Há cada vez mais clubes de leitura em Portugal? A resposta simples é sim. Embora não existam números concretos sobre essa evolução, há vários indicadores que apoiam esta perceção que se tem transformado em evidência.
Agora, vamos à resposta mais complexa. O Plano Nacional de Leitura tem atualmente uma área específica sobre clubes de leitura na escolaridade obrigatória, mas também no ensino secundário, em empresas e associações. No site oficial, há até um tutorial que ajuda a “organizar clubes de leitura”. De acordo com o plano de 2017, existe uma estratégia pensada para aumentar em “20% o número de clubes de leitura”. Estes são os que têm financiamento ou funcionam em rede, mas há muitos outros.
Com o crescimento das redes sociais, aumentou igualmente o espaço para estes movimentos coletivos. Há influenciadores literários, booktokers e comunidades virtuais que se dedicam a este universo, enquanto as livrarias, as bibliotecas, e sobretudo pequenos grupos individuais e informais, continuam a promover os encontros presenciais.
É possível perceber porque aumentou a procura?
Ler é geralmente um ato solitário, mas não tem de ser — pelo menos nem em relação às motivações e às consequências. Os clubes de leitura oferecem um espaço onde se partilham ideias (e até se olha para a obra acabada de ler com outra perspetiva) e é exatamente essa comunhão literária que as pessoas procuram. Além disso, cria-se um sentimento de pertença.
“A saturação dos ecrãs levou a que as pessoas procurassem outras formas de ocupar o tempo. Felizmente, para alguns, a leitura foi uma delas. Talvez as pessoas estejam a começar a entender que através do livro também podem fugir da correria do dia a dia”, consideram Álvaro Curia e Ludgero Cardoso, que na página Literacidades (com cerca de 27 mil seguidores no Instagram), promovem autores vivos de língua portuguesa.
Para Sónia Morais Santos, que criou um clube de leitura há quase uma década, os encontros cara a cara são sinónimo do “imenso prazer de estar com dezenas de pessoas durante horas, sem estarmos a ver redes sociais ou noutras distrações”.
Rita da Nova, escritora e autora do podcast Livra-te, concorda que o número de clubes presenciais tem aumentado e atribui esse facto à “vontade de regressar a uma realidade mais analógica, uma tendência que se começa a notar”. Por outro lado, reconhece que as redes socias têm feito um trabalho importante para motivar leitores. “Se antes as pessoas precisavam de se juntar presencialmente na sala de alguém, num café ou numa biblioteca para falar sobre livros, agora temos servidores no Discord, grupos no Instagram e no WhatsApp, aplicações como o Fable, videochamadas, etc. Isso faz com que os leitores — que antes talvez se sentissem sozinhos porque à sua volta poucas pessoas liam — encontrem outros leitores com quem gostam de conversar, mesmo que estejam em pontas opostas do país ou do mundo.”
Cristiana Rodrigues que, no Porto, dinamiza o Picnic Book Club, dá ainda outra explicação: “É também uma boa forma de fazer amigos na idade adulta, algo que deixa de ser tão fácil quando terminamos o percurso académico e entramos no mercado de trabalho”.
Nem sempre se encontra o clube de leitura ideal na primeira tentativa — tudo depende dos gostos literários e do que cada um pretende retirar destas comunidades. O mais fácil é sempre consultar as redes sociais, seguir páginas ligadas a literatura, livrarias, bibliotecas e até autores. Na impossibilidade de falar de todos aqui, o Observador reuniu histórias de clubes de leitura portugueses com objetivos distintos e opções internacionais, como o clube do livro da cantora Dua Lipa, que recentemente inaugurou um espaço na Livraria Lello como parte do projeto Service95.


Um clube de leitura que começou a medo
Foi há nove anos, em março de 2017, que Sónia Morais Santos concretizou finalmente uma ideia com que sonhava há algum tempo: criar um clube de leitura. Por essa altura já tinha um blogue de enorme sucesso, Cocó na Fralda, mas, ainda assim, receava que não houvesse interessados. “Apareceram oito [pessoas] e, dessas oito, há quatro que se mantêm”, conta ao Observador. Desde então, criaram-se grupos em Lisboa e no Porto que se reúnem pontualmente, mas durante largas horas. “Começamos às 19h e nunca termina antes das 23h ou meia-noite. Ali estamos a falar de livros e, por arrasto, de vida. E há partilhas, e há emoção, e há amizade.”
Entre as sessões presenciais — que são anunciadas nas redes sociais e estão sempre abertas a novos membros —, o debate nunca pára. O grupo de WhatsApp de Lisboa tem 79 membros, enquanto o do Porto tem perto de 50. As mulheres estão em maior número, mas há duas exceções que raramente falham. “Temos um homem em Lisboa, o Paulo, que é escritor e que se considera ‘uma de nós’. No Porto temos um homem, curiosamente também Paulo, que é um poeta e um intelectual e que pensei que iria uma única vez e, afinal, já vai há anos.”
Quanto a livros, não há regras ou imposições. Cada um lê o que quer e a quantidade que quer, há obras mais consensuais e outras que desencadeiam conversas mais intensas. “O Crime e Castigo [de Fyodor Dostoevsky] provocou um debate intenso, e mais recentemente o livro Ernestina, de José Rentes de Carvalho, por ter havido quem tenha gostado muito e por ter havido quem tenha achado uma chatice”, Sónia Morais Santos.
Entre uma rubrica diária na rádio, um projeto de entrevistas de vida (A Voz), as redes sociais e muitos de outros afazeres, Sónia Morais Santos mantém o clube de leitura por “carolice”, mas sobretudo porque lhe dá muito prazer. “Tudo o que possa promover a leitura e os encontros entre as pessoas, cara a cara, para refletirem juntas, é uma maravilha.”
Da biblioteca da escola para um podcast
Quando era miúda, a primeira escolha de Rita da Nova era quase sempre ler. Na biblioteca da escola participava num clube de leitura e não se importava minimamente por só haver três membros no grupo: uma professora, ela e um amigo. “Éramos os únicos que preferiam ler a ir lá para fora fazer outras coisas”, conta ao Observador.
Ao longo dos anos, foi participando noutros clubes de forma esporádica e, antes da pandemia, criou Uma Dúzia de Livros, onde havia um tema mensal e cada participante levava um livro que se encaixasse na temática. Depois surgiu um podcast, Livra-te, e as duas coisas acabaram por juntar-se. “Aí, o clube passou a chamar-se Clube do Livra-te, a ter duas escolhas mensais (as pessoas podem ler um, os dois ou nenhum) e a ter canais de discussão num servidor do Discord”, explica a responsável pelos podcasts Livra-te e Terapia de Casal (que faz parte dos podcasts Observador) e autora de vários livros (Apesar do Sangue, Quando os Rios se Cruzam e As Coisas que Faltam). Desde setembro de 2025, Rita passou a ter um convidado mensal, que traz “livros, géneros e ideias diferentes para a discussão”. A partir daí, o debate está sempre aberto no Discord. “Desta maneira, pessoas de qualquer parte podem juntar-se para ir conversando sobre as leituras ao seu ritmo.”
Seja nas plataformas online ou presencialmente, Rita da Nova garante que “a criança que antes estava só com um amigo na biblioteca da escola a falar sobre livros, fica muito contente com a realidade atual”. “Cada vez mais é necessário que fomentemos o nosso espírito crítico e os livros, sobretudo os de ficção, são uma ferramenta poderosa para trabalharmos o raciocínio e a empatia”, defende.
Um piquenique, um livro e uma conversa
Depois da faculdade e da entrada no mercado de trabalho, Cristiana Rodrigues queria recuperar algo que tinha perdido nesses anos: a vontade de ler avidamente como quando era miúda. Experimentou alguns clubes do livro no Porto, outros online, até descobrir o clube de leitura do Batalha (no conhecido cinema). Problema: “Esse clube funciona por temporada e quando acabou senti um certo vazio”. Virou-se então para as redes sociais e, sem grande confiança, fez um vídeo no TikTok a 10 de junho de 2024 à procura de pessoas — no final desse mês nascia o Picnic Book Club. Aqui, os livros respeitam dois critérios: são feministas e políticos. “O leque de géneros é abrangente — desde os romances à teoria —, mas os livros escolhidos têm sempre questões sociais, culturais ou políticas associadas”, explica ao Observador. Para Cristiana, “no estado atual do mundo e na conjuntura política que vivemos, é cada vez mais importante lermos de forma política, alargando os nossos horizontes e vivendo com espírito crítico”.
A História de Uma Serva, de Margaret Atwood, foi possivelmente o encontro mais concorrido. “Todos os dias vemos o aumento do discurso de ódio na internet e a proliferação de ideologias misóginas protagonizadas por figuras como Andrew Tate. É algo assustador e serve para nos relembrar que nenhum direito é garantido e que devemos continuar a lutar por eles.”
O grupo conta atualmente com quase 200 membros — maioritariamente mulheres na casa entre os 20 e os 35 anos e residentes nos distritos de Porto e Aveiro, embora também haja quem viaje desde Viana do Castelo. Tal como o nome indica, a ideia é que cada um leve um snack para um piquenique partilhado. Nos meses de bom tempo, os encontros acontecem nos jardins do Palácio de Cristal ou no Parque do Covelo, enquanto no inverno a discussão passa para o interior de cafés ou livrarias. No Instagram, além das informações práticas sobre os encontros presenciais, há sempre sugestões, além de livros e autores do mês.


O clube que divulga outros clubes
Álvaro Curia e Ludgero Cardoso criaram o clube do livro Literacidades em 2024 com o objetivo de promover autores vivos de língua portuguesa. “A curadoria é feita por nós. Ou lemos o livro antes e consideramos interessante para discussão ou já conhecemos o(a) autor(a) de outros livros lidos e portanto reconhecemos-lhe valor literário”, explicam ao Observador. Se um livro acaba por ser quase sempre uma experiência solitária, participar num clube de leitura é o oposto. “Servem para partilhar experiências de leitura e ouvir outras perspetivas. Para isso, os leitores precisam de se sentir à vontade.” É por isso que defendem os clubes de leitura informais. “Achamos que ninguém vai para um clube de leitura na expectativa de ouvir uma aula. Isso é função dos académicos. O leitor comum quer apenas pertencer a uma comunidade com os mesmos gostos, sobretudo depois de termos passados meses fechados em casa como na pandemia”, reconhecem.
As datas das sessões do clube — que acontecem em vários locais do Porto — são divulgadas no Instagram e é lá que Álvaro e Ludgero fazem outro trabalho fundamental: partilham outros clubes de leitura, espalhados pelo País. “Pensámos em divulgar aqueles que conhecíamos, numa fase inicial, independentemente de serem sobre livros comerciais ou literários. Depois fomos procurando outros clubes de leitura nos sites oficiais dos municípios e de algumas bibliotecas.”
A informação nem sempre é fácil de encontrar, ou é divulgada em cima da hora, e por isso os responsáveis pelo Literacidades gostariam de “criar um site para agregar o maior número possível de clubes de leitura do País. Esse poderia ser um trabalho do Plano Nacional de Leitura. É importante e necessário incentivar a leitura também no resto da população”.
Clubes para todos os leitores
Há dezenas de clubes de leitura espalhados por Portugal. As bibliotecas municipais e as livrarias locais são o primeiro local onde deve procurá-los. Além desses, multiplicam-se nas redes sociais pequenos grupos que se reúnem em jardins, cafés ou virtualmente. Discutem todo o tipo de livros, focam-se em temas específicos ou destinam-se a determinada faixa etária.
Em Lisboa, a Buchholz tem mensalmente um clube de leitura. “Não temos um livro específico, temos geralmente um tema que gera uma conversa que é conduzida por um autor ou moderador”, explica a livraria. Acontece geralmente na segunda quarta-feira do mês, é de entrada livre, e o tema é revelado no Instagram com antecedência. O último, por exemplo, foi dedicado a autores nórdicos — em agosto não há sessão, mas em setembro o clube retoma a atividade.
No Porto, todas as semanas a Livraria Lello recebe leitores seniores numa iniciativa gratuita. Lemos a Meias? nasceu de uma parceria entre a livraria e o movimento Reformers e pretende combater a solidão, oferecendo aos leitores reformados um pretexto para conviver, criar laços e partilhar opiniões.
O bookclub Crescer a Ler é para miúdos; há um clube de leituras feministas que se reúne na livraria Snob, em Lisboa; em Cascais discutem-se livros de não-ficção literária; o Clube do Livro Silencioso tem pessoas a ler em conjunto, mas precisamente assim, em silêncio; e, no Centro Comunitário LGBTI+, o grupo ILGA-te à Leitura reúne-se todos os meses para partilhar ideias.
A lista não tem fim e, enquanto não chega o tal site agregador com que Álvaro Curia e Ludgero Cardoso sonham, a dupla faz um ótimo trabalho de organização e divulgação. O que procura está possivelmente nas agendas mensais do Instagram do Literacidades.
E clubes do livro internacionais, há?
O mais recente (e badalado) chama-se Service95 Book Club e tem a mão (ou os olhos) de Dua Lipa. Todos os meses, a cantora partilha um livro e explica os motivos da escolha. A partir daí há vários conteúdos que se ramificam, como os livros que influenciam a escrita do autor do mês ou a sugestão de uma banda sonora que pode acompanhar a obra. Além disso, há uma newsletter mensal para subscrever e entrevistas de Dua Lipa a vários autores. Como parte deste projeto, em junho deste ano, a Livraria Lello, no Porto, inaugurou a Manifesto Library, um espaço com curadoria da cantora que reúne cerca de cem obras que foram censuradas ou proibidas em diversas partes do mundo.
Oprah, a pioneira
O primeiro clube de leitura dinamizado por uma figura pública internacional que ganhou uma dimensão estratosférica foi, possivelmente, o Oprah’s Book Club, criado em 1996 por Oprah Winfrey. Não há propriamente espaço para interagir ou encontros presenciais, mas sugestões há muitas. Literatura, biografias e temas disruptivos — tudo cabe aqui e tudo o que entrar aqui transforma-se em sucesso.
Dos livros para os ecrãs
Os livros que recebem o (já prestigiado) selo do Reese’s Book Club, criado pela atriz Reese Witherspoon, vão quase sempre parar às listas de bestsellers de jornais como The New York Times. São histórias de ficção e têm sempre mulheres como protagonistas — muitas obras já tiveram adaptações para séries, como Daisy Jones & the six ou Little Fires Everywhere. A escolha do mês é sempre a novidade mais aguardada, mas o clube de leitura já se estendeu para um podcast, um blogue e até merchandise, como uma sweatshirt ou um tote bag.
Poesia para jovens leitores
Numa faixa etária mais jovem, a modelo Kaia Gerber deu início à Library Science durante a pandemia e a comunidade entretanto cresceu para dar vida a um site e redes sociais. Aqui fala-se sobretudo de poesia e de vozes pouco conhecidas que podem passar ao lado dos clubes de leitura mais comerciais.
Cada leitor tem um clube
Em plataformas como a Goodreads é possível encontrar centenas de clubes de leitura. Estão lá os mais conhecidos, já referidos em cima, mas também um grupo de “viciados em YA [Young Adult]” ou o Booktok, onde aqueles que se tornaram booktokers podem interagir sem competir por números de visualizações.
A pesquisa faz-se pelo nome do grupo, pela descrição, ou, para quem não sabe bem o que pretende, por género (do romance à ficção científica). Cada leitor tem um clube no qual se encaixa, basta ter paciência para procurar.