Não é preciso ser um fã dos Trovante para ficar triste com a morte do Luís Represas. Para a minha geração é impossível em Portugal ele não ter-se atravessado à nossa frente e não sabermos cantar de cor canções que fez.
Assim de memória, a canção dos Trovante que primeiro teve mais impacto em mim nem era totalmente dos Trovante: foi o “Perdidamente”, que iniciou na Florbela Espanca os miúdos que chegavam à adolescência no final dos anos 80. Fazia parte do disco “Terra Firme”, o melhor deles.
À medida que o rock virou a minha vida do avesso, encontrei nele um dos assuntos que mais me simplifica a existência: se alguma coisa é rock, mesmo uma coisa que não é musical, é boa; se uma coisa não é rock, não me interessa. Sejamos sinceros: os Trovante nunca foram rock.
Daí que à medida que me armava em duro, afastei-me do “Perdidamente” e ainda mais do resto da discografia que ouvia com mais presunção de dever rejeitar. Sentia que tinha razões para isso: talvez a maior fosse aquela preservação conscenciosa de folclore misturada com o alívio de o fazer em semi-jazz. Ainda hoje me irrita um pouco.
Se a pessoa se puser a ouvir os primeiros discos dos Trovante recorda-se do país interessante que fomos depois de 1974. A música popular tornou-se abrileira e, portanto, mais colorida. Afinal, o Salazar tinha-nos tornado cinzentos durante décadas.
Mas em toda a cor que Portugal ganhou após a revolução esborratou-se também a paleta cromática. Esteticamente o país tornou-se uma folha com desenhos para colorir entregue a uma criança que teve antes uma professora demasiado rígida. Disseram-nos “pinta!” e atacámos imediatamente com lápis de cera na mão, daqueles com bicos mesmo grossos.
A nossa música popular ficou, como se diz agora em inglês, all over the place. Havia um imperativo ideológico à esquerda que tinha de ser soprado com flautas antigas, com gaitas berrantes, com ferrinhos estridentes. Num primeiro momento os músicos devem ter-se divertido mas naturalmente foram-se fartando (enter boom do rock português).
Que os músicos portugueses se foram fartando de terem de ser tão porta-vozes de um novo país que se estava a inventar num cocktail político-freudiano nota-se na discografia dos Trovante a meios dos anos 80. Até aí as canções eram desnecessariamente complicadas por essa obrigação folk atenuada com trejeitos de jazz. Nesses discos a média é por cada dez canções haver uma realmente boa (exemplos óbvios: “Saudade” do “Cais das Colinas” e “Xácara das Bruxas Dançando” do “84”).
“Terra Firme” é o disco da libertação. Certamente alimentado a muitas audições do “Graceland” do Paul Simon, os Trovante fizeram a sua própria revolução: canções sem portagens trovadorescas forçadas e virtuosismos ensaiados na loja Diapasão da Avenida João XXI. Nesse disco inverte-se a matemática: em nove canções só duas o país não sabe cantar de cor. Não é só um disco, é, como diz a minha amiga Filipa Rosário e a propósito da “125 Azul”, um “hino existencial que nunca deixou de fazer sentido”.
De repente os Trovante cantavam o Portugal que tínhamos e não o Portugal que supostamente tinha de ser inventado: era a Nacional 125, era o Verão português que nos torna sempre um país mais exuberante e sonhador, era o excesso lírico suicida da Florbela. Tudo isto era real e precisava de ser cantado sem aquela vigilância ideológica chiba que também nos está no sangue. E foi cantado na voz do Luís Represas.
Quem é que vai negar a voz leve e limpa do Luís Represas? Não sou de elogiar cantores pela voz que têm. É o mesmo que elogiar alguém que nasceu bonito. Geralmente elogio pela voz que querem ter, que é diferente. Mas é muito bonito o disco “Terra Firme” cantar o meu país em 1987 com a voz do Luís Represas. Também é à custa dela que o final da minha infância e princípio da adolescência se podiam fazer a sonhar com um país mais real e menos inventado.
Com o fim dos Trovante veio uma carreira a solo, meio pós-socialista queque que não me cativou. Já estávamos na década de noventa e eu ingressei na seita restrita da música pesada. Com quase 15 anos precisava de começar a praticar aquela fé de punk, grunge e metal junto da minha nova congregação. Precisava de concertos com porrada, com mosh pits que me baptizassem como fiel sincero. E deu-se um facto inesperado.
Um miúdo de 15 anos no início dos anos 90 em Portugal não tinha dinheiro para concertos (muito menos dado pelos paizinhos). O que tínhamos eram concertos à pala, oferecidos geralmente uma vez por ano pelas câmaras municipais. A de Sintra não nos deixava mal, num descampado na Portela. E o meu primeiro concerto a sério, o meu baptismo na molhada da multidão crente como eu nos poderes transformadores do barulho, aconteceu a 4 de Outubro de 1992, com Trovante e na primeira parte os Ritual Tejo.
Em inesperado contra-ciclo, os Trovante foram a banda sonora de uma noite que me envolveu noutro tipo de país de que tanto precisava: aquele em que eu próprio também podia fazer o meu estardalhaço. Formei a minha primeira banda dois meses depois. É como se o Luís Represas estranhamente me tivesse apadrinhado.
Quando a Rute me disse na manhã de quarta-feira passada que o Luís Represas tinha morrido senti aquela tristeza de ver partir alguém a quem devemos e não tivemos tempo de pagar.