O Centro Comercial La Vie Guarda transformou os cinemas Cineplace Guarda numa loja Normal, sem a aprovação do Ministério da Cultura. Por lei, a demolição ou a alteração de uso de recintos de cinema depende de uma autorização prévia do membro do Governo responsável pela área da cultura, sob parecer da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC). Mas o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto não aprovou o pedido de desafetação para as salas.
A abertura da loja da cadeia dinamarquesa no passado dia 15 de julho foi noticiada na imprensa local. “A Normal foi instalada no local onde antes funcionava o Cinema do Centro Comercial guardense (Cineplace)”, lê-se no jornal O Interior.
O Cineplace Guarda é um dos cinemas que aguarda uma decisão do ministério tutelado por Margarida Balseiro Lopes. O pedido de desafetação à atividade cinematográfica foi, de facto, submetido este ano, e consta no Relatório do Grupo de Trabalho Informal Desafetação de Recintos de Cinema e Exibição Cinematográfica em Portugal, divulgado em março e consultado pelo Observador. Mas não houve decisão ainda sobre a matéria. Na terça-feira, numa audição parlamentar, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, disse que aguardava os relatórios da IGAC sobre os pedidos de desafetação de atividade de salas de cinema e que “até novembro, impreterivelmente”, tomaria uma decisão. As decisões da tutela vão ser tomadas à luz de uma nova portaria, que entrou em vigor em junho, que altera o regime de desafetação de atividade cinematográfica das salas de cinema.
Só que, entretanto, a loja de variedades abriu no piso 2 do centro comercial La Vie Guarda, precisamente na zona ampla onde ficavam os antigos cinemas, como consta no mapa disponibilizado no site do centro e confirmou o Observador com uma fonte ligada ao centro comercial.

Guarda deixou de ter exibição comercial e regular de cinema em janeiro, na sequência do encerramento definitivo das quatro salas do Centro Comercial La Vie. A decisão surgiu após o término do contrato com a empresa Cineplace, responsável pela exploração do espaço, e já depois de, a 26 de dezembro, ter sido comunicada uma suspensão temporária por “motivos técnicos e operacionais”. O fim do acordo, aliado às transformações no consumo audiovisual e à preferência crescente pelos serviços de streaming, ditou o encerramento do cinema instalado no centro, comunicava então o La Vie. O atual modelo de funcionamento das salas exige a garantia de um número mínimo de espectadores, condição que se revelou difícil de manter de forma regular nos últimos anos, acrescentava o mesmo comunicado.
Por sua vez, a exibidora Cineplace alegava o encerramento com a aplicação de um Plano Especial de Revitalização (PER), no qual a empresa apontava a redução da afluência como um dos principais fatores de desequilíbrio.
Na altura, a Câmara Municipal da Guarda não se comprometeu com o regresso do cinema comercial à cidade, mas dizia estar a acompanhar a situação que levou ao encerramento das quatro salas existentes no centro comercial local. “Tanto quanto me foi dado a entender, a empresa está em insolvência, não podemos injetar capital na empresa, é ilegal, iríamos todos presos, mas era bom que alguém no país, porque é uma empresa nacional, averigue como se chegou a este ponto”, disse então o presidente do município, Sérgio Costa (Pela Guarda – Nós, Cidadãos!/PPM), à agência Lusa. “Vamos acompanhar a situação, para ver o que é que um futuro próximo nos pode trazer. Mais do que isto não sei falar, por agora”, garantiu.
Não é apenas na Guarda que há pedidos de desfetação pendentes relacionados com a Cineplace. Na verdade, o circuito de exibição cinematográfica da empresa em Portugal aproxima-se do fim definitivo. No final de janeiro, o Jornal de Negócios noticava a decisão do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte de declarar a insolvência da exibidora a 16 de janeiro, na sequência de um processo intentado em meados de novembro do ano anterior. A decisão judicial surgiu depois de um período de forte retração da empresa de matriz brasileira que, alegando a insustentabilidade financeira do negócio, já tinha encerrado seis dos seus complexos ao longo de 2025, estando o encerramento das restantes salas no mesmo caminho, escrevia o mesmo jornal.
A operação do Grupo Orient — grupo brasileiro detentor da marca Cineplace — no mercado português remonta a 2013, ano em que assumiu a gestão dos dez complexos de cinema anteriormente operados pela insolvente Socorama/Castello Lopes nos centros comerciais da Sonae Sierra. A expansão da rede em solo nacional consolidou-se em 2016, altura em que o portfólio atingiu os 13 estabelecimentos com a entrada nos centros comerciais da marca La Vie.
Estes ativos imobiliários mudaram de mãos mais recentemente: a 6 de março de 2025, a Point Capital Partners — através do fundo de capital de risco Shoppings Ibéria I — comunicou à Autoridade da Concorrência (AdC) a aquisição do controlo exclusivo dos centros comerciais La Vie Guarda e La Vie Caldas da Rainha.
Contactada, a administração do centro comercial La Vie não quis prestar declarações e remeteu para a Wider Property, que faz a gestão comercial do espaço. Por e-mail, indicam que “o processo em apreço está a ser tratado directamente com as entidades oficiais a quem legalmente compete esta gestão e de acordo com as últimas directivas publicadas oficialmente este ano, designadamente em junho passado” e que “estando em curso um processo administrativo devidamente enquadrado na lei, não cremos ser curial pronunciarmo-nos publicamente sobre o mesmo”.
O Observador tentou ainda obter declarações junto da Cineplace mas tal não foi possível até ao momento e o e-mail que se encontra no site foi desativado. Da mesma forma, a Point Capital Partners, que detém o centro comercial, não respondeu ao pedido de contacto deste jornal. O Observador tentou obter declarações junto da cadeia dinamarquesa de lojas de variedades, mas também não obteve respostas.