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Centro Comercial La Vie Guarda transformou cinemas em loja Normal sem aprovação do Ministério da Cultura

Pedido de desafetação foi submetido, mas tutela não tomou decisão. Ainda assim, centro comercial cedeu antigo espaço cinematográfico, encerrado em janeiro, à cadeia dinamarquesa.

Joana Moreira
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O Centro Comercial La Vie Guarda transformou os cinemas Cineplace Guarda numa loja Normal, sem a aprovação do Ministério da Cultura. Por lei, a demolição ou a alteração de uso de recintos de cinema depende de uma autorização prévia do membro do Governo responsável pela área da cultura, sob parecer da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC). Mas o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto não aprovou o pedido de desafetação para as salas.

A abertura da loja da cadeia dinamarquesa no passado dia 15 de julho foi noticiada na imprensa local. “A Normal foi instalada no local onde antes funcionava o Cinema do Centro Comercial guardense (Cineplace)”, lê-se no jornal O Interior.

O Cineplace Guarda é um dos cinemas que aguarda uma decisão do ministério tutelado por Margarida Balseiro Lopes. O pedido de desafetação à atividade cinematográfica foi, de facto, submetido este ano, e consta no Relatório do Grupo de Trabalho Informal Desafetação de Recintos de Cinema e Exibição Cinematográfica em Portugal, divulgado em março e consultado pelo Observador. Mas não houve decisão ainda sobre a matéria. Na terça-feira, numa audição parlamentar, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, disse que aguardava os relatórios da IGAC sobre os pedidos de desafetação de atividade de salas de cinema e que “até novembro, impreterivelmente”, tomaria uma decisão. As decisões da tutela vão ser tomadas à luz de uma nova portaria, que entrou em vigor em junho, que altera o regime de desafetação de atividade cinematográfica das salas de cinema.

Só que, entretanto, a loja de variedades abriu no piso 2 do centro comercial La Vie Guarda, precisamente na zona ampla onde ficavam os antigos cinemas, como consta no mapa disponibilizado no site do centro e confirmou o Observador com uma fonte ligada ao centro comercial.

Guarda deixou de ter exibição comercial e regular de cinema em janeiro, na sequência do encerramento definitivo das quatro salas do Centro Comercial La Vie. A decisão surgiu após o término do contrato com a empresa Cineplace, responsável pela exploração do espaço, e já depois de, a 26 de dezembro, ter sido comunicada uma suspensão temporária por “motivos técnicos e operacionais”. O fim do acordo, aliado às transformações no consumo audiovisual e à preferência crescente pelos serviços de streaming, ditou o encerramento do cinema instalado no centro, comunicava então o La Vie. O atual modelo de funcionamento das salas exige a garantia de um número mínimo de espectadores, condição que se revelou difícil de manter de forma regular nos últimos anos, acrescentava o mesmo comunicado.

Por sua vez, a exibidora Cineplace alegava o encerramento com a aplicação de um Plano Especial de Revitalização (PER), no qual a empresa apontava a redução da afluência como um dos principais fatores de desequilíbrio.

Na altura, a Câmara Municipal da Guarda não se comprometeu com o regresso do cinema comercial à cidade, mas dizia estar a acompanhar a situação que levou ao encerramento das quatro salas existentes no centro comercial local. “Tanto quanto me foi dado a entender, a empresa está em insolvência, não podemos injetar capital na empresa, é ilegal, iríamos todos presos, mas era bom que alguém no país, porque é uma empresa nacional, averigue como se chegou a este ponto”, disse então o presidente do município, Sérgio Costa (Pela Guarda – Nós, Cidadãos!/PPM), à agência Lusa. “Vamos acompanhar a situação, para ver o que é que um futuro próximo nos pode trazer. Mais do que isto não sei falar, por agora”, garantiu.

Não é apenas na Guarda que há pedidos de desfetação pendentes relacionados com a Cineplace. Na verdade, o circuito de exibição cinematográfica da empresa em Portugal aproxima-se do fim definitivo. No final de janeiro, o Jornal de Negócios noticava a decisão do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte de declarar a insolvência da exibidora a 16 de janeiro, na sequência de um processo intentado em meados de novembro do ano anterior. A decisão judicial surgiu depois de um período de forte retração da empresa de matriz brasileira que, alegando a insustentabilidade financeira do negócio, já tinha encerrado seis dos seus complexos ao longo de 2025, estando o encerramento das restantes salas no mesmo caminho, escrevia o mesmo jornal.

A operação do Grupo Orient — grupo brasileiro detentor da marca Cineplace — no mercado português remonta a 2013, ano em que assumiu a gestão dos dez complexos de cinema anteriormente operados pela insolvente Socorama/Castello Lopes nos centros comerciais da Sonae Sierra. A expansão da rede em solo nacional consolidou-se em 2016, altura em que o portfólio atingiu os 13 estabelecimentos com a entrada nos centros comerciais da marca La Vie.

Estes ativos imobiliários mudaram de mãos mais recentemente: a 6 de março de 2025, a Point Capital Partners — através do fundo de capital de risco Shoppings Ibéria I — comunicou à Autoridade da Concorrência (AdC) a aquisição do controlo exclusivo dos centros comerciais La Vie Guarda e La Vie Caldas da Rainha.

Contactada, a administração do centro comercial La Vie não quis prestar declarações e remeteu para a Wider Property, que faz a gestão comercial do espaço. Por e-mail, indicam que “o processo em apreço está a ser tratado directamente com as entidades oficiais a quem legalmente compete esta gestão e de acordo com as últimas directivas publicadas oficialmente este ano, designadamente em junho passado” e que “estando em curso um processo administrativo devidamente enquadrado na lei, não cremos ser curial pronunciarmo-nos publicamente sobre o mesmo”.

O Observador tentou ainda obter declarações junto da Cineplace mas tal não foi possível até ao momento e o e-mail que se encontra no site foi desativado. Da mesma forma, a Point Capital Partners, que detém o centro comercial, não respondeu ao pedido de contacto deste jornal. O Observador tentou obter declarações junto da cadeia dinamarquesa de lojas de variedades, mas também não obteve respostas.