Na última década as questões do tráfico de escravos e da escravidão têm sido muito debatidas em Portugal, e não me custa a crer que perante argumentações que puxam em sentidos opostos, muitos leitores tenham lamentado não ter ao seu dispor uma boa obra de síntese, mas suficientemente desenvolvida e, sobretudo, muito confiável, que pudesse servir de tira-teimas. É certo que já havia duas ou três boas sínteses em língua portuguesa, nomeadamente a de Arlindo Manuel Caldeira, Escravos e Traficantes no Império Português, 2013, mas já não estavam na primeira linha de actualização e sentia-se a falta de uma obra escrita por um dos historiadores de primeiríssimo plano especialistas no assunto e que trouxesse aos leitores a informação actualizada em função dos avanços da investigação levados a cabo na última década ou década e meia.
Essa lacuna acaba de ser preenchida pela editora Guerra e Paz que em boa hora decidiu traduzir e publicar o mais recente livro de David Eltis, Atlantic Cataclysm. Rethinking the Atlantic Slave Trades, inicialmente publicado em 2025 pela Cambridge University Press. Esta tradução portuguesa saiu em Junho último com um título muito semelhante, Cataclismo Atlântico. Repensar o Tráfico Atlântico de Escravos. O livro está dividido em sete capítulos, um prefácio e a conclusão. Faz falta uma bibliografia, mas a edição original, que li logo na época em que saiu, também não a tem. Aliás, nos últimos anos tornou-se moda as publicações no mundo anglo-saxónico prescindirem dela, o que se lamenta.

Bem ilustrado e complementado por figuras, mapas e tabelas que ajudam à compreensão do que se expõe, Cataclismo Atlântico irá muito provavelmente começar a surpreender (e a esclarecer) muitos leitores logo desde o seu início. Bastará a qualquer pessoa ler as seis páginas e meia do prefácio para perceber que aquilo que os activistas woke têm andado a tentar meter-lhes na cabeça é historicamente mal informado ou completamente falso. Efectivamente, nesse prefácio, David Eltis preocupa-se em inserir a história do tráfico transatlântico de escravos noutras histórias de tráfico e de escravidão, tentando contextualizar os horrores do comércio de escravos “em relação ao cenário do milénio anterior”. Não o faz para tentar minorar ou dissolver a brutalidade e injustiça do, então chamado, “odioso comércio”, nem para contrariar a aberrante decisão da ONU, do recente mês de Março, que considerou o tráfico transatlântico o maior e mais grave crime contra a humanidade — e que ainda não havia sido tomada quando Eltis escreveu —, mas para integrar o tráfico naquilo a que chama “a lista de crueldades catastróficas que a nossa espécie infligiu a si mesma”, ou seja, para o colocar no contexto de muitos outros cataclismos porque infelizmente esse tráfico não foi a única crueldade de grandes dimensões que brutalizou e ensanguentou o passado humano. Eltis também deita abaixo a ideia, propalada pelos activistas woke, de que a escravatura fora desde sempre contestada e diz-nos que ela era tão comum que mesmo o termo “desumano” parece inadequado, dada a generalização da sua prática no nosso passado. “É verdade” — acrescenta — “que os académicos conseguem citar um ou outro pensador ocasional com ressalvas, porém, até há 250 anos — e na maior parte do mundo muito depois disso — a escravatura era considerada uma condição infeliz, a ser evitada, mas certamente não para ser abolida”. Informa, também, no prefácio, que os africanos estavam profunda e extensamente envolvidos no comércio negreiro. Não apenas os chefes e reis, que vendiam grandes quantidades de pessoas, mas o africano comum que ia aos portos e outros pontos da costa fazer pequenos negócios, transacionando um a cinco escravos de cada vez. E diz-nos ainda, contra aquela que é a ideia corrente — e que, pela minha parte, tenho tentado combater —, que a teoria de que a escravatura nas Américas teria estado na base do desenvolvimento económico da Europa está errada, como o exemplo ibérico evidencia. De facto, foram os reinos ibéricos, e Portugal em primeiro lugar, que mais e mais longamente exploraram o sistema escravista e, no entanto, não foram eles, longe disso, que nos séculos XVIII e XIX mais se desenvolveram economicamente.
Depois do prefácio esses e muitos outros assuntos são magistralmente desenvolvidos nos sete capítulos que se seguem: o primeiro situa o tráfico transatlântico no contexto da História Universal da escravatura; o segundo faz uma resenha desse tráfico e do seu peso e significado económico nas Américas; o terceiro estuda-o do ponto de vista das estruturas europeias, pondo a tónica no domínio ibérico desse negócio; no quarto David Eltis dá grande destaque àquilo a que chama “o sistema português”, ou seja, aos métodos específicos dos portugueses, que, tendo chegado primeiro à África Negra, se tinham apossado dos melhores portos, para dominarem o comércio negreiro; no quinto tenta ver o tráfico do ponto de vista africano e procura estudar o seu impacto em África; no capítulo sexto reequaciona a questão das abolições e as forças que a propulsionaram; e no sétimo tenta responder à seguinte questão: o que foi para os ex-escravos a liberdade?
Não concordo com tudo o que David Eltis afirma. Temos, aliás, discordâncias que vêm de longe e que já debatemos algumas vezes, nomeadamente aqui. Mas não há qualquer dúvida de que Eltis é um historiador que sabe do que fala e que, nos últimos 40 anos, muito tem dado ao estudo das migrações transatlânticas, sobretudo ao tráfico de escravos. Foi ele que, dando seguimento ao trabalho pioneiro de Philip D. Curtin, esteve na origem da Slave Trade Database, actualmente tão usado para efeitos académicos e polémicos. Ou seja, quem quiser ficar a conhecer melhor e mais profundamente a história do tráfico transatlântico de escravos deve ler o livro, que aliás é escrito num estilo simples e atraente. David Eltis, que já escrevera outros grandes livros de História, como, por exemplo, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade (1987), pôs de pé uma grande obra historiográfica que merece uma multidão de leitores portugueses.