“É isto que queremos de um líder. Um líder que se preocupa com as pessoas. Queremos unir [as pessoas] — é por isso que estamos aqui hoje e é isso que vamos fazer no Mundial.” Foi com estas palavras que, no final do ano passado em Nova Iorque, Gianni Infantino atribuiu a Donald Trump o primeiro “Prémio da Paz da FIFA”. Pouco menos de duas semanas depois de ter recebido a final deste mesmo Mundial, Nova Iorque é agora palco de uma competição completamente diferente: a corrida para suceder a António Guterres no cargo de secretário-geral da ONU.
Esta quinta-feira, decorreu na sede das Nações Unidas um debate transmitido em direto com os seis aspirantes ao cargo. Mas o leque de candidatos ainda pode ser alargado ao longo do verão, e o Presidente dos Estados Unidos poderá estar à procura de devolver a honra e os elogios ao presidente da FIFA, nomeando-o para o cargo. “Ele é respeitado por todos por todo o mundo e tem uma habilidade especial para aproximar as pessoas”, afirmou uma pessoa próxima do Presidente sobre a sua visão de Infantino, ao New York Post.
Devido à natureza do processo de escolha do secretário-geral, é praticamente impossível que Infantino chegue sequer a ser nomeado ou, muito menos, escolhido. Porém, muito mais realista é a possibilidade de a administração Trump utilizar o poder de veto dos Estados Unidos na ONU para forçar a nomeação de um candidato próximo de Washington, realçam os especialistas ouvidos pelo Observador.
A possível pressão dos Estados Unidos está, ainda assim, longe de ser a maior preocupação da ONU, que lida, neste momento, com a situação internacional mais complexa desde o início do século XXI. Ao comboio de desafios — que vai da situação financeira da organização ao surgimento de novos conflitos geopolíticos — soma-se uma profunda crise de legitimidade. “As organizações raramente desaparecem (a Liga das Nações sobreviveu até 1946), mas podem tornar-se uma mera sombra do que podiam e deviam ser”, alerta Thomas Weiss, professor emérito do CUNY Graduate Center, ao Observador.
Corrida começou em novembro, mas ainda não aqueceu
O processo para encontrar o sucessor de António Guterres começou há quase um ano, com uma carta enviada pela presidente da Assembleia Geral aos Estados-membros das Nações Unidas, para que nomeassem candidatos — que não precisam de ser indicados pelos seus Estados e devem disponibilizar publicamente o seu currículo e uma declaração de intenções. No dia seguinte ao anúncio, a Argentina lançou o primeiro nome. Na carta, Annalena Baerbock pedia aos países que indicassem nomes até ao início de abril, mas o prazo não é vinculativo.
Este é um traço comum do processo de nomeação do secretário-geral que a cada ciclo, de cinco em cinco anos, é adaptado e aperfeiçoado: muitas das regras são apenas informais e não vinculativas, como a regra de rotatividade regional. Por exemplo, em 2016, esta regra apontava que o novo líder da ONU devia ser da Europa de Leste, mas um português acabou por ser o escolhido. Esta mesma regra aponta que o décimo secretário-geral deve ser oriundo da América Latina.

Chegado o prazo proposto, cinco nomes tinham sido apresentados, mas Virginia Gamba, candidata nomeada pelas Maldivas, também já tinha sido retirada da corrida. No final de abril, a Assembleia Geral realizou a primeira ronda de diálogos interativos, sessões em que os candidatos respondem a questões feitas pelos Estados-membros e pela sociedade civil. No final de junho, realizou-se uma nova ronda destas “entrevistas” — desta vez, com duas novas candidatas, entretanto nomeadas.
Esta quinta-feira, os seis candidatos encontraram-se frente a frente em Nova Iorque para um longo debate transmitido em direto em que debateram os obstáculos que a ONU enfrenta. Contudo, a corrida continua morna. Por um lado, os candidatos “partilham um diagnóstico semelhante dos problemas, principalmente no que toca à marginalização da ONU nos processos de paz e diplomacia”, aponta Daniel Forti, responsável pelos assuntos da ONU no think tank Crisis Group. A divergência “está na forma como atacariam o problema” e no currículo de cada um, explica ao Observador.
Por outro lado, a fase mais crítica do processo ainda nem sequer começou. Para um líder ser eleito, deve reunir nove votos favoráveis entre os 15 membros do Conselho de Segurança e nenhum veto dos cinco membros permanentes. A primeira destas votações informais deve acontecer no dia 30 de julho, sendo depois o processo repetido ao longo do verão — e, normalmente, até outubro. Até lá, ainda se irá realizar a 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o maior evento anual da organização.
“A história do Infantino é uma lembrança de que novos candidatos ainda podem saltar para o pote, especialmente se nenhum dos aspirantes que já existem se sair muito bem nas votações informais do Conselho de Segurança”, realça Richard Gowan ao Observador. O diretor do programa de Problemas e Instituições Globais do Crisis Group não descarta esta opção, até porque os membros permanentes, em particular a China e os EUA, ainda não demonstraram o seu apoio por nenhum dos seis candidatos a concurso.
Quem são e o que defendem os seis candidatos na corrida
Rafael Grossi
Rafael Grossi é argentino, foi nomeado pela Argentina no dia 26 de novembro de 2025, e é apontado por alguma imprensa internacional como “o favorito”. Contudo, os especialistas ouvidos pelo Observador recusam utilizar esta expressão para se referir a qualquer um dos candidatos. Grossi é, atualmente, o diretor da Agência Internacional de Energia Atómica e o seu nome tem ganho destaque pelo seu envolvimento na guerra na Ucrânia, na monitorização da central nuclear de Zaporíjia, e no Irão, no acompanhamento do programa nuclear.
O seu longo currículo como diplomata e o seu conhecimento nestas áreas levam-no a defender um secretário-geral com um papel mais interventivo, que “utiliza todas as ferramentas à mão”, afirmou durante o debate. Entre os seis candidatos, Richard Gowan destaca Grossi como “invulgar” pelo facto de ter “desvalorizado alguns temas como o combate às alterações climáticas, que os outros candidatos querem priorizar”.

Michelle Bachelet
Michelle Bachelet foi nomeada no dia 2 de fevereiro pelo seu país natal, o Chile, em conjunto com o Brasil e o México. A chegada ao poder de um novo Presidente, de extrema-direita, levou o Chile a retirar o seu apoio à nomeação, o que permite perceber logo à partida a inclinação ideológica da candidata. Bachelet, antiga Presidente do Chile, permanece na corrida, apoiada pelo México e o Brasil.
Do seu currículo, destaca-se ainda a sua liderança do Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, onde travou diálogo com as potências e recusou pressões políticas das mesmas. Bachelet prometeu levar esse compromisso com a luta pelos Direitos Humanos em todo o globo para a liderança das Nações Unidas. “Vou dizer em voz alta aquilo que considero ser a minha autoridade moral e o meu dever”, declarou.

Rebeca Grynspan
Grynspan foi vice-presidente da Costa Rica, país que a nomeou no dia 3 de março, e é atualmente secretária-geral da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento, cargo para o qual foi nomeada por Guterres, pelo que é vista como uma candidata de continuidade. A par com a intervenção em “cenários de conflito”, Grynspan prima pela aposta no desenvolvimento como ferramenta de construção de paz.

Macky Sall
Antigo Presidente do Senegal e da União Africana, foi nomeado pelo Burundi e é o único candidato não oriundo da América Latina. A sua abordagem para relegitimar a ONU passa por reformas que tornem a organização mais “ágil e eficaz” e que promete implementar logo nos primeiros 100 dias do seu mandato. O seu objetivo é “aproximar as pessoas” através do diálogo.

María Fernanda Espinosa
Nomeada a 11 de maio por Antígua e Barbuda, já depois da primeira fase de entrevistas, a equatoriana que já presidiu à Assembleia Geral da ONU não defende apenas a intervenção, mas a “prevenção muito precoce de conflitos”. “Eu mesma estarei lá, a carregar a bandeira da ONU”, declarou. A sua candidatura destaca-se pelo profundo conhecimento daquilo que classifica como “a máquina da ONU”.

Carolyn Rodrigues-Birkett
Rodrigues-Birkett passou o último ano sentada no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como representante da Guiana na ONU. Foi nomeada no dia 15 de junho pelo seu país natal, mas reúne o apoio unânime dos países do CARICOM (Comunidade Caribenha). A candidata prometeu continuar a dar rosto aos países mais sub-representados da organização caso chegue ao cargo de secretária-geral. “Eu seria uma secretária-geral que se esforça, seja no Irão, no Haiti, no Sudão ou na República Democrática do Congo”, declarou.

Uma organização fragmentada e subfinanciada para lidar com um mundo em crise
“Diplomata, funcionário público e CEO em partes iguais, o secretário-geral é símbolo dos ideais das Nações Unidas e porta-voz dos interesses dos povos do mundo, em particular dos mais pobres e vulneráveis entre eles.” É assim que as próprias Nações Unidas definem, no seu website, o cargo de secretário-geral. Se o acumular de tantas funções já faria deste um posto difícil, o contexto internacional atual torna-o ainda mais desafiante.
Durante o mandato de António Guterres, o mundo assistiu ao acelerar das consequências das alterações climáticas, à explosão da Inteligência Artificial, a uma pandemia, a um número recorde de pessoas em situação de fome, ao eclodir de uma guerra na Europa pela primeira vez em duas décadas, a dois genocídios, na Faixa de Gaza e no Sudão (classificados como tal por painéis das Nações Unidas) — e tudo isto contribuiu ainda para também aumentar os refugiados para um número recorde.
O funcionamento da ONU não acompanha um contexto internacional em que os problemas estão cada vez mais interconectados. Pelo contrário, a reascensão dos nacionalismos e a polarização dos sistemas políticos fragilizaram o diálogo enquanto ferramenta diplomática, algo que é visível principalmente dentro do Conselho de Segurança, onde as interações são “transacionais”, define o Security Council Report de maio de 2026, que se dedica a analisar o funcionamento deste organismo.

“O hard power está na moda outra vez e a ordem internacional assente na Carta das Nações Unidas está fraturada”, resume Daniel Forti, que também aponta o dedo às “divisões no Conselho de Segurança”. Além dos problemas sistémicos que a organização enfrenta — e que acenderam o debate sobre a necessidade de reforçar o poder da Assembleia Geral e repensar o poder de veto dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França —, o novo secretário-geral irá enfrentar, a partir da tomada de posse no dia 1 de janeiro de 2027, problemas bem mais imediatos: “Problemas de gestão e orçamento“, especifica Richard Gowan.
O especialista aponta que António Guterres já iniciou trabalhos na direção de reduzir o número de funcionários e juntar agências, de forma a tornar a gestão financeira mais eficaz. Contudo, continua a impor-se um problema de falta de fundos e os analistas são rápidos a encontrar o principal culpado no maior financiador da organização. “A ONU está com uma grande falta de fundos, em grande parte porque os EUA não estão a pagar a sua parte“, afirma o analista do Crisis Group.
O problema já tinha sido diagnosticado por especialistas da Organização Mundial da Saúde relativamente ao mais recente surto de ébola em África e volta a impor-se com a possibilidade de os Estados Unidos cortarem os fundos do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, avançada esta terça-feira pela Reuters. “As pessoas foram alertadas pela UNHCR para ligarem aos seus amigos na administração”, relatou um funcionário de um grupo de ajuda humanitária que trabalha com a agência das Nações Unidas.
O poder de Trump na ONU: o veto e, mais do que isso, os fundos
A notícia sobre o alegado desejo de Donald Trump de nomear Gianni Infantino para o cargo de secretário-geral só foi noticiada pelo New York Post, o tabloide favorito do Presidente norte-americano. Mas Richard Gowan, que já trabalhou como consultor de várias agências da ONU, afirma ao Observador que “já corriam rumores há algum tempo de que ele quer o cargo de secretário-geral”.
Contudo, Gowan é rápido a recusar a possibilidade como mais uma “ideia maluca” de Donald Trump. “Embora a candidatura de Infantino pudesse animar a corrida, é improvável que a administração Trump vá gastar capital político numa candidatura que tem poucas hipóteses de obter o apoio dos outros membros permanentes”, argumenta por sua vez Daniel Forti, no mesmo sentido. Afinal, qualquer candidato muito próximo dos EUA, teria um veto certo da China e da Rússia. Thomas Weiss considera que também não seria uma escolha popular mesmo entre aliados. “Não irritar o Trump é uma coisa, agora um lambe-botas é inaceitável”, aponta.
Colocando, portanto, Infantino de lado, a mesma estratégia de veto podia ser utilizada pelos Estados Unidos em relação a nomeados muito próximos da China ou da Rússia. Mas os especialistas ressalvam que, enquanto estas potências não derem indicações mais concretas dos seus candidatos preferidos, a previsão de que candidato pode avançar nas votações sem nenhum veto é principalmente “especulação”.

Ainda assim e tendo em conta as prioridades da administração Trump e a postura que tem adotado nas Nações Unidas, é possível encontrar exemplos que levariam ao veto dos Estados Unidos. Para além da regra não escrita relativa à região de origem do próximo secretário-geral, a Assembleia Geral incentivou ainda os Estados-membros a nomearem preferencialmente mulheres, de forma a colocar uma mulher pela primeira vez à frente das Nações Unidas. O apelo traduz-se no facto de cinco das sete nomeações feitas serem mulheres. “Eu quase apostaria que a administração Trump vai vetar qualquer mulher“, arrisca Thomas Weiss. Em causa está a luta de Trump contra políticas de diversidade e inclusão.
Em todo o caso, a decisão final dos Estados Unidos deverá estar intimamente ligada ao problema mais urgente das Nações Unidas: o financiamento. “É muito fácil imaginar Washington a dizer que vai contribuir mais para o orçamento da ONU se o seu candidato ganhar a corrida, mas que vai continuar a reter fundos se os outros países rejeitarem essa pessoa”, pondera Richard Gowan. Na aritmética atual das Nações Unidas, os ultimatos não são inéditos. Mas é ainda difícil prever se qualquer um dos candidatos que já se apresentaram ao cargo consegue passar no teste — ou se ainda serão lançados novos nomes.