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(A) :: Um bocadinho mais que pouco

Um bocadinho mais que pouco

Apesar de todos os enganos e da forma como foi com eles que aprendemos a ser melhores, parece ter ficado por esclarecer que, primeiro, se reconhece e agradece. A seguir se dá. Só depois se exige.

Eduardo Sá
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O amor pelos nossos filhos pode ser, em muitas alturas — e contra o que mais desejamos — equívoco, a ponto de lhes fazermos mal.

Sobretudo quando lhes damos a entender que eles têm direito a tudo, façam ou não façam por merecê-lo. Sem darmos por isso, estamos a dizer-lhes que, se forem sempre por aí, isso vale um bocadinho mais que pouco. Porque mesmo que valham muito, é dando o melhor de si que eles merecem mais.

E sempre que, arrebatados pela sua inteligência, nos deslumbramos e não os corrigimos nem os interpelamos, nem os advertimos para a necessidade de escutarem, de se porem em causa e de pensarem com os outros de cada vez que tentam ser mais verdadeiros e mais simples para eles, isso vale um bocadinho mais que pouco. Eles são enormes para nós mas não tão grandes como o nosso amor por eles possa sugerir-lhes. Porque uma coisa é serem os maiores do mundo; outra, muito diferente e mais bonita, serem o melhor do mundo para nós.

E se os talentos que, com a nossa ajuda, eles construíram lhes foram alimentando a ilusão de que conseguem quase tudo de forma fácil — sem trabalho, sem método, sem perseverança e sem disciplina, sem insucessos nem erros — isso vale um bocadinho mais que pouco. Porque a descoberta do que somos capazes se faz a partir daquilo que nos falta, juntando a tudo o que sabemos o mais que as dúvidas e os sonhos, e as perguntas e os desejos nos podem dar.

E se, finalmente, do nosso amor eles retiram que somos capazes de tudo para que cresçam, para que sejam livres, para pensar por si e serem felizes, a ponto de nos exigirem sempre mais e mais e a culpa daquilo que são, do resto que não atingem ou das escolhas que lhes fujam acabe por nos ser sempre remetida, então é porque aquilo que lhes demos ficou aquém. Porque apesar de todos os enganos e da forma como foi com eles que aprendemos a ser melhores, parece ter ficado por esclarecer que, primeiro, se reconhece e agradece. A seguir se dá. Só depois se exige. E se não for assim, por mais que eles tenham crescido para lá de nós, o melhor do que lhes demos, por mais que tenha sido imenso, contra tudo o que mais desejamos, pode ter sido um bocadinho mais que pouco.