A Odisseia, de Christopher Nolan, pertence aos filmes que nos devolvem perguntas que, ao longo dos séculos, burilaram a consciência humana. Discutir-se-á, certamente, a fidelidade a Homero, as opções de casting ou as liberdades do realizador. Mas a questão decisiva é anterior: que significa voltar a contar Ulisses (na versão latina; Odisseu, em grego)? Esta questão é um convite à nossa sociedade a empreender uma viagem.
Num tempo em que faltam referências comuns para a vida em sociedade, regressar aos clássicos não é arqueologia cultural. É procurar as pedras fundamentais sobre as quais aprendemos a pensar o destino, a coragem, a culpa, a fidelidade e a esperança. Os textos antigos não oferecem respostas prontas; oferecem algo mais raro: uma gramática para compreender o presente. Quando uma civilização deixa de ler as obras que lhe deram linguagem, perde também a capacidade de nomear os seus conflitos. Cai num analfabetismo humano, cultural e até emocional, que a bloqueia e reduz a convivência ao agudizar de tensões.
A força da história de Ulisses está no regresso. Depois da guerra, das tempestades, das seduções e dos naufrágios, Ítaca permanece como o lugar desejado. Ulisses percorre o mundo para voltar ao ponto de partida. Nessa estrutura há uma intuição profunda, mas também um limite. A história pode tornar-se um círculo: sair, perder-se, sofrer e regressar ao mesmo lugar, trazendo consigo feridas e culpas.
É aqui que a Odisseia deve ser colocada ao lado de outra viagem fundadora: a de Abraão. Também ele parte, mas não para regressar. Deixa a terra conhecida porque escutou uma promessa e caminha para um futuro que ainda não vê. Ulisses é conduzido pela memória de casa; Abraão, pela esperança de uma terra nova. Um procura recuperar o que perdeu; o outro aceita perder o que possui para receber um horizonte. A tradição judaico-cristã introduziu assim uma ideia decisiva: a história não é apenas repetição ou um retorno, mas um caminho, uma vocação. Não é um círculo fechado, mas uma promessa orientada para um fim.
É sugestiva, neste contexto, a presença de Sinon, interpretado por Elliot Page. Para lá das polémicas em torno do elenco, a personagem — ausente de Homero e recebida por Nolan através de Virgílio — aparece ligada ao engano, ao sacrifício e à culpa que assombra Ulisses. Não é preciso transformar o ator numa tese ideológica. Basta reconhecer que a interpretação dá corpo a uma humanidade encerrada nas consequências dos seus atos, incapaz de encontrar, dentro de si, a saída do labirinto. O homem contemporâneo conhece bem essa clausura: possui meios para ir cada vez mais longe, mas já não sabe para onde caminha.
Mesmo sem o telos bíblico e cristão, o filme conserva virtudes humanas sem as quais nenhuma civilização sobrevive. A primeira é a lealdade. Penélope espera sem fazer da espera uma passividade; guarda a casa, a memória e a identidade. A velha ama reconhece o senhor ao lavar-lhe os pés, porque o amor vê aquilo que o disfarce não consegue ocultar. E Argos, o cão envelhecido, permanece fiel até reconhecer aquele por quem esperou. Em todos eles, a lealdade é mais do que afeição: é uma ligação provada pelo tempo, pela ausência e pelo sofrimento.
Uma sociedade pode possuir tecnologia, riqueza e velocidade; sem memória e sem lealdade, não possui futuro. Para avançarmos, precisamos de saber de onde viemos. Por isso, à margem das polémicas, é bom que Ulisses tenha regressado. É bom que o cinema volte aos clássicos. Talvez, ao reencontrarmos Ítaca, percebamos que ainda precisamos de Abraão para não ficarmos presos ao eterno regresso e recuperarmos a coragem de caminhar em direção a uma terra nova.