Simon é um espião na Ucrânia nos meses que se seguiram à invasão. Não tem muito para fazer em Kiev e espera por ordens de Londres. Até que recebe uma instrução: encontrar um assassino checheno, que estava num dos pontos mais quentes do conflito ucraniano — a cidade de Bakhmut. Este é um dos principais pontos de partida de O Espião Em Guerra, um thriller de espionagem escrito por Charles Beaumont, um nome fictício que esconde a identidade de um antigo agente dos MI6, o ramo das secretas britânicas que faz arriscadas e perigosas missões no estrangeiro.
Na verdade, Charles Beaumont esteve na Ucrânia nos momentos antes e depois da invasão à Ucrânia. Em entrevista ao Observador, o ex-espião, que tem de manter o anonimato devido às leis em vigor no Reino Unido, recorda a “paranoia” que havia em Kiev antes da invasão. “Agentes russos estavam a tentar fomentar um golpe de Estado contra o Governo ucraniano, ao mesmo tempo que os espiões ocidentais se desdobravam em esforços para prever quais eram as reais intenções de Moscovo.”
Quando o conflito começou, os espiões na Ucrânia tiveram de enfrentar ainda mais dificuldades. Charles Beaumont explica que, quando um espião trabalha em territórios em conflito ativo, existem “vários desafios”. “As traições e as reviravoltas são muito mais frequentes”, sublinha. Em território ucraniano, isso também aconteceu com agentes duplos — e até “triplos” — que acabaram por derrubar a intenção de Vladimir Putin de tomar Kiev em três dias e a restante Ucrânia em poucas semanas.
No livro O Espião em Guerra, Charles Beaumont explora ainda uma trama paralela: alguém no gabinete do primeiro-ministro do Reino Unido está a tentar sabotar e diminuir o apoio britânico à Ucrânia. Há semelhanças com a realidade? “Não acredito que tenha acontecido”, diz o antigo espião, que alerta, ainda assim, que a Rússia tenta minar o consenso europeu em redor da questão ucraniana. “A opinião pública em geral na Europa não apoia a invasão russa à Ucrânia.”

Em entrevista ao Observador, Charles Beaumont alerta, ainda assim, para um risco: a eficácia da propaganda russa e a forma como esta ecoa junto da direita populista europeia. Segundo o antigo espião, estes partidos “demonstraram uma grande simpatia pela Rússia e estão dispostos a ceder território e soberania da Ucrânia aos russos”. “O crescimento desses partidos reflete, em parte, o êxito da máquina de propaganda russa.”
Como trabalha um espião em tempos de guerra? Com “traições” e num ritmo frenético
Em que medida recorreu à sua própria experiência pessoal enquanto espião para escrever este livro?
Recorri amplamente às minhas experiências pessoais do que se sente ao fazer este trabalho: a dimensão intelectual e a experiência de estar envolvido nos meandros da espionagem.
O livro retrata uma grande diversidade de operacionais dos serviços secretos a trabalharem durante uma guerra. Com base na sua própria experiência, quais são os maiores desafios de operar numa zona de conflito ativo como a Ucrânia?
Trabalhar numa zona de guerra traz vários desafios. Um deles é o ritmo a que as coisas mudam: se houver uma falha de segurança, os impactos podem sentir-se em questão de horas ou minutos, em vez de dias ou semanas. Outro tem a ver com o comportamento humano: num cenário de conflito ativo, os incentivos e as motivações das pessoas podem ser menos previsíveis, mais extremistas e substancialmente mais perigosos. As traições e as reviravoltas são muito mais frequentes.
Como é atuar como espião numa zona de guerra ativa, qual é a sensação? Que tipo de ordens recebe? E tem de as cumprir sempre, mesmo que discorde delas fundamentalmente?
O aspeto central do trabalho num ambiente de combate é o foco absoluto na segurança. É preciso manter as fontes a salvo num cenário repleto de ameaças, tanto vindas do inimigo como dos próprios aliados. A espionagem é uma atividade que deve passar despercebida, mas isso torna-se extremamente difícil num local que está saturado de soldados, drones e mísseis. As ordens que podem ser difíceis são aquelas que estão relacionadas com os alvos a atacar que devem ser selecionados: as informações de que se dispõe sustentam um ataque contra um determinado alvo? Isto pode implicar atingir civis ou outras pessoas que não estão em zona de combate, que se tornam danos colaterais. Ou esse ataque pode ter como base informações erradas? Se isso acontecer, terá de se viver com essa realidade para o resto da vida.

Que aspetos do trabalho dos serviços secretos se tornaram mais importantes na Ucrânia do que em conflitos anteriores?
Na guerra da Ucrânia, ter conhecimento sobre as tecnologias e técnicas mais recentes do inimigo é fundamental. A tecnologia militar evolui a um ritmo tão vertiginoso que estas mudanças fazem a diferença entre a vida e a morte de dia para dia, de semana para semana.
As rotinas dos diferentes espiões que relata no livro assemelham-se ao que é a vida real de um operacional no terreno, na Ucrânia?
Em geral, os espiões sobre os quais escrevo, que estiveram perto da linha de frente na Ucrânia, são inspirados em unidades reais que levam a cabo operações especiais e outras missões. Mas, claro, na vida real passa-se muito mais tempo em gabinetes e reuniões.
Como alguém que trabalhou nos serviços de informações, como equilibra a realidade com a necessidade de proteger métodos e operações confidenciais? Houve pormenores que optou deliberadamente por não incluir?
Para mim, o essencial é transmitir o ambiente e a sensação do mundo real da espionagem, sem incluir métodos ou operações específicas que exijam algum tipo de proteção. Há, sem dúvida, elementos que prefiro deixar de fora dos meus livros e garanto sempre que nenhum aspeto da obra constitui uma ameaça à segurança nacional.

A “paranoia” na capital ucraniana em 2022 e os “agentes duplos”
No livro, retrata Kiev como estando repleta de espiões durante a invasão. Como era a capital, na realidade, em de fevereiro de 2022? Havia quase um sentimento de paranoia?
Havia, de facto, muita paranoia, até porque os agentes russos estavam a tentar fomentar um golpe de Estado contra o Governo ucraniano, ao mesmo tempo que os espiões ocidentais se desdobravam em esforços para prever quais eram as reais intenções de Moscovo. Simultaneamente, o Governo ucraniano não estava convencido de que a Rússia iria efetivamente invadir — por isso, o ambiente era de enorme desconfiança, confusão e incerteza.
A obra deixa no ar que os agentes duplos desempenharam um papel significativo nas fases iniciais da invasão. Até que ponto isso reflete a realidade?
É verdade — mas não da forma que se poderia esperar inicialmente. Os russos contavam com agentes duplos para derrubar o Governo ucraniano. Em vez disso, esses agentes acabaram por se revelarem agentes triplos e deitaram por terra o próprio plano de invasão russa.
Acredita que a guerra na Ucrânia alterou o modo de atuação dos serviços secretos em todo o mundo? Se sim, quais considera serem as maiores mudanças?
Creio que uma das mudanças mais profundas ocorreu no domínio das operações especiais. A Ucrânia posicionou-se na vanguarda mundial através da audácia e criatividade das suas operações especiais, que incluem o uso de drones para atingir alvos em profundidade no território russo, operações de falsa bandeira, sabotagem e a guerra de informação. Ao fazê-lo, mostrou caminhos para que outras democracias ocidentais possam replicar esses metódos.
A personagem Evie dá uma grande importância às redes sociais, um tema que até é recorrente no livro. Como é que a intersecção entre as redes sociais e a espionagem moderna redefiniu a guerra a que assistimos hoje na Ucrânia?
As redes sociais tornaram-se o principal canal através do qual grande parte da população recebe informação. Em resultado, são uma plataforma em que existem oportunidades gigantescas de manipulação. É possível criar realidades alternativas, que moldam a opinião pública. Mas são também uma fonte inestimável para investigações: muitos soldados e combatentes publicam nas redes sociais, fornecendo às fontes abertas informações importantes e em tempo real.
A propaganda russa e a “ambiguidade” no sucesso do Kremlin
O livro menciona uma tentativa, a partir do gabinete do primeiro-ministro britânico, de perturbar a assistência prestada pelo Reino Unido à Ucrânia. Acredita que esse cenário ficcional possa ter corrido no mundo real desde a invasão?
Não acredito que tenha acontecido, mas considero que é um risco para o qual devemos estar conscientes. É algo que poderia perfeitamente acontecer.
Apresenta Kamren Patel como uma personagem de ficção com intenções altamente duvidosas no que diz respeito à Ucrânia. No mundo real, o que move indivíduos com essa mentalidade?
Há pessoas no Ocidente que consideram a guerra na Ucrânia um conflito inútil e um desperdício de recursos e que consideram que teríamos mais a ganhar em manter um relação pragmática com a Rússia. Algumas das pessoas que defendem esta posição movem-se por pura ganância, talvez por terem recebido dinheiro russo; noutros casos, alinham-se com uma visão geopolítica em que os países mais fortes — seja a Rússia, a China ou os EUA — devem ditar as regras, cabendo às médias e pequenas potências resignarem-se às suas ações.

Um dos temas do livro é como a propaganda russa tenta continuamente infiltrar-se no Ocidente. Olhando para a realidade deste conflito, até que ponto diria que a Rússia tem sido bem-sucedida nesta guerra de informação?
O sucesso da Rússia tem sido ambíguo: a opinião pública, em geral, na Europa não apoia a invasão russa à Ucrânia. Contudo, existem vários partidos políticos espalhados pelo continente — em particular, os da direita populista — que demonstram uma grande simpatia pela Rússia e estão dispostos a ceder território e soberania da Ucrânia aos russos. O crescimento desses partidos reflete, em parte, o êxito da máquina de propaganda russa.
A corrupção é um fenómeno que a Ucrânia admite abertamente que precisa de combater. Como é que a propaganda russa instrumentaliza esta vulnerabilidade?
Grande parte da propaganda russa em relação aos desafios da Ucrânia com a corrupção tem tido sucesso porque utiliza os meios de comunicação sociais ocidentais. Os russos conseguem fazer as notícias chegarem à imprensa ocidental, levando a que as pessoas não se deem conta de que estão a consumir propaganda russa, assumindo tratar-se de uma fonte credível.
O “caos total” em Bakhmut e os chechenos na linha da frente
Aborda também o envolvimento das forças chechenas no conflito. Quão profunda ou significativa foi a sua atuação real no terreno?
As forças chechenas tiveram um forte envolvimento nas fases iniciais da guerra, mas têm perdido relevância atualmente, uma vez que as elevadíssimas baixas do lado russo levaram a que muitos abandonassem o campo de batalha.

O retrato que faz, no livro, da linha da frente perto de Bakhmut sugere um cenário de caos total. Essa descrição é fiel à realidade? Até que ponto o ambiente era caótico?
Bakhmut foi uma batalha urbana caótica e incrivelmente destrutiva, onde quase todos os edifícios da cidade foram arrasados pela intensidade dos combates. Bakhmut — que já foi uma cidade ucraniana de média dimensão — praticamente deixou de existir.
O fator Trump e os riscos dos “partidos de direita populista pró-russos”
Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, a política dos Estados Unidos em relação à Ucrânia tornou-se um dos temas mais acompanhados no conflito. Na perspetiva dos serviços de informações que ainda são aliados dos EUA, como é que os aliados se preparam para lidar com isso, assegurando simultaneamente a continuidade da cooperação de segurança a longo prazo?
Essa é uma das questões mais complexas para os serviços das secretas ocidentais. A natureza caótica e imprevisível da administração Trump torna extraordinariamente difícil planear e gerir a cooperação de segurança a longo prazo. Uma das formas de contornar a situação passa por focar a atuação nas relações a nível operacional, abaixo da esfera política.
Dos conservadores aos trabalhistas, o Reino Unido teve cinco primeiros-ministros desde a invasão. Ainda assim, o apoio britânico à Ucrânia permanece inabalável. Os serviços de informações têm sido importantes para manter esse consenso?
Creio que o apoio à Ucrânia entre a opinião pública britânica se deve, em grande medida, à forma como o Reino Unido encara a sua própria História. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha manteve-se firme contra o nazismo, acabando por receber o apoio dos Estados Unidos e de outros aliados. Para muitos britânicos, essa página da História nacional ecoa fortemente na Ucrânia, uma democracia de média dimensão que está a combater a invasão de uma das potências militares mais fortes e brutais do planeta.
Com a ascensão de novas forças políticas no Reino Unido e no resto da Europa, considera que será cada vez mais difícil sustentar este nível de consenso em redor da Ucrânia?
Sim. Infelizmente, os partidos de direita populista pró-russos estão a parecer cada vez mais fortes em vários países europeus, incluindo no Reino Unido. O admirável consenso dos passados quatro anos pode não sobreviver aos próximos quatro.
O que o motivou a escrever um livro especificamente sobre a Ucrânia? Sentiu uma necessidade urgente de alertar o mundo para o modo de atuação das operações russas?
Tive duas grandes motivações para situar a narrativa na Ucrânia. Por um lado, o desejo de alertar o mundo para a forma como a Rússia pode vencer a guerra na Ucrânia ao manipular a opinião pública ocidental. Por outro, para prestar homenagem ao heroísmo e à determinação do povo ucraniano.