Foi numa recente, e muito comentada, entrevista à revista The Economist que Musk fez uma observação que espantou a entrevistadora, a editora da publicação, Zanny Minton Beddoes. A entrevista provocou a controvérsia do costume que, admito, já não tenho paciência para acompanhar. A pobreza dos lugares-comuns e a evidente má-fé de muitos dos indigentes que comentam as intervenções de Musk não merecem um segundo do meu tempo. Não quer isto converter o que o homem diz em pérolas de sabedoria oracular, mas as recorrentes acusações de “nazismo”, “extremismo” e outras maravilhas que classificam cada opinião que Musk dá, e que contraria os guardiões das nossas consciências, revelam mais sobre os acusadores do que sobre ele. De qualquer modo, não me interessam as opiniões de Musk sobre política ou sobre geopolítica, assim como sobre outros temas que tanto excitam a imaginação e o ódio de quem cuida da nossa educação colectiva. Mas há um campo onde as opiniões dele brotam de uma familiaridade da linha da frente do conhecimento num certo domínio. Essas convém não desprezar.
Entre outras coisas, a conversa versou a revolução tecnológica que nos foi dado testemunhar e, tanto quanto nos for possível, absorver sem nos destruirmos no caminho. Refiro-me, evidentemente, à revolução da inteligência artificial em conjugação com a revolução na robótica. Ambas são inseparáveis. E os efeitos de uma delas só podem ser compreendidos e, na medida do possível, previstos se a conjugarmos com a outra. Já tenho escrito sobre este novo mundo que se vai inaugurando neste espaço do Observador. Desta vez, quero concentrar-me num momento revelador das perplexidades que enfrentamos. Quero assinalar um momento aparentemente banal da entrevista, mas que expôs a debilidade conceptual da entrevistadora.
A páginas tantas, Musk fez a previsão de que, em 10 anos, as pessoas deixarão de precisar de dinheiro. Na tese dele, por volta de 2036, a revolução da robótica e da inteligência artificial produzirá uma tal quantidade de bens até agora adquiridos com dinheiro que deixaremos para trás essa dependência. Para que conste: um prazo de 10 anos parece-me impossível. De resto, a própria ideia de que existe uma fasquia histórica dessas no futuro é imensamente problemática. Mas deixemos isso de parte. O que nos foi dado a assistir foi a perplexidade patente de uma entrevistadora que não se coibiu de jogar a cartada da autoridade intelectual. Disse que era “economista” (palavra de honra) e que, portanto, num contexto desses, ter o Estado a distribuir gratuitamente rendimento pela população apenas produziria “inflação” e outras coisas do género.
Zanny Minton Beddoes pode até ser economista, mas entre tantos estudos e tanta escrita escapou-lhe a distinção categorial fundamental em economia. Uma distinção que é anterior a todas as outras distinções e categorias: a distinção entre escassez e abundância. Dito de modo simples, existe abundância quando os recursos económicos para satisfazer desejos e necessidades excedem esses desejos e necessidades. E, parece ser necessário acrescentar, a escassez é o contrário da abundância.
A história da Humanidade é a história da sobrevivência da nossa espécie em condições de (até muitíssimo recentemente) escassez aguda. O que Musk ali profetizou (com razão ou sem ela) foi a mesma profecia avançada por muitos dos nossos grandes fundadores intelectuais: a chegada da era da abundância. No início do século XVII, Francis Bacon foi o seu grande arauto, mas homens como Keynes, Marx e outros foram, de maneiras diferentes, profetas dessa nova era de abolição da escassez. Outros que não a profetizaram nunca deixaram de situar as suas reflexões precisamente no horizonte da escassez. Hegel, Montesquieu, Hobbes, entre outros, não fizeram outra coisa.
Ora, o mundo da abundância é radicalmente diferente do mundo da escassez. Desde logo, é um mundo onde a inflação, por definição, não existe. Nem a inflação, nem a maioria das restrições económicas e materiais que sustentam muitos dos conceitos económicos. Porquanto a economia é uma ciência do estudo do mundo humano em condições de escassez. Podemos até perguntar-nos se não será uma ciência que caduca com a realização das condições de abundância. Keynes previa que nos anos 20 do século XXI – a nossa década que já está mais perto do final do que do seu início –, o economista deixaria de ser absolutamente indispensável e passaria a ter o estatuto de um “dentista”. Para Marx, nem dentistas desse tipo habitariam o mundo com a chegada da abundância que, paradoxalmente, proporcionada pela aceleração do desenvolvimento económico gerado pelo injusto capitalismo, permitiria finalmente o comunismo. Com este, resolveria todas as contradições sociais e existenciais do ser humano moldado pela longa luta contra a escassez.
Nem precisamos de recorrer a pensadores ditos “utópicos”. O ponto fundamental aqui é a distinção categorial sem a qual nenhum destes problemas é sequer pensável. Para economistas antimarxistas, como Carl Menger, pai do neoliberalismo “austríaco” e apologeta da economia de mercado pura e dura, o comunismo podia perfeitamente ser a relação própria do estado de abundância. Mas como o mundo era circunstanciado pela escassez, a necessidade da propriedade privada tornava-se óbvia.
No fundo, Musk diz-se munido de conhecimento de facto suficiente para proclamar um futuro próximo de abundância. No caso dele, resultante da investigação levada a cabo pelas suas próprias empresas. Mas há 2400 anos um grande filósofo grego, quando introduzia um dos seus temas mais delicados, avisava os seus leitores com estas palavras:
Com efeito, se cada um dos instrumentos fosse capaz de executar a sua própria obra, quer por lhe ser ordenado, quer por o pressentir — tal como se conta das estátuas de Dédalo ou das trípodes de Hefesto, que o poeta diz entrarem por si mesmas na assembleia dos deuses —, de tal modo que as lançadeiras tecessem por si próprias e os plectros tangessem a cítara sozinhos, então não haveria necessidade nem de mestres-artesãos, nem de escravos.
Mas sobra um problema por resolver. Aristóteles, acima citado, era daqueles que pensavam, tal como Marx, que o humano só é verdadeiramente humano quando estiver emancipado da opressão exercida pela escassez. Outros supuseram que tal era uma ilusão, e que o humano era o que era, e se tornara o que se tornara, formado pela luta infindável contra a escassez. O que seria do homem quando (ou, se) a luta terminasse? Não me parece que possamos contar com Musk para resolver este dilema.