É irónico que as primeiras discussões sobre o filme tenham começado com uma discussão acesa, ou mesmo violenta, sobre o ideal de beleza feminino e a representação da bela Helena de Tróia, uma vez que foi exactamente uma discussão deste género que conduziu à guerra de Tróia. Reza a tradição que três deusas (Atena, Hera e Afrodite) disputaram o célebre pomo que a deusa Discórdia lançou para a festa, dizendo, «para a mais bela». Zeus mandou-as submeterem-se ao julgamento de Páris, que escolheu Afrodite, deixando as outras jurando vingança contra os troianos. Se foi uma escolha Woke ou não Woke, acabou por ser «irrelevante», como avisara Christopher Nolan, ecoando a ideia de Eurípides, na tragédia «Helena», em que a Helena raptada era afinal apenas um vapor, uma miragem, questionando assim a toda a motivação da guerra de Tróia.
Parece-me que no texto atribuído a Homero também se questionam claramente as motivações da guerra de maneira brilhante sobretudo no episódio dos mortos (canto XI), não só na imprecação misógina de Agamemnon contra todas as mulheres, mas também no lamento de Aquiles, que afinal preferiria estar vivo e ser um escravo do que morrer coberto de glória no campo de batalha, aí também uma mãe se perdeu por causa da guerra e uma amizade com Ajax se quebrou irremediavelmente. Na linguagem visual que é o cinema, Nolan optou por representar a futilidade da guerra na imagem do rosto escarificado de Helena, que agora já não serve para nada.
No século IV a.C, Aristóteles explicou na sua Poética a dinâmica da adaptação de um mito para a linguagem audiovisual e mimética, o que implica unidade, economia e muitos cortes para não desviar o foco da atenção, que são, segundo ele, o que traz riqueza e divertimento ao texto escrito mas não resultam em palco. Não vale a pena apontar no filme personagens inventadas ou distorção da narrativa, também Sófocles distorceu e inventou personagens ao adaptar excepcionalmente o mito de Édipo. Assim há o Édipo de Sófocles, o Édipo de Séneca, o de Fellini, e são todos muito diferentes, tal como há agora a Odisseia de Nolan.
Alguns classicistas lamentaram, entre outras coisas, a ausência da célebre piada no episódio do Ciclope. É um episódio importantíssimo que nenhum realizador dispensou porque além da monstruosidade essencial ao entretenimento (e de o ciclope perverter a lei de Zeus hospitaleiro, comendo os hóspedes em vez de lhes dar de comer) ilustra a complexidade de Ulisses. Nesse episódio vemo-lo ser excepcionalmente inteligente e controlado e também excepcionalmente estúpido e descontrolado. Porém, quem vir o filme atentamente, vê que nessas cenas se evidencia, por gestos e acções, não por palavras, tanto a fronesis (pragmatismo) como a hubrys (desmesura) de Ulisses (não digo quais para não dar mais spoilers). A dita piada – e confesso que quando li o texto mais me pareceu um recurso à retórica para salvar a pele, típico dos gregos, do que uma «piada» – assenta unicamente na linguagem, sem expressão possível em imagem. Além disso, para fazer sentido, Nolan teria de trazer para a cena os outros ciclopes que vêm ajudar Polifemo, caso contrário a piada não serve para nada. Mais importante, houve por parte do realizador um compromisso em tornar a cena do Ciclope num momento de terror absoluto e nenhum terror resiste a exercícios retóricos que provocam um distanciamento crítico contrário ao pathos do terror. Quem quiser pode ver a versão de Konchalovsky em que a mesma cena é uma galhofice em que todos tocam flauta, cantam e dançam em amena cavaqueira com um ciclope. Alguns dizem que essa versão é mais fiel ao texto, eu confesso que estranhei ao ver Ulisses servir de parteira enquanto Penélope se contorce de dores no parto de Telémaco, ou Circe transformando os homens de Ulisses em felinos e com quem Ulisses tem noites escaldantes de sexo, isto quando no texto ele acede em dormir com ela apenas para não a zangar, já que é ela que manda ali. O que para mim se mostra na Odisseia de Homero não é tanto a mulher como lugar de prazer do homem, mas a noção de que há espaços exclusivos das mulheres e onde elas ditam as regras, seja uma ilha, seja a floresta de Baba Yaga, seja as ervas e as poções, seja a tecelagem, o lar ou o território das temíveis amazonas. Voltando à piada, acrescento que uma das minhas versões favoritas, a de 1911, também não tem a piada, porventura por se tratar de uma época em que o cinema mudo era pura imagem. Na verdade, uma das coisas que gosto mais nesta versão de Nolan é podermos eliminar o diálogo e compreender perfeitamente a história, deixando apenas a música e o som dos trovões que é o que traz grandeza épica ao filme e denuncia a presença dos deuses.
É certo que as opções de Nolan para tornar a história exequível em filme, como fundir na ilha de Calipso o episódio dos Lotófagos e a analepse em casa dos Feaces, são discutíveis, mas talvez defensáveis à luz de alguns artigos científicos sobre a questão da memória na Odisseia. Outros dizem que este novo Ulisses parece um veterano de guerra com SPT, para mim ele é sobretudo um herói que altera o paradigma do heroísmo: um sobrevivente que carrega demasiadas cicatrizes e confronta, aterrado, os fantasmas e as consequências dos seus erros: «chorei sentado na cama; e o meu coração não queria viver nem contemplar a luz do Sol» (p. 176). Quem ler a Odisseia saberá que página sim, página não, Ulisses, ou os seus companheiros, choram amargamente perante os infortúnios ou perante a lembrança cantada da guerra de Tróia. A dor é tal que às vezes tem de ser entorpecida, como mostra este trecho do canto IV: «Foi então que ocorreu outra coisa a Helena, filha de Zeus. No vinho de que bebiam pôs uma droga que causava a anulação da dor e da ira e o olvido de todos os males. Quem quer que ingerisse esta droga misturada na taça, no decurso desse dia, lágrima alguma não verteria: nem que mortos jazessem à sua frente a mãe e o pai; nem que na sua presença o irmão ou o filho amado perante os seus próprios olhos fossem chacinados pelo bronze. Tais drogas para a mente tinha a filha de Zeus, drogas excelentes, que lhe dera Polidamna, a esposa egípcia de Ton, pois aí a terra dadora de cereais faz crescer grande quantidade de drogas: umas curam quando misturadas; mas outras são nocivas». (p. 72)
Todavia, para mim, a moral da Odisseia consiste no facto de o sofrimento e os erros cometidos no passado não terem de nos imobilizar ou ec(a)lipsar. Façamos uma jangada e continuemos, só estar vivo já é uma bênção. Luc Ferry explica que na Odisseia se desenha filosoficamente o primeiro conceito de vida boa, o qual passa pela aceitação da mortalidade e do erro. Eu acrescento que também nas tragédias gregas o convite à convivência pacífica com o erro e a limitação humana são a mensagem fundamental. Neste ponto de vista, a história de Ulisses é moralizadora sim, como toda a cultura clássica. O que não quer dizer que não seja divertida, gosto de como aí a lei de Zeus Hospitaleiro funde ética e etiqueta, caso contrário somos todos canibais, ou porcos ou Ciclopes que se «ignoram uns aos outros».
Todavia, o maior feito de Nolan foi trazer à discussão e à leitura a obra de Homero e a revisitação dos clássicos. É estimulante constatar que existe uma obra que todos, de Norte a Sul e do Poente ao Levante, consideram suficientemente sua para ter uma palavra a dizer. E tudo indica que a discussão vai continuar, se o Sr. Elon Musk levar a sua avante, em breve teremos uma versão do texto homérico gerada artificialmente. Lá voltaremos ao debate e a discutir se Helena, se a Arte, se a IA é real ou é apenas um vapor.