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(A) :: Tempo de vésperas

Tempo de vésperas

Porque protege o PS Luís Neves? Porque o convidou Montenegro para o Governo? Estamos a viver as vésperas de um amanhã engendrado nos silêncios do agora. E no medo que tolhe os protagonistas.

Helena Matos
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Lojas maçónicas, guerras dentro da PJ e pasta, a do director da PJ, por onde passaram informações sensíveis sobre tudo e todos são as explicações mais recentes para o paradoxo Luís Neves, o director da PJ que Montenegro levou para o Governo e  que a esquerda defende como um dos seus. E não se pode dizer que o caso do atrelado tenha acabado com este sentimento protector da esquerda em relação a Luís Neves. Veja-se a indiferença com que as recentes declarações do ministro da Administração Interna avisando que todos os que sejam “um estorvo ou contracorrente de uma decisão benéfica para o país serão afastados”, isto a propósito das possíveis resistências à substituição por civis dos agentes em funções administrativas  foram recebidas pelas habitualmente frenéticas brigadas da indignação que vasculham todas as frases proferidas pelos membros do Governo. Neste caso nada mais que um bocejo.

Ver o PS a procurar desviar as atenções de Luís Neves a todo o custo e Luís Montenegro tolhido perante um dos seus ministros era a última das coisas que esperávamos ver acontecer. Mas está a acontecer. E agora? Agora estamos a viver o tempo de vésperas de um dia que só podia terminar assim. Ou seja com o enfraquecimento da AD em detrimento do Chega, enfraquecimento esse para o qual o caso Luís Neves está a dar o seu contributo.

Recuemos às legislativas de 2025. A AD teve 31,21 % dos votos. O PS 22,83 %. O Chega 22,76 %.  No último barómetro da Aximage o PS subia para 33,4 % nas intenções de voto, o Chega para 23,5% e a AD descia para 23,2%. Resumindo, no dia que suceder a estas vésperas a direita continuará a ser maioritária no país mas quem a liderará será muito provavelmente André Ventura. E isto, mais do que uma vitória de Ventura, é o resultado do falhanço de Luís Montenegro. Ao ignorar a maioria de direita do eleitorado e apostar em ir fazendo acordos ora com o PS ora com o Chega, Montenegro desresponsabilizou André Ventura e condenou o seu governo a tornar-se a médio prazo o executor, obrigatoriamente medíocre, daquilo que vai acordando com o PS e que mais parece uma lista de banalidades para queimar tempo, como bem se vê nas condições apresentadas pelo PS para viabilizar o próximo orçamento.

A reforma estrutural que Montenegro nos legará é a prevalência do Chega sobre a AD. António Costa alterou demograficamente o país ao abrir as fronteiras. Montenegro, tudo o indica, alterará a correlação dos partidos de direita, deixando o PSD abaixo do Chega. É significativo que as reformas realmente estruturais que os nossos líderes têm feito nos últimos anos não correspondam ao que eles se propuseram fazer mas sim àquilo que ele negaram estar a acontecer — caso de António Costa com a imigração — ou até que àquilo que eles declarararam querer combater: caso de Montenegro com a ultrapassagem da AD pelo Chega.