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Torque da Princesa de Vix. Depois de duas tentativas em oito meses, joia do século V a.C é roubada de museu francês

Tesouro celta com 2500 anos, o colar com meio quilo de ouro, descoberto em 1953, foi roubado em plena luz do dia de um discreto museu na Borgonha, reavivando o saque do Louvre.

Maria Ramos Silva
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Uma única peça em ouro maciço, com um peso de 480 gramas — mas sobretudo com uma carga história incalculável. O Torque da Princesa, ou Senhora de Vix, faz parte do Tesouro de Vix, um precioso acervo descoberto em 1953 por dois arqueológicos que até há poucos dias estava preservado no Museu Pays Châtillonnais – Trésor de Vix, em Châtillon sur Seine, na Borgonha. Ou fazia: na passada sexta-feira, pelas 10h30, em plena luz do dia e com o museu em funcionamento, o colar foi roubado da instituição, depois de duas tentativas mal sucedidas de roubo em novembro de 2025 e já em meados de julho de 2026.

De cara descoberta, os criminosos conseguiram roubar a joia passando-se por meros visitantes e saindo pela porta principal. “Os autores mostraram uma organização, velocidade de execução e determinação que lhes permitiram realizar o seu trabalho”, sublinhou o presidente da Câmara Jérémie Brigand.

Citado pela Point de Vue, o responsável acrescentou que os ladrões, que lograram quebrar a vitrina em questão, passaram pela receção como meros turistas e conseguiram aceder à peça, apesar de todas as medidas de segurança, e “fugir pela entrada principal com este precioso saque”, depois de terem estado cara a cara com outros visitantes do espaço. O sucedido rapidamente trouxe à memória o assalto ao Museu do Louvre e o desfalque gerado na galeria Apolo, em 2025, de onde foi desviada a coroa da imperatriz Eugénia.

Localizada no extremo norte do departamento francês Côte-d’Or, a pequena cidade de Châtillon-sur-Seine abriga um museu com um verdadeiro tesouro arqueológico: o Tesouro da Senhora de Vix. O conjunto de objetos, que tem como ex-libris o vaso de Vix, foi encontrado num túmulo real e ajudou o museu a juntar várias peças sobre o quotidiano na região de Châtillonnais através dos tempos. Nas suas escavações, René Joffroy e Maurice Moisson, dois amadores que exploravam o Monte Lassois, encontraram os restos mortais de uma figura feminina, que repousava tranquilamente, com as suas luxuosas joias e pertences, o recheio da câmara funerária que abria uma porta para o século V a.C.

Em forma de arco, o colar com 2500 anos vê reproduzido nas suas extremidades dois cascos, e ainda o pormenor de dois pequenos cavalos, numa alusão a Pégasus, o famoso cavalo alado da mitologia grega. A princesa celta usava ainda quatro pulseiras em cada pulso, anéis e uma fiada de pérolas em diferentes materias, do âmbar ao diorito. Não faltam também vestígios de oito fíbulas, espécie de pregadeira com que os Romanos e os Gregos prendiam as vestes.

Se o célebre vaso ou jarrão de Vix, com os seus 1,64 metros de altura e 208 quilos comprova as ligações entre gauleses e gregos neste período, outras peças, além do agora desaparecido torque, merecem atenção. É o caso de um recipiente redondo usado na antiguidade grega, persa e Médio Oriente em rituais religiosos; ou de um jarro em bronze.

Questionado sobre o valor que o colar pode representar aos nossos dias Jérémie Brigand referiu, citado pelo jornal Ici Burgundy, que só a investigação pode determinar os planos dos criminosos. “Há sempre o valor do ouro. Mas estamos a falar de um roubo para um colecionador? O colar vai ser derretido e revendido?”, especulou, recordando como nos últimos dois anos foram investidos 150 mil euros a reforçar a segurança do museu, nomedamente a terminar a instalação do dispositivo de videovigilância, incluindo ainda sensores de abertura de choque e detectores de movimento — que funcionaram nos últimos oito meses, quando o museu começou por ser testado.

A primeira tentativa de furto aconteceu na noite de 14 para 15 de novembro de 2025, algumas semanas após o espetacular roubo do Louvre. O alarme disparou rapidamente alertando os guardas de serviço e nada foi roubado. O segundo ensaio ocorreu há menos de 10 dias, entre 17 e 18 de julho, mais um vez sem sucesso para os ladrões.

O responsável de Châtillon-sur-Seine espera um rápido progresso na investigação. “Temos um poderoso sistema de videovigilância. Todas as exposições foram entregues à polícia. Temos esperança. A partir do momento em que o roubo foi realizado com rostos descobertos, ainda é possível identificar os autores. Esperamos que a polícia seja capaz de avançar nesta via”, afirmou, citado pela France 3.