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PJ recebeu participação de 20 páginas com suspeitas sobre nomeação de árbitros para jogos da Primeira Liga

Segundo o jornal Público, a PJ está a investigar a possibilidade de corrupção e tráfico de influências na nomeação de árbitros na Primeira Liga depois de ter recebido uma participação de 20 páginas.

Mariana Fernandes
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A Polícia Judiciária (PJ) recebeu uma participação com suspeitas de corrupção e tráfico de influências na nomeação de árbitros para jogos de futebol da Primeira Liga por parte do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). De acordo com o jornal Público, a queixa inclui um documento com 20 páginas que reúne mensagens de WhatsApp, capturas de ecrã, chamadas telefónicas, áudios, vídeos e relatos de reuniões na Cidade do Futebol. Entretanto, na sequência da notícia e das suspeitas, a RTP adiantou que o Ministério Público decidiu mesmo abrir um inquérito para investigar o caso.

Os acontecimentos retratados terão acontecido entre abril e junho deste ano, na reta final da temporada 2025/26. Segundo a notícia do jornal Público, a participação foca-se na forma como algumas nomeações de árbitros para jogos da Primeira Liga terão sido conhecidas antes de serem divulgadas oficialmente, para além da alegada existência de contactos entre responsáveis da arbitragem e pessoas sem responsabilidades no processo de nomeação dos árbitros. Ao longo das tais 20 páginas, adicionalmente, o autor da queixa sublinha várias vezes que não pretende substituir-se às autoridades, mas defende que o conjunto de elementos que recolheu justifica a abertura de uma investigação.

https://observador.pt/2026/07/01/duarte-gomes-demitiu-se-depois-de-denuncia-de-arbitro-fpf-enviou-tudo-para-o-ministerio-publico-a-polemica-que-rebentou-na-arbitragem/

O primeiro episódio relatado remonta a 21 de abril. Nesse dia, o árbitro Hélder Malheiro terá recebido uma chamada de Pedro Garcia, antigo árbitro assistente e agora comentador televisivo, que lhe disse que seria nomeado para dirigir o jogo entre o Moreirense e o Estrela da Amadora, a contar para a 32.ª jornada da Primeira Liga e numa altura em que os tricolores lutavam pela manutenção, acrescentando ainda que Fábio Veríssimo iria arbitrar o jogo seguinte da equipa da Reboleira, contra o Famalicão.

De acordo com a participação, nenhuma das nomeações tinha sido anunciada ou comunicada oficialmente — algo que aconteceu dias depois, o que levou o autor da participação a questionar de que forma é que aquela informação já poderia ser conhecida antecipadamente por alguém sem responsabilidades no Conselho de Arbitragem. Mas há mais. Na queixa é ainda referido que, numa outra conversa entre Pedro Garcia e Hélder Malheiro, o antigo árbitro terá transmitido a ideia de que uma eventual vitória do Estrela da Amadora contra o Moreirense poderia significar um empurrão na manutenção de Malheiro na Primeira Liga durante a época seguinte. Algo sustentado, alegadamente, por contactos entre Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, e Paulo Lopo, presidente dos tricolores.

Horas antes do apito inicial, Hélder Malheiro terá então recebido uma mensagem de WhatsApp de Luciano Gonçalves onde se lia: “Bom dia amigo, sim é verdade, mas por favor, por favor mesmo”, acompanhada por emojis. O árbitro realizou uma captura de ecrã antes de a mensagem ser eliminada e foi este conjunto de acontecimentos, entre a primeira conversa de Pedro Garcia e Hélder Malheiro, a nomeação comunicada antes de ser oficial e a mensagem do presidente do Conselho de Arbitragem que levou a uma série de diligências internas que culminaram na participação entregue à PJ.

A notícia do jornal Público indica que Luciano Gonçalves foi confrontado na Cidade do Futebol, rejeitando qualquer fuga de informação e agendando depois reuniões privadas com Hélder Malheiro e também Hugo Ribeiro, outro árbitro que terá denunciado situações semelhantes. Na mesma altura, Pedro Garcia, figura central em toda a participação, terá ligado não só a Malheiro para perguntar como tinham corrido as reuniões, mas também a Duarte Gomes, então ainda Diretor Técnico Nacional de Arbitragem, a explicar que os dois árbitros tinham feito as denúncias em protesto por não terem sido nomeados para a final da Taça de Portugal.

Por fim, por tudo isto, o autor da participação defende que a sucessão de contactos reforça a ideia de que pessoas exteriores ao Conselho de Arbitragem acompanhavam em tempo real e ao segundo tudo o que acontecia nas diligências internas na Cidade do Futebol, algo que considera contribuir para a deterioração da confiança entre os elementos da FPF e para a decisão de prosseguir com a recolha de informação antes de comunicar os factos à PJ.

Ora, num acesso simples de lógica, os factos relatados parecem ser os mesmos que estiveram na origem da demissão de Duarte Gomes do cargo de Diretor Técnico de Arbitragem. O antigo árbitro deixou a FPF há cerca de um mês, confirmando depois num comunicado que tinha tomado a decisão depois de, “no final da época passada”, um árbitro ter partilhado “um conjunto de informações que, pelo seu teor e sensibilidade, suscitaram preocupações institucionais muito relevantes”. Na altura, a FPF indicou que Luciano Gonçalves tinha feito uma participação formal ao Conselho de Justiça do organismo e que os factos relatados tinham sido encaminhados para o Ministério Público, tendo sido depois instaurado um inquérito interno.

https://observador.pt/2026/07/01/conselho-de-justica-da-fpf-instaura-processo-de-inquerito-a-luciano-goncalves/

Na passada sexta-feira, porém, esse mesmo inquérito foi arquivado. Apesar de considerar demonstrado que Pedro Garcia antecipou mesmo a Hélder Malheiro a sua nomeação para o Moreirense-Estrela da Amadora e que Luciano Gonçalves enviou a tal mensagem ao árbitro, o Conselho de Justiça da FPF entende que as provas recolhidas não permitem concluir que foi Gonçalves a transmitir a informação a Garcia. Além disso, o instrutor responsável pelo inquérito lembra ainda que o Conselho de Justiça não tem os meios de investigação de um processo criminal, como perícias a telemóveis ou acesso a registos de comunicações ou escutas telefónicas.

No mesmo dia, Luciano Gonçalves congratulou-se com a decisão, que diz ter recebido com “serenidade e profundo respeito pelas instituições e pelos órgãos jurisdicionais”. “Desde o primeiro momento afirmei, de forma clara, que rejeitava todas as suspeições e insinuações que me foram dirigidas. Lembro que fui eu quem tomou a iniciativa de solicitar às entidades competentes, desportivas e civis, a apreciação de todo este processo com independência, rigor e respeito pelas regras. Esta decisão não apaga o impacto gerado por alegações que acabaram por não ser comprovadas. Foram tempos particularmente difíceis para mim, para a minha família e para todos aqueles que fizeram questão de estar ao meu lado”, escreveu nas redes sociais.