A história está cheia de momentos de indefinição que terminam porque as comunidades políticas pereceram ou porque os desafios foram superados. Não há caso em que a superação tenha sido conseguida sem um objectivo, um rumo, uma visão para o depois que os governantes apresentaram à comunidade política que dirigiam. Saber comunicar é importante, mas sem mensagem o melhor comunicador não passa de uma farsa.
Desde o início que os governos de Luís Montenegro nos foram apresentados como reformistas. Que para o actual primeiro-ministro governar pressupõe mudar. Fazer. Construir. Andar para a frente. Mostrar decisão. Ser assertivo. Não ter dúvidas. Não hesitar. Tudo isso é óptimo e essencial para um governante, principalmente nos momentos decisivos, naquelas alturas em que a comunidade política, o povo, se apercebe que o modelo que adoptou para reger a sua vida se esgotou. Mas não basta. É preciso que a mensagem tenha conteúdo, que o que se faz tenha nexo e o que se constrói consistência. Tenha razão de ser. Compreenda-se. Porque de pouco vale andar para a frente se não sabemos para onde vamos.
Ora, esta é a grande falha de Luís Montenegro. Se o primeiro-ministro aprendeu com António Costa que é preciso mostrar acção e vontade reformista, nunca conseguiu definir no que consistiam essas reformas e no que visava essa acção. Qual é a visão que Montenegro e o PSD têm para o país? Ninguém sabe. Atenção que não duvido que qualquer membro do governo, deputado ou apoiante do PSD seja capaz de me encher os ouvidos com uma lista infindável de mudanças e de alterações a que chamam reformas. O problema é que estas não têm qualquer ligação entre si. Não são politicamente vendáveis (como agora se diz) porque não constituem um programa. Não apresentam um modelo. Não há um conceito. Ou como agora também se diz, não há substância.
Um apoiante deste governo mais bem-intencionado dir-me-á que isso não é assim tão importante. Mas é. Sempre foi. Todas as mudanças pressupõem uma visão. Pode ser simples; pode ser péssima. Mas é uma visão. A Monarquia caiu porque não a tinha; a República impôs-se porque inventou uma; o Estado Novo quis construir um estado corporativo e desenvolveu o ideal de um Portugal ultramarino; o 25 de Abril visou a democracia, o estado social e o projecto europeu. A pergunta a fazer agora é simplesmente esta: qual é o nosso objectivo para o futuro? É para esta simples pergunta que Luís Montenegro não tem resposta. E porque não a tem, as mudanças a que chama reformas não fazem sentido. Não são compreendidas. Perdem-se porque não acrescentam nada.
Winston Churchill venceu a guerra com uma mensagem; Charles de Gaulle recuperou a dignidade da França com uma ideia; Ronald Reagan uniu um país contra o império do mal; Margaret Thatcher venceu os cépticos e depois críticos e de seguida os opositores porque sabia que o queria para o Reino Unido, uma potência financeira que desse cartas no mundo. Salazar, Soares e Sá Carneiro defendiam o que queriam com a mesma intensidade com que combatiam o que não queriam.
A política nunca se fez sem comunicação, contrariamente a quem possa julgar que é apenas coisa dos tempos actuais. Mas também nunca se fez sem mensagem. E a mensagem, para existir, tem de ter conteúdo e este pressupõe que se pare um pouco para pensar e discutir o que se pretende. Algo que Luís Montenegro, ao que parece, nunca fez.