O mais recente Norte Conjuntura, da CCDR Norte, confirma-o: num trimestre em que as exportações nacionais de bens recuaram 6,6%, as da região cresceram 2,6%. O Alto Minho, o Cávado e o Ave somaram cerca de 2,8 mil milhões de euros em vendas ao exterior. É a economia portuguesa a dançar, em boa medida, ao ritmo do vira minhoto.
Mas não confundamos resistência com conforto. Os mesmos dados mostram que a indústria transformadora perdeu mais de 20 mil postos de trabalho. O emprego cresceu, sim, mas sobretudo nos serviços. Esta mudança pode traduzir maior sofisticação, quando esses serviços estão ligados à engenharia, à tecnologia, à consultoria e ao conhecimento. Pode também esconder uma erosão da base produtiva que sustenta exportações, inovação e coesão territorial.
Defender a indústria não é defender o passado. É defender a capacidade de criar valor fora dos grandes centros, de manter cadeias de fornecedores, de formar competências e de oferecer emprego qualificado em cidades médias. Uma fábrica nunca é apenas uma fábrica. À sua volta vivem transportes, manutenção, software, design, energia, restauração e comércio. Quando desaparece, o território perde muito mais do que um edifício e uma folha salarial.
O relatório traz também um dado positivo: os salários líquidos no Norte cresceram 4,6% em termos reais, acima da média nacional. Ainda assim, o salário médio regional continua abaixo do nacional. A resposta não pode ser competir pelo preço do trabalho. Tem de passar pelo aumento da produtividade, da escala e do valor acrescentado. Empresas mais fortes pagam melhor. Empresas descapitalizadas, pequenas por obrigação e bloqueadas por licenciamentos lentos não conseguem fazê-lo.
É aqui que a política económica falha demasiadas vezes. Portugal elogia a resiliência empresarial, mas trata-a como um recurso inesgotável. Celebra quem exporta, mas atrasa investimentos. Pede inovação, mas mantém burocracias incompatíveis com a velocidade dos mercados. Fala de competitividade, mas tolera energia cara, falta de habitação, mobilidade insuficiente e uma ligação ainda frágil entre a formação e as necessidades das empresas.
Também por isso, a queda do emprego jovem deve preocupar-nos. Uma região não retém talento apenas com bons cursos ou discursos sobre empreendedorismo. Retém-no com empregos adequados, salários que permitam viver, casas acessíveis e transportes que liguem pessoas a oportunidades. Habitação e mobilidade já não são apenas políticas sociais. São infraestrutura económica.
O Norte não pede um privilégio. Pede que o país reconheça aquilo que os números demonstram. Esta região não é apenas destinatária de políticas de coesão. É produtora de coesão, porque cria emprego, exporta, fixa população e dá futuro a territórios que Lisboa raramente vê com nitidez.
A pronúncia do Norte não é uma queixa. É uma proposta de país: produzir mais, exportar melhor, crescer com escala e pagar salários mais altos. O Minho não quer ser a nota folclórica da economia portuguesa, nem viver de elogios à sua resiliência. Quer condições para investir.
O vira minhoto tem passo rápido. Mas nenhuma dança se faz com um pé preso. Cabe ao Estado deixar de marcar o compasso à burocracia e aprender, finalmente, a acompanhar o ritmo de quem produz.
“O Minho não quer viver de elogios à sua resiliência. Quer condições para investir, crescer e pagar melhor.”