentavam 26% quando Inglaterra ganhava ou empatava e 38% quando perdia. Além disso, verificaram um aumento de 11% das ocorrências no dia seguinte aos jogos da seleção inglesa.

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No Brasil, um estudo publicado em 2022 concluiu que, quando duas equipas da mesma cidade disputavam jogos entre segunda e sexta-feira, as denúncias de violência aumentavam 66% e as chamadas para os serviços de apoio cresciam 41% no dia seguinte. Os investigadores verificaram ainda que muitas das agressões ocorriam nas quatro horas posteriores ao final dos encontros.

Também a organização britânica Women’s Aid tem alertado para esta realidade. Com base em estudos realizados no Reino Unido, a associação sublinha que o futebol “não causa” violência doméstica, mas pode agravar situações já existentes devido ao consumo de álcool e à intensidade emocional associada aos jogos. Durante o Mundial, a organização voltou a lançar uma campanha de sensibilização inspirada no cântico dos adeptos ingleses It’s Coming Home. Sob o lema “He’s coming home”, alertou para o risco enfrentado por muitas mulheres quando os companheiros regressam a casa depois dos jogos.

Perante estes dados, as especialistas defendem um reforço das medidas preventivas durante os grandes eventos desportivos. Isabel Valdés considera que as instituições devem apostar em campanhas de sensibilização antes das competições, seguindo o exemplo do Reino Unido. Recorda ainda que, neste Mundial, a UNICEF e a ONU Mulheres desenvolveram iniciativas de prevenção nos três países organizadores (Estados Unidos, México e Canadá) e defende que clubes, federações e jogadores podem desempenhar um papel importante na divulgação de mensagens contra a violência machista.

“A melhor prevenção continua a ser a educação”, afirmou a jornalista, acrescentando que a violência contra as mulheres “não nasce do futebol, mas sim do machismo”, sendo os grandes eventos desportivos apenas mais um contexto capaz de desencadear comportamentos violentos em homens que já os exercem.

[Já saiu o terceiro episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Três candidatos e uma chave”, Vicente Valbom cai a pique nas sondagens para a Câmara de Lisboa. Zé consegue fugir dos raptores e pede ajuda a um estranho. Mas as coisas podem não correr como esperado. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir este episódio no site do Observador e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. O primeiro e o segundo episódios estão aqui e aqui.]

Cátia Andrea Costa