(c) 2023 am|dev

(A) :: Morreu o meu Maxi, um cão como nós (ou como eu)

Morreu o meu Maxi, um cão como nós (ou como eu)

Este texto não é sobre os exames ou sobre Luís Neves – é sobre a morte de um cão, sobre como estabelecemos laços com os animais e sobre os excessos de um animalismo que faz equivaler humanos e animais

José Manuel Fernandes
text

O cão imita-nos a todos, tudo o que ele faz é para que se repare nele e se lhe dê mais carinho. Não é por ser cão que ele não tem sentimentos. Cão como nós, pensei. Mas preferi calar-me.
Manuel Alegre, Cão como nós

Sabemos que vai acontecer, os cães têm uma vida relativamente curta, são cachorros apenas uns meses, velhotes alguns anos, e depois deixam-nos, com ou sem aviso, as mais das vezes sem um queixume – ou sem um queixume para além daquele que adivinhamos no seu olhar.

Desta vez chegou o adeus do Maxi. O meu Maxi. A minha sombra branca, como costumávamos dizer. O mais pequeno mas também o mais velho da matilha, mas que não esperava que fosse o primeiro a despedir-se de nós, com 12 anos e duas semanas.

Mas é assim e sabemos que é assim e por isso, agora que o primeiro luto está feito depois de lhe pegarmos ao colo uma última vez e de o depositarmos na terra, embrulhado na manta em que dormia e não longe de onde ele gostava de se colocar à minha espera sempre que ouvia o portão a abrir-se e o carro a entrar, ficamos com as suas memórias. Com a recordação da sua companhia. Com a esperança de que também ele era um cão como nós – na expressão feliz de Manuel Alegre –, eu egoisticamente a acreditar que era um cão como eu.

Quem me escuta na rádio Observador sabe que, por vezes, o ladrar dos meus cães perturba a emissão (sobretudo às quintas-feiras, dia de embirrações). Esses latidos não vão desaparecer, o Maxi quase nunca era dos que ladravam, e esses por cá continuam, espero que por muito tempo mesmo sabendo que há outros que já estão velhotes e cheios de maleitas. Fazem parte da minha vida – da vida da minha família – como outros fizeram antes. No meu caso, desde que nasci pois havia um cão em casa dos meus pais, depois houve anos de interrupção, sobretudo no período em que, com crianças pequenas e a viver num andar, nunca senti que tivesse condições para cuidar de um animal de companhia. Por fim, desde que pude fazê-lo, pude também testemunhar como tem mudado a nossa relação com os animais – para melhor e às vezes mas também para pior.

O Maxi – ou o “baixinho”, o “rodas baixas” – era um westie (nome completo: West highland white terrier) e um sobrevivente. Último e o mais pequeno de uma ninhada de um criador nosso amigo, esteve alguns dias entre a vida e a morte logo ao nascer, pelo que sempre se pode dizer que toda a sua vida foi um ganho. Recebemo-lo numa altura em que ainda recuperávamos de um conjunto de outras perdas e juntou-se a outros sobreviventes, rafeiros abandonados que acolhemos ou animais magoados de que os donos tinham desistido.

Ganhou depressa o seu espaço e depressa confirmou a fama de que é mesmo a sombra branca do dono, pois fazia questão de estar sempre ao pé de mim – a sua cama ficava do meu lado da cama, o sofá em que me sento tinha sempre de ter espaço para ele saltar e se deitar ao meu lado quando eu pousava um computador ou um livro sobre os joelhos, não podia sair a passear com os companheiros maiores que não se plantasse junto ao portão, sem se mexer, às vezes horas a fio, até que eu voltasse.

As suas pernas curtas já não lhe permitiam acompanhar as caminhadas, pelo que há bastante tempo tinha comprado uma mochila para o levar às costas e ele lá ia, sempre tranquilo excepto quando nos cruzávamos com outros cães e exigia que voltasse a pôr no chão – mesmo sendo o mais pequeno da matilha, corria a ladrar e, se estivéssemos perto de casa, o seu território, fazia-o com ar ameaçador e de dente arreganhado, o que só não metia medo porque os dentes eram pequenos.

Eu olhava para ele, olhava para os outros que nessa altura muitas vezes também achavam que tinham de mostrar serviço, depois lá os recolhia comprovando como é bem verdade que os animais podem ser senhores de fortes personalidades. Diria mesmo mais: se podemos tentar prever a personalidade de um cão ao escolhê-lo pelas características da raça, mesmo isso tem limites pois podem evoluir de forma bastante diferente, e creio não me enganar se acrescentar que essa evolução às vezes quase nos surge como simbiótica com os donos. Cães como nós.

Mas serão mesmo? Podem estes animais, que partilham 99,96% do seu genoma com os lobos selvagens (Canis lupus), de que todos eles descendem, ser algo diferente de “um lobo dentro de casa”?

O tema faz todo o sentido porque se é verdade que os cães foram os primeiros animais a passar por um processo de domesticação – trabalhos recentes indicam que a divergência entre linhagens poderá ter começado há 30 mil anos, sendo que já haveria cães bem diferenciados há entre 11 e 16 mil anos, o que significa que estes animais começaram a acompanhar os homens ainda antes do desenvolvimento da agricultura –, se também é verdade que hoje há uma enorme variedade de raças, não nos podemos esquecer que a nossa relação com ele mudou imenso nos anos mais recentes. Até há pouco mais de um século a maioria dos cães trabalhava para viver, cada raça adaptada a uma função específica. Hoje a maioria está confinada a um papel bem mais doméstico, muitas vezes os seus donos nem sequer compreendem as suas necessidades, os seus hábitos ou os seus sinais.

E no entanto tanto que se pode aprender. Nunca me esqueci, por exemplo, de uma entrevista que fiz há mais de 20 anos à grande primatóloga Jane Goodall (de quem nos despedimos recentemente), onde ela recordou como, após as primeiras observações no terreno dos chimpanzés da África Central, quando chegou a Cambridge os académicos desfizeram o seu trabalho: “Disseram-me que tinha feito tudo mal, que não devia ter dado nomes aos chimpanzés, que não devia falar dos seus sentimentos, que não podia pensar que cada um deles tinha uma personalidade diferente e única. Mas eu sabia que não tinham razão porque cresci com um cão extraordinário que me ensinou que os animais podem ter personalidade.”

Não me esqueci desta observação e nunca deixei de dar atenção às diferentes personalidades dos cães com que vivo, mesmo quando se trata de um dos seus instintos mais básicos, o do caçar. Tenho os que desenterram e perseguem toupeiras, os que conseguem caçar ratos, um que apenas se fascina com borboletas, e tinha o Maxi que nunca conseguiu entrar nestas competições por muito que tentasse. Nessas alturas lembramo-nos bem de como descendem de um grande predador e de como na natureza os predadores têm um papel indispensável e não segue as regras dos que gostam de amalgamar animais e seres humanos, porventura aplicando-lhes o mandamento do “não matarás” que, claramente, não faz parte do seu código de vida.

Creio que a minha sombra branca nunca compreenderia essas confusões, mesmo quando se punha a jeito para eu o enfiar na mochila e levar para a serra. Cão como nós, cão como eu, mas com limites. Companheiro, mas não filho, e talvez por isso, até para o recordar e honrar, possamos citar de novo Manuel Alegre:

(Sei muito bem que as pessoas saem dos retratos, sei isso desde pequeno, mas tu não, estás proibido de voltar a fazer o que fizeste esta noite, não posso entrar na sala e ver outra vez a tua moldura vazia.)

Mas a moldura está mesmo vazia, meu Maxi, mas há uma planta que cresce onde te depositámos na terra.