(c) 2023 am|dev

(A) :: Uma versão enganadora da história da humanidade. Parte 6: o próximo colapso

Uma versão enganadora da história da humanidade. Parte 6: o próximo colapso

Embora sejamos ameaçados por uma “policrise global”, "A Maldição de Golias" afiança que o colapso não é inevitável e está nas nossas mãos derrotar a opressão — ensaio crítico de José Carlos Fernandes.

José Carlos Fernandes
text

[Este é o último de seis artigos sobre “A Maldição de Golias”. Os anteriores podem ser lidos aqui:]

Após preencher os primeiros dois terços de A Maldição de Golias com uma apreciação severa dos caminhos que a humanidade tem trilhado nos últimos 10.000 ou 11.000 anos e que a levaram – de império em império e de colapso em colapso – da vida edénica dos caçadores-recolectores do Paleolítico à decaída condição do presente, Luke Kemp reserva o terço final do livro para “a ameaça de colapso” que impende sobre o mundo de hoje, que vê como um “Golias Global” – um monstro tentacular e multiforme, resultante da evolução dos impérios nascidos com a expansão colonial europeia e que foram entrelaçando-se e estendendo uma rede de dominação sobre todo o planeta.

O colapso do “Golias Global”, “se acontecer, será pior do que qualquer coisa que tenhamos visto antes. A Maldição é agora global e mais perigosa do que nunca” (pg. 340). “Não se trata aqui de ameaças individuais, como a IA ou as armas nucleares. O que está em questão é o nível global de risco produzido pelo Golias Global. O mundo não enfrenta uma crise individual como as alterações climáticas, a guerra termonuclear, drones armados autónomos, erupções vulcânicas massivas ou inovações tecnológicas perigosas. Enfrenta todas estas crises ao mesmo tempo” (pg. 347).

Digamos que a visão de futuro de Luke Kemp está para os estudos prospectivos como Sharknado está para o cinema – a quem não seja assinante dos Cahiers du Cinema e frequentador do Festival de Cinema de Locarno, informa-se que Sharknado tem esta original premissa: uma poderosa tromba de água/tornado arrebata ao oceano cardumes de tubarões assassinos e despeja-os sobre Los Angeles, proporcionando um festim de sangue, mutilações, mortes macacas, tiroteios, explosões. Mas, enquanto Sharknado é suposto provocar o riso – é catalogado como “science fiction action comedy horror disaster film” – a visão de Kemp nada tem de divertido.

Na impossibilidade de abordar todas as calamidades tratadas por Kemp, optou-se por assestar o foco na crise ambiental e dos recursos naturais.

A vida espezinhada debaixo da bota da indústria

Como se viu nos artigos anteriores da série, Kemp está convencido de que a humanidade do século XXI desfruta de menos felicidade e bem-estar emocional dos que os seus antepassados caçadores-recolectores. Nalgumas ocasiões, vai mais longe e afirma que “o nível de vida da maior parte das pessoas não melhorou drasticamente ao longo da história” (ver capítulo “Truque de ilusionismo em quatro passos” em Uma versão enganadora da história da humanidade pt. 4: O mundo depois de 1945). Todavia, com a incongruência que lhe é usual, admite, noutros trechos, que “o mundo moderno registou, sem dúvida, enormes progressos que merecem ser celebrados” e enumera a eliminação da varíola, o aumento da literacia, a redução da mortalidade infantil e duplicação da esperança média de vida (pg. 339). Kemp não inclui nesta lista a difusão e consolidação da democracia, provavelmente por, como se viu nos artigos anteriores, entender que as democracias modernas não passam de “hierarquias democráticas” (pg. 94).

Kemp tem o cuidado de sublinhar que “o problema é que todas estas tendências [positivas] são recentes, geralmente datadas do último século ou dois” (pg. 339). O enviesamento de Kemp é incorrigível: em vez de ver o “último século ou dois” de “enormes progressos” como sinal de que, após alguns milhares de anos a asnear, a humanidade estaria a tornar-se, genericamente, um pouco mais sensata, classifica tal tendência como um “problema”.

Para mais, Kemp entende que o custo desses “enormes progressos” é inaceitável: “A ascensão do Golias Global foi responsável pela extinção de dezenas de milhares de espécies. Inúmeros fragmentos únicos de vida espezinhados debaixo da bota da indústria. Do ponto de vista do dodó ou do pombo-passageiro, os nossos avanços recentes não parecem especialmente admiráveis” (pg. 339).

É verdade que o Homo sapiens tem no seu cadastro, por acção directa ou indirecta, a extinção de muitas espécies, e que, embora alguns esforços na área da conservação tenham permitido melhorar o estatuto de algumas espécies ameaçadas, o número das que se encontram em risco ou mesmo em situação crítica é inquietante. Porém, a estimativa de “dezenas de milhares de espécies” é muito duvidosa, pois uma coisa é conseguir situar aproximadamente no tempo a extinção de uma espécie e outra é estabelecer um nexo causal sólido entre a acção humana essa extinção; na maioria dos casos, apenas pode dizer-se que a espécie se extinguiu num período em que já existiam Homo sapiens no mesmo território.

A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla inglesa) lista 900 extinções confirmadas desde 1500, mas, embora seja natural a afinidade emocional por espécies mais próximas de nós no tempo – como o lobo-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), a lontra japonesa (Lutra nippon), o baiji ou golfinho-do-yang-tsé (Lipotes vexillifer) ou o kaua‘i ‘ō‘ō (Moho braccatus) –, é importante compreender que a extinção perpetrada ou fomentada pelo homem não começou com a Revolução Industrial, nem com o capitalismo moderno, nem sequer com os impérios da Antiguidade. Os caçadores-recolectores do Paleolítico eram predadores extremamente eficazes e é possível que tenham sido os principais responsáveis pela extinção de grande número de espécies de macrofauna entre 50.000 a.C. e 10.000 a.C., fenómeno designado como “Extinção de Megafauna do Quaternário”. Esta razia foi particularmente grave nas situações em que os humanos entraram “tardiamente” (isto é, possuindo já técnicas de caça avançadas) em territórios “virgens”, cujos animais não tinham experiência de coabitação com o Homo sapiens.

Kemp louva as comunidades de caçadores-recolectores do continente americano pelo seu pendor igualitário, tomada de decisão democrática, paridade entre géneros e aversão a sistemas centralizados. Mesmo quando havia líderes, “estas comunidades tendiam a ser hierarquias democráticas com sistemas de freios e contrapesos. […] A maior parte dos nativos americanos (homens e mulheres) contribuía para as principais decisões […]. Por vezes, reuniam-se em grande assembleias para tentar chegar a uma decisão consensual” (pg. 130-31). Kemp elogia, nos caçadores-recolectores australianos, os “métodos engenhosos de gestão ambiental”, o “conjunto rico e variado de crenças […] que auxiliavam a coordenação, a navegação e o conhecimento do seu território” (pg. 92) e a sabedoria que os levava a preferir o seu modo de vida à agricultura: “Vocês têm tanto trabalho a lavrar e a plantar sementes, mas nós não temos de fazer nada disso. Todas estas coisas existem para nós” (pg. 99).

Kemp está longe de ser o único a ver as comunidades de caçadores-recolectores da América e Austrália como exemplos da harmoniosa integração do homem nos ecossistemas, da gestão prudente dos recursos naturais e da conexão mística com a Terra. É uma ideia muito difundida, mas, em boa parte, desmentida pelos factos, pois estima-se que a chegada dos caçadores-recolectores à Austrália e às Américas do Norte e do Sul tenha sido responsável pela extinção de 88%, 72% e 83% (respectivamente) dos géneros de mamíferos de grande porte aí existentes, num total de cerca de 178 espécies (ver capítulo “O Bom Selvagem era afinal um carniceiro?” em Como o mundo esteve para acabar por cinco vezes).

A extinção de espécies e os paraísos imaginários

A irrupção do Homo sapiens em novos territórios foi particularmente danosa para a biodiversidade das ilhas, cujo isolamento favorece o desenvolvimento de espécies autóctones, frequentemente com habitat circunscrito a uma só ilha ou a um só arquipélago. E, aqui, a realidade volta a colidir frontalmente com as visões idílicas do passado: aos olhos do urbanita do mundo desenvolvido, as ilhas do Pacífico e os seus habitantes são a perfeita encarnação da versão idílica do “estado de natureza” pintado por Jean-Jacques Rousseau. Um dos principais promotores desta identificação foi o pintor Paul Gauguin, que, quando se cansou da civilização ocidental e de “tudo o que é artificial e convencional”, ficou convencido de ter encontrado o Paraíso terreno no Tahiti, que visitou em 1891-93 e onde se instalou definitivamente em 1895.

Os quadros de Gauguin, o romance Blue Lagoon (1908) e os vários filmes de Hollywood nele inspirados e a publicidade a agências de viagens consolidou no imaginário ocidental a ideia das comunidades originais das ilhas do Pacífico como paradigma do estilo de vida “ecológico” e “sustentável”. Porém, estima-se que a expansão dos povos austronésios pelo Pacífico terá causado o desaparecimento de 2000 espécies de aves, um massacre facilitado por, na ausência de predadores, muitas espécies de aves insulares terem perdido a (energeticamente dispendiosa) faculdade do vôo, convertendo-se, assim, em presa fácil para os humanos e para os animais por ele introduzidos, deliberada ou involuntariamente.

As perdas foram maiores nas ilhas de pequena dimensão, onde as espécies não tinham onde refugiar-se e cujos ecossistemas eram frágeis e facilmente desequilibrados pela acção humana, mas também foram pesadas nas ilhas de grande dimensão. A colonização de Madagáscar por povos austronésios, por volta de 500-700 d.C., terá causado a extinção de uma trintena de espécies de mamíferos (incluindo 17 espécies de lémures); a chegada dos maori à Nova Zelândia, por volta de 1280 d.C., saldou-se na perda de pelo menos 70 espécies de animais (59 delas de aves).

Ainda que algumas destas extinções possam ter sido ajudadas por alterações climáticas, o facto de, genericamente, elas coincidirem no tempo e no espaço com a chegada do Homo sapiens sugere que os factores preponderantes terão sido a caça (da própria espécie ou de espécies que lhe serviam de presa) e a alteração (premeditada ou não) dos habitats por acção humana.

Já depois da constituição dos Estados e, sobretudo, com o advento da expansão colonial europeia, a interferência humana com as espécies autóctones ganhou um novo agente: a introdução (deliberada ou acidental) de espécies associadas aos humanos (cães, gatos, ratos, porcos, coelhos, etc.), que vão ter efeito negativo sobre as espécies autóctones, na qualidade de predadores (de adultos, juvenis ou ovos), de competidores por alimento ou de disruptores do equilíbrio dos ecossistemas.

As espécies “exóticas” introduzidas pelos humanos estão longe de circunscrever-se aos animais domésticos ou “clandestinos” (como os ratos): tem sido também frequente a introdução deliberada de espécies selvagens para fins “recreativos”, ou seja para alargar o leque de presas à disposição de caçadores e pescadores. Por outro lado, nem todos os animais domésticos introduzidos mantêm a sua “domesticidade”: alguns escapam para o meio natural e prosperam nele em liberdade (é o caso dos porcos assilvestrados nos EUA, cuja população está hoje estimada em 6 a 9 milhões de indivíduos e tem resistido a todas as tentativas para a controlar). Finalmente, embora a extinção de espécies animais seja mais susceptível de despertar paixões e polémica, não pode negligenciar-se o papel humano na alteração da flora e do coberto vegetal, através da desmatação para fins agrícolas, do pastoreio, dos incêndios (deliberados ou acidentais), da exploração madeireira, da urbanização, da drenagem de zonas húmidas, do desvio e reconfiguração dos cursos de água, da abertura de canais, da sobreexploração de aquíferos e da introdução de espécies exóticas, para efeitos silvícolas, agrícolas ou ornamentais.

Kemp omite todas as complexidades e subtilezas inerentes ao tema da extinção de espécies por acção humana e escolhe destacar apenas duas célebres extinções causadas pelos “Golias”, com o seu insaciável apetite por novos territórios e a sua irracional exploração dos recursos naturais: o dodó (Raphus cucullatus) da Ilha Maurícia, extinto por volta de 1662, surge como vítima da expansão ultramarina europeia; o pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) da América do Norte, cuja luxuriante população, estimada em 3000 a 5000 milhões de indivíduos, foi reduzida a zero no último quartel do século XIX, surge como vítima do desenvolvimento meteórico dos EUA. Mas, neste tema, a mais imperdoável omissão de Kemp é a da “Extinção de Megafauna do Quaternário”.

Requiem (prematuro) para moscas, mosquitos e baratas

Sobre a extinção no tempo presente, Kemp tem razão quando traça um cenário preocupante quanto ao estatuto de conservação de animais superiores (30% das espécies de mamíferos estão em risco), mas perde-a quando afirma que “os insectos estão a desaparecer a taxas oito vezes superiores às dos pássaros [sic], répteis e mamíferos. A população total de insectos está a reduzir-se cerca de 2.5% ao ano. Se as tendências anuais persistirem, existe uma possibilidade real de que a maioria das espécies de insectos desapareçam da Terra antes do final do século” (pg. 384).

Nenhum destes números tem credibilidade ou fundamento, ainda que sejam similares a outros números levianamente reproduzidos nos órgãos de comunicação social e até em livros supostamente sérios sobre a crise ambiental (como A crise dos insectos: A queda dos pequenos impérios que fazem o mundo girar (2022), de Oliver Milman). É certo que alguns estudos parcelares, quase todos em países desenvolvidos (em particular na Europa e EUA), têm registado declínio na biomassa total de insectos capturados em amostragens (bem como quebras nas outras classes do filo Arthropoda, a que os insectos pertencem) e que a Lista Vermelha da IUCN inclui 2680 espécies de insectos em risco (520 em situação crítica, 1132 ameaçadas, e 1028 vulneráveis).

Porém, a relevância desta informação é fortemente diminuída pelo estado extremamente incipiente do nosso conhecimento sobre as espécies de insectos e, sobretudo, sobre o seu estatuto populacional. Foram identificadas, até à data, cerca de um milhão de espécies de insectos, sobre a maior parte das quais se se sabe muito pouco, estima-se que ainda estejam por descobrir cinco a nove milhões de espécies e ninguém faz a mais pequena ideia da dimensão presente e passada das populações de todas estas espécies – por razões óbvias, que têm a ver com a sua reduzida dimensão e visibilidade e pelas oscilações abruptas no seu número ao longo do ano e de ano para ano. Ora, se fazemos apenas uma pálida e muito incompleta ideia do que existe, como podemos estimar, com um grau mínimo de rigor, o que estamos a perder todos os anos?

Se bem que existam indícios de que, nalgumas zonas mais artificializadas e sujeitas à influência das actividades humanas, as populações de algumas espécies de insectos pareçam estar a diminuir, e se bem que a “crise dos insectos” seja uma faceta da crise ambiental merecedora de tanta atenção quanto a extinção de macrofauna, partir desses dados pontuais (no tempo e no espaço) e parcelares para produzir as afirmações quantitativas genéricas acima reproduzidas é como pretender ter opinião assertiva sobre todos os livros de uma grande biblioteca depois de se ter lido o primeiro parágrafo da página 19 de cinco livros retirados ao caso das suas estantes (ver Os insectos podem estar em perigo: O que é que isso significa para o mundo e para nós?).

Quanto à possibilidade, aventada por Kemp, de que “a maioria das espécies de insectos desapareçam da Terra antes do final do século” é absurda e indicia que, embora Kemp se pronuncie com autoridade sobre ecologia e ciências afins, não faz a mais remota ideia do que é o mundo natural e de como funciona. Pairam muitas incertezas sobre a evolução do clima do planeta e sobre a resiliência e capacidade e regeneração dos seus ecossistemas face a essa evolução, mas, mesmo que se ultrapassassem largamente os cenários mais pessimistas previstos pela comunidade científica, de uma coisa podemos estar certos: depois de toda a civilização moderna colapsar, depois de se extinguir a última comunidade humana, depois de morto o último pardal e o último rato, sobrarão seguramente legiões de insectos prontos a banquetearem-se com os seus cadáveres.

As falácias animalistas do costume

Os animais selvagens não são as únicas vítimas do “Golias Global”: Kemp lembra que “os mais de 100.000 milhões de animais que são torturados e mortos todos os anos em explorações pecuárias industriais também podem achar que as melhorias do nível da nossa saúde e estatura não justificam o seu sofrimento inimaginável” (pg. 339). Quando sugere medidas a tomar para “manter-nos dentro dos limites planetários”, Kemp volta ao tema: “Diminuir o nosso consumo de carne e lacticínios também contribuiria para cortar nas emissões [de gases com efeito de estufa], para além de reduzir enormemente o sofrimento no mundo” (pg. 487).

Estas diatribes suscitam várias questões e reparos:

1) Kemp omite que também há muitos animais que são “torturados e mortos” em explorações pecuárias artesanais ou domésticas, que, na sua expressão mais singela, podem assumir a forma de uma capoeira no quintal. Kemp não menciona a fonte do número “mais de 100.000 milhões de animais” abatidos em explorações industriais, mas o website Our World in Data aponta para um total de animais abatidos de 100.000 milhões (em todo o tipo de explorações) e várias outras fontes apontam para número similar ou um pouco inferior. A proporção entre explorações domésticas e industriais varia consoante a espécie e o país: nos EUA, berço do complexo alimentar-industrial e onde a produção animal está altamente mecanizada, a percentagem de animais “produzidos” industrialmente vai de praticamente 100% para os frangos e 99% para os porcos e perus, a 75% para as vacas; em países pouco desenvolvidos prevalecem as explorações artesanais.

2) A omissão dos animais mortos em explorações pecuárias artesanais significará que Kemp não levanta objecções éticas à carne com esta proveniência? Por outras palavras: o que reprova é o consumo de carne em si, ou o modo de produção da carne?

3) “Torturar e matar” animais em explorações pecuárias é mais ou menos ético do que matá-los na caça? E a caça exercida no contexto das sociedades caçadoras-recolectoras (do Paleolítico ou do tempo presente) é mais ou menos ética do que a que é exercida pelos caçadores do mundo moderno? A “bushmeat”, i.e. a carne de animais selvagens caçada nas regiões tropicais de todo o mundo para venda nos mercados locais está num plano ético diferente da carne que os caçadores-recolectores caçam para consumo próprio, i.e., a existência de uma transacção financeira torna o consumo de carne mais censurável?

4) O sofrimento animal que inquieta Kemp circunscreve-se apenas a mamíferos e aves, ou inclui répteis, peixes, crustáceos e moluscos?

5) Kemp nada diz – como é usual neste tipo de exortações virtuosas – sobre o facto de, hoje, 10 a 20% dos animais abatidos no mundo se destinarem à produção de alimentos para animais de estimação. Uma vez que muitos dos que manifestam preocupação com as alterações climáticas e praticam dietas vegan ou vegetarianas possuem (perdão, “são tutores de”) animais de estimação carnívoros e o número global destes não tem cessado de aumentar, estando estimado, em 2025, em 700-1000 milhões de cães e 370 milhões de gatos, é absurdo que parte do esforço ou do “sacrifício” pedido aos humanos, ao prescindirem de carne na sua alimentação, seja contrabalançado pelo incremento do consumo de rações para cão e para gato. Em 2025, as despesas com comida para animais de estimação nos EUA estabeleceram um novo recorde, de 68.000 milhões de dólares; e é preciso notar que a pegada ecológica dos animais de estimação não se confina à alimentação, pois todos os dias se dilata a oferta em termos de acessórios e brinquedos, de modo que as despesas totais com produtos para animais de estimação nos EUA atingiram, em 2025, 158.000 milhões de dólares (o valor não inclui despesas com serviços de veterinária).

6) Os animais de estimação têm outro sério inconveniente para a causa da conservação: os que não vivem enclausurados em apartamentos entretêm-se a matar, mais por instinto primordial e desfastio do que por necessidade, todos os animais selvagens que encontram. O caso é particularmente grave no caso dos gatos assilvestrados, cuja população mundial é superior à dos gatos (realmente) domésticos e que, só nos EUA, são responsáveis pela morte de 1000 a 4000 milhões de aves por ano.

7) Em vários trechos do livro, Kemp faz questão de sublinhar como a transição da caça-recolecção para a agricultura foi negativa para a saúde e condição física dos seres humanos (nomeadamente para o parâmetro altura), em resultado da substituição de uma dieta assente em carne por uma dieta assente em cereais. Contudo, enquanto vê como positivo o consumo abundante de carne pelos caçadores-recolectores (do passado e do presente), apela (presume-se que aos cidadãos do mundo desenvolvido actual) para diminuírem o seu consumo de carne.

De oito a oito mil

Quando Kemp contrapõe o modo de vida dos caçadores-recolectores ao modo de vida no “Golias Global” parece esquecer que as diferenças entre eles não são apenas qualitativas, são também quantitativas. Há 10.000 anos, a população total de Homo sapiens rondaria os 8 milhões, a que corresponde uma densidade populacional média de 0.064 pessoas/km2 – um milésimo da actual. Era um mundo cheio de espaço “vazio”, em que os grupos humanos exerciam uma pressão reduzida sobre os ecossistemas (ainda que suficiente para causar as numerosas extinções acima mencionadas) e que permitia, na eventualidade de um território dar sinais de esgotamento de recursos, que os grupos simplesmente se deslocassem para outro território compatível, enquanto o anterior se regenerava naturalmente.

Num planeta com 8000 milhões de Homo sapiens e 64 pessoas/km2, o sistema biofísico estará sempre sob tremenda pressão, seja qual for o estilo de vida que se adopte. Se, por absurdo, decidíssemos todos regressar ao estilo de vida paleolítico, toda a macrofauna seria rapidamente consumida, os conflitos por recursos entre comunidades seriam constantes e haveria mortes em massa – eventualmente até se regressar a uma densidade populacional similar à do Paleolítico.

É indiscutível que a pegada ambiental per capita dos nossos antepassados paleolíticos é muito inferior à do cidadão moderno que conduz um SUV de duas toneladas, viaja frequentemente de avião, adquire anualmente 8 kg de peças de vestuário, 4 kg de calçado e 7 kg de têxteis-lar e gera anualmente 35 kg de resíduos plásticos, dos quais quase 6 kg correspondem a 115-130 garrafas de plástico “de uso único” (valores médios para um habitante da União Europeia). Mas, ao mesmo tempo, é intelectualmente desonesto exibir estatísticas devastadoras relativas a um planeta com 8000 milhões de Homo sapiens e compará-las com as de um tempo em que éramos mil vezes menos.

A agricultura industrial (ou “agronegócio”, como a designam ambientalistas e esquerdistas) é cada vez mais diabolizada, mas é ela que permite alimentar, a preços comportáveis para as classes baixas, a colossal população mundial. Sem o emprego de fertilizantes e pesticidas, de irrigação, de plantas geneticamente modificadas, de equipamento mecanizado para trabalhar o solo, de estufas e outras formas de “forçagem” (i.e., de cultivo protegido) e de métodos de gestão auxiliados por tecnologias avançadas, por outras palavras, sem uma intensidade de uso de recursos que permite elevadas produtividades por unidade de área, teríamos de apostar na extensão. E isto significaria que, para sustentarmos 8000 milhões de bocas, teríamos de converter em terreno agrícola todas as áreas naturais que ainda restam no planeta, incluindo as mais preciosas do ponto de vista da biodiversidade e as menos produtivas, da Amazónia à Serra de Espinhaço de Cão, das Badlands americanas à Tierra del Fuego.

Já agora, é necessário considerar que a agricultura tradicional também pode ser intensiva e alterar profundamente a paisagem. Por exemplo, os arrozais em socalcos da etnia hani em Honghe, província de Yunnan, China, que existem há 1200 anos e estão classificados como Património da Humanidade pela UNESCO, proporcionam belas fotografias, mas estão muito longe de ser um ecossistema natural e com elevada biodiversidade.

A agricultura industrial é um sorvedouro de recursos, emite enorme quantidade de gases de efeito de estufa, gera escorrências e resíduos que contaminam e degradam as águas de superfície e os aquíferos subterrâneos, homogeniza e desfeia a paisagem e exclui ou ambiciona excluir toda a fauna selvagem. Mas é intelectualmente desonesto condená-la sem apelo, apresentando estatísticas assustadoras que comprovam os seus malefícios para o ambiente e, ao mesmo tempo, fingir que podemos alimentar 8000 milhões de pessoas só com agricultura biológica (ou agricultura biodinâmica, ou agricultura regenerativa, ou permacultura ou qualquer outra modalidade apresentada como salvífica), em regime extensivo, ao ar livre e sem recurso a irrigação, pesticidas e fertilizantes sintéticos.

O fetichismo do crescimento e a crise ambiental

Num dos momentos de lucidez de A Maldição de Golias, Kemp argumenta, pertinentemente, que a presente crise ambiental e a possibilidade de colapso que a ela está associada são, em última análise, consequência da obsessão do Homo sapiens pela competição por status, que se exprime através do consumo conspícuo e nos impele a ambicionar sempre maior crescimento económico. Com igual pertinência, denuncia a vanidade e a irracionalidade da competição por status e lembra que “crescimento não é sinónimo de progresso” e que o PIB – uma divindade adorada da extrema-direita à extrema-esquerda e cujo ilimitado incremento monopoliza o debate político – não “foi concebido para ser uma medida de progresso”. Conclui Kemp que “temos de começar a focar-nos no progresso e não no crescimento. Isto implica irmos além do crescimento e voltarmos a pôr a nossa produção sob controlo democrático” (pg. 390).

Aqui, Kemp entra em contramão na auto-estrada: era nas economias planificadas (associadas a países “socialistas” e “repúblicas populares”) que o Estado e as suas equipas de tecnocratas decidiam, sem auscultar o povo, o que deveria ser produzido, onde, como e em que quantidade. É nas economias de mercado, como as que integram o “Golias Global”, que a produção está “sob controlo democrático”: as empresas não se poupam a esforços para corresponderem aos desejos do povo e o Estado limita-se a actuar como regulador, assegurando a livre concorrência e a conformidade dos produtos comercializados aos requisitos de segurança e às normas sanitárias. As empresas que insistam em oferecer produtos (ou serviços) em que o povo não está interessado ou que não satisfazem os requisitos de qualidade acabam, inevitavelmente, por fechar portas.

Poderá haver quem argumente que as empresas recorrem ao marketing para instilar desejos espúrios e malsãos no consumidor e para convencer este de que a sua realização e felicidade dependem da aquisição de produtos cuja existência ele desconhecia minutos antes. É verdade, mas numa sociedade livre, a persuasão é lícita, desde que seja honesta e não faça falsas alegações (é para o garantir que existem entidades de regulação e de fiscalização). De uma forma geral, em 2026, os consumidores dispõem hoje de mais informação do que em qualquer outro momento da história e estão aptos a fazer escolhas informadas. Quem opta por, sistematicamente, consumir bens e serviços que são ambientalmente insustentáveis, ou que devoram recursos limitados, ou que são nocivos para a sua saúde no longo prazo, já não pode invocar desconhecimento.

Ora, se muitos problemas de ambiente resultam – como Kemp sugere – do frenesim consumista das massas, num regime democrático e numa economia de mercado (estão quase sempre juntos) a resolução ou minimização daqueles problemas requer que as massas modifiquem os seus padrões de consumo e os seus comportamentos quotidianos. Claro que há áreas que escapam ao controlo e arbítrio do cidadão comum e que requerem intervenção estatal, mas a soma das decisões individuais sobre os produtos a comprar, o meio de transporte a tomar, ou a forma de ocupar o tempo de lazer determina que bens e serviços são produzidos e em que quantidade e que recursos são consumidos (ver capítulo “O suave milagre da transição energética” em As alterações climáticas e a conferência das Nações Unidas: O Grande Circo Carbónico, capítulos “Uma besta que compra e compra e compra” e “O capitalismo e a natureza humana” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta? e capítulo “A bulimia como modo de vida” em Civilização ocidental: O capítulo mais audaz da história do mundo).

Como seria de esperar, Kemp abomina a ideia de que a culpa da crise ambiental é colectiva e argumenta que esta “não surgiu de modo espontâneo. Foi introduzida no debate público por alguns protagonistas poderosos” (pg. 418). No que respeita à alterações climáticas, Kemp acusa as grandes empresas do sector energético de promoverem campanhas cujo objectivo “sempre foi desviar a responsabilidade da empresa para o público”; porém, “culpar o público é uma distracção artificial – um mito de relações públicas que se dissolve mal examinamos os números” (pg. 419). E perante o argumento de que as empresas “mais não fazem que dar resposta às exigências das massas”, Kemp retorque que é um “mito que não resiste a um exame cuidado” (pg. 422).

Para começar, quando se trata do fenómeno do consumo numa economia de mercado, os “protagonistas poderosos” só dispõem do poder que os consumidores lhes conferem ao adquirirem os seus produtos: se os consumidores fossem tão sensatos e virtuosos como se imaginam, as tão execradas Coca-Cola e McDonald’s há muito teriam encerrado ou sido remetidas ao estatuto de empresa de nicho ou de restaurante familiar.

Kemp tem razão quando denuncia as grandes empresas do sector energético pela forma como lidaram com as alterações climáticas: elas estavam, pelo menos desde a década de 1970, plenamente conscientes das consequências dos riscos associados à continuação da queima maciça de combustíveis fósseis, mas colocaram os seus interesses em primeiro lugar e, não só não tomaram qualquer medida para conter o consumo desses produtos, como, a partir da década de 1990, financiaram campanhas de desinformação visando convencer a opinião pública de que os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa) não eram dignos de crédito e que as alterações climáticas eram uma fantasia, ou que, sendo reais, não eram consequência da queima de combustíveis fósseis (ver capítulo “Ambientalistas e negacionistas” em Como a pequena Greta salvou o planeta). Este comportamento foi análogo ao das empresas do sector tabaqueiro, que durante décadas, mentiram aos seus clientes e subornaram médicos, autoridades de saúde, legisladores e governantes para que não fossem levantados obstáculos à comercialização de um produto cujos efeitos deletérios sobre a saúde eram do pleno conhecimento dos fabricantes.

Porém, o logro das tabaqueiras foi desmantelado há muito e hoje ninguém pode alegar desconhecer os efeitos nefastos do tabaco. Do mesmo modo, ao longo das duas últimas décadas, o tema das alterações climáticas tem sido tão amplamente debatido no espaço público e o consenso da comunidade científica sobre a causa, natureza e consequências previsíveis das alterações climáticas é tão amplo e sólido que as manobras de desinformação das empresas de combustíveis fósseis são incapazes de ocultar a realidade a quem quer que se interesse pelo assunto. A disponibilidade de informação não impede, claro, que existam muitas pessoas que continuam a negar a realidade das alterações climáticas, tal como não é por falta de informação que outras negam a esfericidade da Terra, outras dão crédito a horóscopos e à homeopatia e outras ainda crêem que Elvis Presley está vivo.

Numerosos inquéritos de opinião realizados nos países desenvolvidos atestam que a maior parte das pessoas crê na realidade das alterações climáticas, teme os riscos que elas comportam e acha crucial que se faça algo para as moderar. Porém, as massas sofrem de dissonância cognitiva e, ao mesmo tempo que se dizem angustiadas com as alterações climáticas, não estão dispostas a alterar o seu estilo de vida de forma a minorá-las (ver capítulo “O que pensam as massas de tudo isto” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh?).

O sequestro da crise climática pela baixa política

A crise climática seria sempre um dos mais espinhosos problemas que afligem a humanidade, mas, nos últimos anos, a sua resolução tornou-se ainda mais improvável, em resultado de o que era, originalmente, uma questão de factos e de ciência, ter sido sequestrada pelo debate político. Ainda que a “conservação do ambiente” possa ser vista como uma ideia “conservadora”, na prática, o combate à crise climática tornou-se numa das principais causas dos partidos no lado esquerdo do espectro político; e, nestes nossos tempos de polarização, tribalismo, maniqueísmo e sectarismo, a extrema-direita entendeu que estava obrigada a assumir a posição contrária. Assim, os partidos europeus de extrema-direita e o movimento MAGA consideram as alterações climáticas um falso problema, ou até mesmo um logro ou um ardil arquitectado pela China de forma a conseguir suplantar o Ocidente na competição económica (ver capítulos “Porque há mais negacionistas climáticos à direita?” e “Porque há mais apocalípticos climáticos à esquerda?” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh?).

[“Drill, baby, drill!”: No discurso de tomada de posse do seu segundo mandato, a 20.01.2025, Donald Trump recuperou uma palavra de ordem do Partido Republicano (celebrizada por Sarah Palin no debate dos candidatos à vice-presidência, em 2008) e que vê no aumento da exploração de combustíveis fósseis a solução para “fazer a América grande outra vez”:]

https://youtu.be/_KAlNSoUaj0

O resultado do sequestro da crise climática pela política partidária na sua expressão mais primitiva e rasteira é trágico:

1) Os cidadãos com simpatia pela extrema-direita entendem que, uma vez que a crise climática é uma ficção, não têm de alterar o seu estilo de vida, nem de moderar os seus padrões de consumo, nem de privilegiar o recurso a fontes de energia sem emissões de dióxido de carbono.

2) Os cidadãos com simpatia pela extrema-esquerda dão crédito aos ambientalistas e aos populistas de esquerda que lhes garantem que a culpa pela crise climática é do Grande Capital e dos governantes mancomunados com o Grande Capital, pelo que também não se sentem compelidos a alterar o seu estilo de vida nem a refrear o seu consumo; em vez disso, alguns espíritos mais inflamados concluem que é preciso atacar ou, pelo menos, importunar os supostos culpados e fazem-se acorrentar na entrada da sede das empresas petrolíferas, lançam tinta verde sobre governantes e interrompem eventos oficiais com manifestações.

3) Os cidadãos com outras inclinações políticas estão superficialmente preocupados com a crise ambiental e esperam que alguém tome medidas para a combater, desde que essas medidas não tenham custos para eles mesmos; enquanto aguardam, não fazem tenção de alterar o seu estilo de vida nem de refrear o seu consumo.

Kemp afirma que a culpa colectiva da crise ambiental é um mito criado pelo Grande Capital a fim de desviar a atenção das suas pesadas responsabilidades, mas pode contrapor-se que o que é um mito é a ideia inversa: a de que os cidadãos e consumidores são agentes passivos, incapazes de, pelo comportamento quotidiano, operar mudanças profundas na sociedade (ver capítulo “A fábula do consumidor impotente” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?).

Terras raras e PFAS

Nas pg. 344-45, Kemp denuncia a voracidade do “Golias Global” por recursos minerais e as injustiças sociais e os riscos ambientais associados à extracção e processamento daqueles: “em todo o mundo, pode haver 100 milhões de mineiros informais de todas as idades não só a escavar cobalto, mas muitos outros minérios de terras raras, como o lítio usado nos nossos telemóveis ou o tântalo usado em semicondutores”.

É verdade que 1) a corrida sôfrega a recursos minerais contendo elementos vitais para o fabrico de baterias, microprocessadores, motores eléctricos, geradores, painéis solares e outros “protagonistas” da Indústria 4.0 tem vindo a engendrar tensões geopolíticas, a degradar as condições de trabalho de quem os extrai e a qualidade do ambiente nos territórios onde se situam as jazidas e a promover a corrupção e a instabilidade em países em desenvolvimento; e 2) as terras raras contam-se entre os elementos mais cobiçados.

Porém, por “azar”, nenhuma das “terras raras” mencionadas por Kemp – cobalto, lítio e tântalo – é uma terra rara, designação que se aplica apenas aos 15 lantanídeos, mais o escândio e o itérbio. São necessárias doses cavalares de autoconfiança e desfaçatez para singrar como professor, conferencista e consultor de órgãos governamentais, arengando e opinando perante plateias atentas sobre os “riscos existenciais” que pairam sobre o mundo moderno e, ao mesmo tempo, saber tão pouco sobre o funcionamento do mundo moderno.

Na pg. 370-71, Kemp levanta o problema das “substâncias poli e perfluoralquilados” (o termo correcto é “compostos”, não “substâncias”), abreviadamente designados por PFAS (sigla inglesa): “Já lhes chamaram ‘substâncias eternas’, devido à sua persistência. Podem durar anos, já que na natureza não há forma clara de as decompor”. Kemp parece crer que o conceito “eternidade” pode ser reforçado acrescentando “podem durar anos”. Dois anos? Quatro? Oito? Oito milhões? Kemp informa-nos que, além de persistentes, os PFAS são poluentes, estão disseminados por todo o planeta e causam todo o tipo de maleitas e disfunções nos organismos, mas nunca é explicado que usos têm (se é que têm algum) e como vão parar aos solos, à água de abastecimento e ao gelo do Árctico. Pela parca e enigmática informação fornecida por Kemp, poderia pensar-se que os PFAS são a criação malévola de um arquivilão de livro de super-heróis, daqueles que se comprazem em actos cujo único fito é causar dor, sofrimento e caos. Todavia, Kemp informa-nos também que se produzem anualmente 2000 milhões de toneladas de PFAS, o que pressupõe que desempenhem papéis relevantes no mundo moderno.

Uma vez que Kemp nada diz, eis alguns factos básicos sobre PFAS: no que respeita a usos, o PFAS mais famoso (e o primeiro a ser sintetizado) foi o Teflon (designação comercial do politetrafluoretileno ou PTFE) e outros PFAS são usados em tecidos e revestimentos impermeáveis, isolamentos eléctricos, embalagem de alimentos, tintas, colas, cosméticos, champôs e espumas de combate a incêndios. Quanto à persistência, que depende do meio e da variedade de PFAS (fabricam-se mais de 15.000 compostos diferentes), pode oscilar entre centenas de anos e um milhar de anos.

Kemp, desconcertantemente, coloca o problema dos PFAS apenas na vertente das soluções para a sua remoção do ambiente; porém, se os PFAS são parte integrante da vida moderna e são produzidos em tão grande quantidade, que sentido faz discutir os elevadíssimos custos da sua remoção, se a indústria química não tomar tomadas medidas para encontrar compostos alternativos para substituir aqueles que constituem um risco para a saúde e para o ambiente?

No caso dos PFAS, como no das “terras raras”, Kemp barafusta veementemente contra algo que não compreende bem e que não se deu ao trabalho de pesquisar – o tipo de atitude que encontramos na agitprop com que os eco-activistas de sofá inundam as redes sociais, não num livro sério por um reputado especialista. Porém, de um ponto de vista pragmático, a atitude de Kemp justifica-se: a verdade é que, apesar das suas gritantes insuficiências, A Maldição de Golias foi recebido como “excepcional” (Sunday Times), “absolutamente brilhante” (Publishers Weekly), “impressionante. [….] O nível de análise é épico” (The Guardian) e “uma excelente viagem pela história humana” (Observer).

Novas entidades nunca vistas

● Na pg. 386, ao imaginar como perceberiam os arqueólogos do futuro as marcas definidoras do Antropoceno, Kemp escreve que, nos estratos de meados do século XX, “começam […] a surgir os plásticos e novas entidades nunca vistas. Os fósseis de animais tornam-se cada vez mais raros”. Passemos sobre as enigmáticas “novas entidades nunca vistas” e foquemo-nos nos “fósseis de animais”. Kemp não percebe que a crise ecológica não passa necessariamente pela redução da biomassa animal (ou vegetal) total, mas pela redução da biodiversidade da fauna (ou flora). Tomando o caso do território português, os arqueólogos do futuro encontrariam seguramente quantidades copiosas de fósseis de javalis (Sus scrofa), pardais (Passer domesticus), gaivotas (sobretudo Larus michahelis, Larus fuscus e Chroicocephalus ridibundus), pombos (Columba livia), ratos (Mus musculus), ratazanas (Rattus norvegicus e Rattus rattus) e, claro, cães (Canis familiaris), gatos (Felis catus) e todos os outros animais domésticos. Todavia, a proliferação luxuriante destas espécies, decorrente das escolhas e acções directas e indirectas do homem, é concomitante com a rarefacção ou extinção das espécies menos “generalistas”, menos adaptáveis e menos aptas a viver em ecossistemas degradados e em zonas urbanas e semi-urbanas.

● Na pg. 381, Kemp alerta para o risco de o aquecimento global poder causar a paralisação da AMOC”, a Circulação Meridional do Atlântico, que “funciona como um enorme tapete rolante, que transporta água salgada quente dos trópicos até ao Atlântico Norte”, o que “mergulharia a Europa numa idade do gelo e aqueceria simultaneamente os trópicos. Londres podia arrefecer 10ºC. […] Grande parte da terra arável do Reino Unido ficaria imprópria para ser cultivada”.

Noutros trechos, Kemp dá largas à sua preocupação com os aumentos de temperatura resultantes do efeito de estufa associado às emissões de dióxido de carbono – aquecimento que tem afectado mais a Europa do que os outros continentes. Ora, por um lado seria simplista ou excessivamente optimista assumir que os dois males (aquecimento global e paralisação da AMOC) se anularão mutuamente e que as temperaturas médias na Europa quedarão inalteradas e, daqui, concluir que não devemos preocupar-nos com as alterações climáticas. Por outro lado, é intelectualmente desonesto que Kemp agite as duas ameaças climáticas, separadamente, em tom catastrofista, escudando-se a considerar a possibilidade de a sobreposição de um fenómeno de aquecimento e de um fenómeno de arrefecimento poder resultar numa variação de temperatura. Será que não percebe que perde credibilidade quando agoura que os europeus irão ficar estorricados e, ao mesmo tempo, que irão mergulhar “numa idade do gelo”?

● Nas pg. 389-90, Kemp discute, de forma assaz superficial, aquilo que denomina “dissociação” (e que é usualmente designado como “desacoplagem eco-económica”), ou seja a possibilidade de “fazer crescer a economia ao mesmo tempo que se reduzem as emissões […], fenómeno a que assistimos em países como o Reino Unido”. O que Kemp não explica é que a maior parte dessa “dissociação” não foi alcançada através de um processo virtuoso (moderação dos consumos individuais, aumento das taxas de reciclagem e reutilização, processos industriais mais eficientes e “limpos”, transição de combustíveis fósseis para energias renováveis, etc.), mas através da desindustrialização no Reino Unido (e do Ocidente em geral), passando a China e o Sudeste Asiático a assumir a função de “fábrica do mundo” e, logo, o ónus das emissões associadas à actividade fabril (ver capítulo “O mito mais perigoso” em Areia, sal, ferro, cobre, petróleo e lítio: Como os transformámos nos pilares da civilização?).

Algo de similar se passou com a mineração: à medida que a regulamentação ambiental se foi tornando mais rigorosa no Ocidente, as minas foram sendo encerradas, já que as medidas de mitigação de impactes e de recuperação exigidas tornaram economicamente inviável o seu funcionamento; por outro lado, a oposição das populações locais, ferozes defensoras do princípio NIMBY (acrónimo de “not in my backyard”, i.e., “não no meu quintal”), inibe a abertura de novas minas. Resulta daqui que a mineração está cada vez mais concentrada em países menos desenvolvidos, onde a legislação ambiental ou é omissa, ou é permissiva ou não é cumprida e onde as populações locais estão menos informadas e organizadas para se oporem às minas, ou até vêem estas como geradoras de empregos e desenvolvimento económico e as acolhem de braços abertos.

O resultado desta cavilosa transferência geográfica de externalidades negativas, é que o cidadão do mundo ocidental continua a consumir produtos e energia com largueza, mas, como a “factura” ambiental desse consumo é paga a milhares de quilómetros de distância, sente-se reconfortado por os seus rios terem deixado de parecer esgotos a céu aberto, por o ar estar mais transparente e a paisagem não estar desfeada por explorações mineiras e chaminés fumegantes e até acredita que ele mesmo e os seus governantes têm estado a proceder de forma meritória, que o país deu passos significativos na direcção da sustentabilidade e que a neutralidade carbónica não só é alcançável como, afinal, nem sequer implica grandes sacrifícios.

Cada vez mais fortes e mais frágeis

No capítulo “A síndrome da Estrela da Morte” (sim, é uma piscadela de olhos aos fãs da saga Star Wars), Kemp argumenta, com pertinência, que o moderno “Golias Global”, ao mesmo tempo que ganha poder, torna-se também mais susceptível ao colapso, devido à confluência de três fenómenos paralelos: o constante incremento da conexão (as diferentes geografias e os diferentes sectores de actividade estão cada vez mais ligados e interdependentes), da aceleração (o ritmo de mudança é cada vez mais rápido) e da concentração (a economia mundial é, cada vez mais, dominada por um reduzido número de mega-empresas). “Sistemas mais hiperligados, hiperconcentrados, hiper-homogéneos e hiperacelerados tornam mais prováveis a ocorrência e a propagação de choques de grandes dimensões. […] Hoje, as crises que afectam sistemas globais – como a comida, a energia e as finanças – estão enredadas umas com as outras em matéria de causas e efeitos, produzindo aquilo a que alguns chamam uma ‘policrise global’” (pg. 399).

A argumentação de Kemp é correcta mas omite um quarto fenómeno, não menos importante, que incrementa o risco de colapso civilizacional: a hipercomplexificação.

Tome-se como exemplo a produção agrícola: uma exploração do mundo pré-industrial assentava exclusivamente na força humana e animal; a maquinaria e ferramentas envolvidas eram tão simples que podiam ser mantidas e reparadas pelos próprios trabalhadores agrícolas; a adubação e as sementes tinham origem local; e muitos dos produtos eram consumidos nas imediações do lugar onde eram cultivados.

Compare-se esta situação com uma exploração agrícola dependente de maquinaria sofisticada e necessitada de assistência altamente especializada, alimentada por uma rede global de extracção, refinação e transporte de combustíveis fósseis; de toneladas de plásticos e armações metálicas e de fertilizantes e pesticidas vindos do outro lado do planeta; de sementes (algumas delas geneticamente modificadas) fornecidas exclusivamente por grandes empresas multinacionais; de sistemas automáticos de alimentação do gado, de sistemas automáticos de rega e de sistemas de bombagem que vão buscar água a grandes profundidades ou a centenas de quilómetros de distância; de redes de distribuição, refrigeração e armazenagem que se estendem por centenas ou milhares de quilómetros; de redes de telemática, nomeadamente as necessárias para efectuar transacções e cumprimento de processos administrativos e burocráticos à distância. Já estão em uso e massificar-se-ão num futuro próximo, o recurso a drones para aplicação de pesticidas e fertilizantes, sistemas de GPS para rastreio do gado, gestão agrícola a partir de imagens captadas por satélites e drones, redes integradas de sensores de temperatura do ar, luminosidade e parâmetros do solo (humidade, pH e nutriente), sistemas de previsão meteorológica fiáveis e com elevada resolução, maquinaria agrícola autónoma, robots, dispositivos laser para afugentar aves e outras tecnologias de ponta.

A agricultura moderna permite obter produtividades por unidade de área várias vezes superiores às da agricultura tradicional, mas basta que um dos bens e serviços acima enumerados deixe de ser fornecido ou deixe de funcionar correctamente para que a produção pare ou fique seriamente comprometida.

Outro exemplo, mais ligado ao quotidiano do cidadão comum, está na evolução dos automóveis de passageiros: o Ford Model T (cuja primeira versão surgiu em 1908) foi concebido para poder ser reparado e mantido com recurso a meia dúzia de ferramentas básicas por qualquer pessoa com conhecimentos básicos de mecânica; até ao início dos anos 1980, a maioria dos automóveis em circulação podiam ser mantidos e reparados por um mecânico de fim-de-semana. Já os automóveis que estão hoje a sair das linhas de montagem são, aos olhos do condutor, uma perfeita “caixa negra” e a sua reparação está estritamente dependente de diagnósticos e scans computorizados e de maquinaria altamente especializada, operados por funcionários treinados, recursos que só estão disponíveis nas oficinas oficiais do fabricante (o primo-com-jeito-para-a-mecânica já não pode valer-lhe). No Ford Model T ou no Volkswagen “Carocha” havia um número limitado e bem identificado de peças que poderiam partir-se ou encravar ou deixar de funcionar; num carro de hoje há milhares de componentes que podem asnear. E quando o carro se imobiliza ou o écran onde está centralizada toda a informação e quase todos os controlos se apaga, só resta ao condutor esperar que um reboque o leve para a oficina de marca mais próxima (que poderá ficar a largas dezenas de quilómetros de distância, não no seu bairro).

O efeito combinado da hiperconexão, da hiperaceleração, da hiperconcentração e da hipercomplexificação criou um mundo em que o cidadão comum se sente insuflado por uma ilusão de omnipotência, omnisciência, omnipresença e invulnerabilidade, que o torna desmedidamente presunçoso – a hiperfiláucia também deveria ser adicionada à lista das grandes ameaças civilizacionais do nosso tempo. Mas, hélas!, este ramalhete de atributos divinos desfaz-se instantaneamente no momento em que a conexão entre o smartphone do presunçoso e a Internet se quebra, devolvendo o Homo sapiens do século XXI à sua condição de símio pelado, fisicamente fraco e mentalmente embotado (já que a delegação sistemática de funções cognitivas no aparelho tecnológico atrofia as capacidades intelectuais).

O cidadão comum só muito fugazmente se apercebe de quão precária e contingente é a intricada rede que sustenta o seu estilo de vida e os seus delírios de grandeza. Um desses momentos aconteceu a 4 de Outubro de 2021, quando um “blackout” de cinco horas e meia no Facebook, Instagram e WhatsApp lançou milhares de milhões de pessoas na angústia e até no pânico, ainda que a esmagadora maioria delas apenas use estas redes sociais para entretenimento, conversa fiada e outros fins fúteis e continuassem disponíveis outras formas expeditas de comunicação, como o e-mail ou o telefone. Outra ocasião ocorreu a 28 de Abril de 2025, quando um colapso da rede eléctrica deixou toda a Península Ibérica paralisada durante cerca de dez horas; os portugueses e espanhóis guardam na memória este incidente, mas recordam-no como uma bizarra intermissão na sua rotina (como um dia sem aulas na escola primária devido a uma súbita indisposição da professora), não como um aviso sério sobre as vulnerabilidades estruturais da civilização moderna.

Democracia e resiliência

No que respeita à resistência dos diferentes tipos de sociedade ao colapso, Kemp reporta que “um sem número de estudos sobre catástrofes contemporâneas apoia a noção de que as sociedades politicamente inclusivas são também mais resistentes” (pg. 170) e aponta razões para isto: “As sociedades com instituições mais extractivas têm tendência a ter menos laços sociais e a reagir pior a catástrofes naturais” e, por outro lado, “mais democracia traduz-se em melhor tomada de decisões. […] Temos amplas provas teóricas e empíricas de que, a longo prazo, um grupo grande e diversificado de pessoas que partilham informação entre si faz, em médias, melhores escolhas do que um ‘ditador esclarecido’ ou um pequeno grupo de tecnocratas” (pg. 171). Há dois factores adicionais, que Kemp não menciona, que dão vantagem às democracias liberais na tomada de decisão: 1) o autocrata tende a possuir uma visão deformada da realidade, pois os seus serviços de informação, ainda que sejam hipertrofiados e desrespeitadores da privacidade, tendem a dizer-lhe o que ele quer ouvir, não a verdade; e 2) as autocracias tendem a ser mais corruptas do que as democracias (ao contrário do que os fãs do autoritarismo costumam propalar) e a corrupção distorce o processo de decisão, pois o propósito deste desvia-se da busca do bem comum para o serviço de interesses particulares.

Porém, todo o debate lançado por Kemp em torno da diferente resistência ao colapso nas sociedades democráticas e nas sociedades autoritárias é inquinado pela avaliação negativa que Kemp faz das democracias do nosso tempo: “A maior parte dos regimes políticos, historicamente, não eram particularmente democráticos, mas as democracias modernas também não o são. […] Nos sistemas eleitorais parlamentares modernos, a população consente em ser governada; a governação em si não é amplamente partilhada. Por outras palavras, a maior parte das sociedades só conhece uma ínfima parte dos benefícios, em matéria de resiliência, que as instituições inclusivas têm para oferecer” (pg. 173).

Que formas inclusivas de democracia julgará Kemp que são adequadas para “garantir que um choque ou uma crise não se transforme num colapso”?

É sabido que as tribos germânicas tomavam decisões em assembleias gerais (thing) e que tais práticas perduraram na Escandinávia e na Islândia medievais. Também as tribos índias norte-americanas recorriam a processos deliberativos colectivos assentes no estabelecimento de consensos (não na decisão por maioria). Ainda hoje, perante uma ameaça disruptiva, é viável que toda uma tribo de índios da Amazónia – ou, pelo menos, todos os seus membros adultos – se reúna para estudar a forma de enfrentá-la. Há, todavia, que considerar que os thing dos germanos e escandinavos eram exclusivamente masculinos e que a mesma regra se aplicava a parte das assembleias tribais do continente americano, embora noutras as mulheres também participassem. Seja como for, estas aplicações do modelo conciliar diziam respeito a grupos com centenas ou escassos milhares de elementos – como aplicá-lo a entidades políticas com milhões ou centenas de milhões de membros?

Ficando-nos pelo nosso modesto rectângulo, será que uma reunião geral dos 9.2 milhões de eleitores via Zoom permitiria chegar a uma decisão informada e sensata sobre a exploração de lítio no Barroso, a antecipação do prazo para atingir a neutralidade carbónica de 2050 para 2045, a adopção da semana de trabalho de quatro dias, a regulamentação da IA ou a instauração às empresas de uma taxa sobre robots e microprocessadores avançados?

A visão “inclusiva” da democracia perfilhada por Kemp parece ir bem além da intenção, erradamente atribuída a Lenin, de treinar “todas as cozinheiras de forma a que qualquer delas seja capaz de governar o país”. Colocar os cidadãos comuns a governar uma cidade-estado funcionou razoavelmente na Grécia Clássica, era já francamente inviável na URSS do início do século XX e tornou-se numa hipótese absurda um século depois. Hoje, independentemente da maior ou menor competência dos escolhidos para ministros e secretários de Estado, a governação assenta antes de mais em equipas de tecnocratas experientes com pleno conhecimento do funcionamento das engrenagens da administração pública.

Autocracias em tempo de guerra

Nas suas considerações sobre a menor vulnerabilidade das sociedades democráticas ao colapso, Kemp omite uma circunstância em que as sociedades autocráticas têm vantagem sobre as sociedades democráticas: as guerras. Em regimes democráticos, o povo tende a exprimir abertamente o seu desagrado perante guerras de legitimidade duvidosa e resultados pífios e que se traduzem em subida do custo de vida, míngua de bens essenciais, privações várias e baixas entre soldados e civis. Num regime autocrático, as massas podem nem sequer ver motivos para protesto, pois a combinação da censura dos meios de comunicação social e da Internet com a intensa propaganda governamental consegue criar a ilusão de que a guerra é necessária e justa e está a ser ganha. Mas, mesmo que parte do povo consiga ver através da cortina de fumo da censura e da desinformação – é difícil esconder o preço e a escassez de bens essenciais e a torrente de caixões e estropiados que a frente de batalha devolve – a eficácia do aparelho repressivo dissuade a expressão do descontentamento.

Além disso, é preciso contar com o facto de, nos regimes autocráticos mais longevos, os elementos mais lúcidos e contestatários da população já terem abandonado o país ou terem sido eliminados fisicamente (ou se terem remetido ao silêncio ao ver outros contestatários suprimidos). É certo que os regimes autocráticos não podem dar-se ao luxo de ignorar o descontentamento popular, mas 1) toleram índices mais elevados de descontentamento, uma vez que não são sujeitos a eleições (ou, pelo menos, a eleições não fraudulentas) e escrutínio; e 2) dispõem de meios eficazes para iludir e reprimir o descontentamento.

Como exemplo extremo, temos a resistência obstinada dos alemães e a quase completa ausência de protestos e dissidências, em 1944-45, numa altura em que deveria ser óbvio para todos que a derrota do III Reich era inevitável e que a continuação da guerra era vã e só lhes traria mais sofrimento (tema tratado por Ian Kershaw em Até ao fim: Destruição e derrota da Alemanha de Hitler 1944-45, de 2011). Também o povo japonês se manteve inabalavelmente fiel ao seu imperador e ao seu Governo, mesmo quando não restavam dúvidas de que a guerra estava perdida e a resistência seria fútil.

Como exemplo presente, temos a invasão russa da Ucrânia: as pesadas baixas russas, actualmente estimadas em 1.2-1.5 milhões de militares (mortos e feridos), combinadas com as privações sentidas na vida quotidiana dos civis (decorrentes da guerra propriamente dita e das sanções impostas pelo Ocidente), a lentidão da progressão das forças russas e, mais recentemente, a crescente audácia e eficácia dos ataques ucranianos em território russo, teriam, num regime democrático, gerado uma vaga de descontentamento que teria obrigado o Governo a recuar. Todavia, sob a mão de ferro e a propaganda maciça do regime de Putin, o país tem-se mantido unido e resignado. É verdade que Putin tem tido o cuidado de poupar os filhos da classe média das grandes cidades da Rússia Ocidental – mais propensa a exprimir descontentamento – e tem alimentado a sua insaciável máquina de picar carne sobretudo com presidiários, inadaptados, recrutas das regiões rurais pobres da Sibéria e das micro-repúblicas do Norte do Cáucaso, norte-coreanos e mercenários de variadas proveniências. As mortes no exército russo têm, portanto, seguido uma distribuição social e geográfica fortemente enviesada. Por exemplo, quando se contabilizam as mortes em função da população da região de origem dos soldados, a mortalidade nas república de Buryatia e Tuva, no sul da Sibéria, é 30 a 90 vezes superior à registada em Moscovo e São Petersburgo. Independentemente do uso de estratégias torpes para “minimizar a dor”, a factura desta “operação militar especial” seria sempre julgada inaceitável numa democracia liberal.

Por razões análogas, também é natural que os regimes democráticos sejam menos eficazes do que os totalitários em caso de pandemia: nos regimes do primeiro tipo, as massas não se sentem inibidas a reclamar perante confinamentos, cercas sanitárias e outras restrições da liberdade individual, nem a resistir a planos de vacinação compulsiva e outras medidas profilácticas, enquanto nos regimes totalitários o Estado sabe como fazer-se obedecer por todos e as restrições da liberdade, a prepotência e a arbitrariedade fazem parte do quotidiano.

A obsessão natalista

Kemp identifica nos “Golias” uma “obsessão com o fomento da reprodução”, de forma a disporem de “mais pessoas para engrossar as fileiras dos seus exércitos e economias” e apresenta vários exemplos de medidas tomadas pelos governantes dos Estados para encorajar a fertilidade: “Em 18 d.C., o imperador Augusto promulgou uma série de leis com vista a aumentar o número de casamentos e de crianças. Os Qin [221-206 a.C.], na China, ofereceram incentivos fiscais às mulheres e às suas famílias se tivessem mais filhos. E não faltam exemplos modernos de políticas pró-natalistas que tentam estimular a reprodução” (pg. 312); Kemp menciona em seguida os incentivos à natalidade dados, actualmente, pelos governos do Japão, da Coreia do Sul, da Austrália, da França e da Hungria, não parecendo dar-se conta dos contextos e motivações radicalmente diferentes das políticas de fomento de natalidade na Antiguidade e no presente.

Segundo Kemp, nos “Golias” da Antiguidade “a fertilidade elevada e as grandes populações protegiam-nos contra a doença, facilitavam maior exploração económica e ajudavam a sustentar forças armadas mais fortes” (pg. 315). Ora, nos países desenvolvidos de hoje, as condições são completamente diversas: a baixa taxa de mortalidade infantil, os progressos na medicina, na higiene e na salubridade pública (tratamento e distribuição de água potável, remoção e tratamento de águas residuais e de lixo) e a instituição de sistemas de saúde universais fez desaparecer a necessidade de um casal ter quatro ou cinco filhos para que houvesse uma razoável probabilidade de que dois chegassem à idade adulta. Esta mudança radical no panorama democrático começou com a Revolução Industrial, que levou ao aumento da procura por trabalho especializado, que, por sua vez, estimulou a massificação da educação. “As novas oportunidades” que se abriam aos operários qualificados e versáteis levou os pais a ter menos filhos e “a investir uma parcela mais elevada dos seus rendimentos na educação” daqueles – é assim que Oded Galor explica a Transição Demográfica em A jornada da humanidade: As origens da riqueza e da desigualdade, de 2022 (ver capítulos “Presos na armadilha malthusiana” e “Driblando Malthus e Marx” em Estará na História a origem da desigualdade entre países ricos e países pobres?).

Por outro lado, no final do século XX e início do século XXI, a evolução tecnológica mudou radicalmente a forma como se travam guerras: em vez de envolver a colisão brutal de grandes massas de soldados indiferenciados e rudimentarmente treinados, passou a ser levada a cabo à distância por técnicos especializados na recolha de informação e no “empastelamento” de comunicações inimigas, no lançamento de mísseis, na pilotagem de aeronaves de combate ultra-sofisticadas e na operação de drones. Por outro lado, ainda que Kemp tenha relutância em reconhecê-lo, o Ocidente tem vivido, desde 1945, num período relativamente tranquilo da História, o que também contribuiu para a redução generalizada dos efectivos das forças armadas, sobretudo na outrora belicosa Europa: por exemplo, as forças armadas da Alemanha (Bundeswehr) têm hoje 186.000 militares no activo, enquanto na II Guerra Mundial a Wehrmacht contou, no auge do seu poderio (em meados de 1943) com 10 a 12 milhões de militares.

O resultado da diminuição do número de filhos por casal, aliada ao aumento da esperança média de vida, tem sido o envelhecimento acentuado da pirâmide demográfica dos países desenvolvidos, o que, por sua vez, ameaça a sustentabilidade dos sistemas de segurança social, deixa postos de trabalho vagos na estrutura produtiva e sobrecarrega os serviços de saúde e de apoio geriátrico. Quando, no presente, “Japão e a Coreia do Sul pagam às pessoas para terem bebés”, não é para criarem um vasto exército para invadirem os seus vizinhos, é porque a taxa de fertilidade se tornou alarmantemente baixa: na Coreia do Sul é de 0.75 nascimentos/mulher (1.º lugar do ranking invertido de fertilidade) e no Japão é de 1.15 (17.º lugar), enquanto o rácio entre a percentagem da população com mais de 65 anos e menos de 15 anos é de 19.3/11.3 na Coreia do Sul e de 29.5/12.1 no Japão. Portugal não está em muito melhor situação, com 22.3/12.7; na situação oposta está o Níger, cujo rácio é de 2.7/49.5 (tudo dados de 2024).

O fim de toda a vida no cosmos?

Na pg. 474, Kemp escreve que “o fim do mundo” representa “possivelmente […] o fim de toda a vida no cosmos. A Terra contém os únicos indícios de vida observáveis em todo o Universo”. É uma afirmação que só pode suscitar o repúdio veemente de toda a comunidade de astrobiólogos e que incorre na infantil falácia (mais uma) de confundir ausência de prova com prova de ausência. Até pode ser possível, ainda que não plausível, que a Terra seja o único lugar do universo onde se desenvolveu o fenómeno a que chamamos “vida”, mas o facto de, até à data, não termos obtido sinais de existência de vida extraterrestre decorre, antes de mais, da incomensurável distância que nos separa de outros sistemas solares e da escassíssima informação que deles podemos obter com a tecnologia de que dispomos actualmente.

Antes de mais, há que reconhecer, com toda a humildade intelectual, que as observações realizadas até hoje, além de serem extremamente superficiais e falíveis, cobriram apenas uma fracção ínfima do cosmos: a nossa galáxia tem 100.000 a 400.000 milhões de estrelas e existem no universo pelo menos 200.000 milhões de galáxias. Por outro lado, um dos estudos mais completos (ainda que, necessariamente, especulativo) sobre este assunto, elaborado em 2020 pela NASA e pelo SETI Institute (SETI é a sigla para “Search for Extraterrestrial Intelligence”), estimou que existam na nossa galáxia, 300 milhões de planetas rochosos com características aproximadamente similares às da Terra e, logo, susceptíveis de albergar vida; só dentro de um raio de 30 anos-luz em torno do Sol existem quatro candidatos potenciais. Mesmo as estimativas mais conservadoras apontam para que 7% dos sistemas solares no universo possuam planetas “habitáveis”.

Claro que nem todos os planetas potencialmente “habitáveis” irão, necessariamente, desenvolver vida e, menos ainda desenvolverão vida suficientemente sofisticada para construir artefactos que permitam visitar outros corpos celestes no seu sistema solar. Os terráqueos não conseguiram, até à data, melhor do que viajar até à Lua e, pesem embora as fantasias pueris de Elon Musk, nem tão cedo conseguirão visitar outro planeta e muito menos nele estabelecer colónias permanentes (ver Um safari em Marte). É certo que há sondas não-tripuladas que viajaram até aos limites do sistema solar e para lá dele, mas a razão entre o diâmetro do sistema solar e a distância entre ele e as estrelas mais próximas – o sistema triplo designado como Alpha Centauri, a 4.5 anos-luz – é de 1:30.000. A primeira dessas sondas foi a Voyager 1, que tem afixado no exterior um disco com instruções esquemáticas para a sua reprodução e cujo conteúdo inclui amostras de sons da Terra, incluindo a fala de diferentes estirpes de terráqueos; a sonda foi lançada em 1977 e deverá estar, por esta altura, a 25.400 milhões de quilómetros da Terra, uma distância que um raio de luz leva um dia a percorrer.

Portanto, a capacidade para cobrir “em tempo útil” distâncias da ordem de 30 anos-luz poderá nunca estar ao alcance dos terráqueos – nem, reciprocamente, ao alcance da eventual vida inteligente existente num sistema solar a 30 anos-luz de distância.

Por outro lado, é preciso considerar que a vida não tem uma assinatura detectável a anos-luz de distância; o mesmo acontece com a vida inteligente, a não ser que esta se desenvolva a um ponto em que é capaz de enviar (voluntária ou involuntariamente) sinais (radiação electromagnética) para o espaço. Na Terra, as primeiras transmissões de telegrafia sem fios datam de há cerca de 125 anos e as primeiras transmissões radiofónicas regulares tiveram lugar há pouco mais de um século – contudo, o Homo sapiens surgira há 300.000 ou 200.000 anos, o Homo erectus há 1 milhão de anos e o primeiro representante do género Homo há cerca de 2.75 milhões de anos. Ou seja, só nos últimos 0.0036% do período de existência de vida inteligente (se é que podemos associar tal designação à aparição do género Homo) é que esta alcançou um estádio em que se tornou capaz de anunciar (ou denunciar) a sua existência ao espaço exterior. Quando, por sua vez, comparamos o período de existência de vida inteligente com o período de existência de vida na Terra, o primeiro representa 0.06% do segundo. Como ousa Kemp concluir pela inexistência de “indícios de vida observáveis em todo o Universo” se a própria Terra só começou a emitir para o espaço sinais de vida inteligentes nos últimos 100 anos, embora albergue vida há 4000 milhões de anos?

As formidáveis distâncias entre estrelas e a lentidão da evolução da vida conduz-nos a uma desanimadora conclusão (i.e., desanimadora para aqueles que sonham com intercâmbios com inteligências alienígenas): mesmo que o desabrochar de vida (seja qual for a forma assumida) fosse um fenómeno frequente no universo, cada um dos seus focos estaria, provavelmente, condenado para sempre à solidão e à ignorância da existência de outros focos.

Seja como for, a especulação de Kemp sobre a Terra ser o único local do universo com vida é, em termos práticos, irrelevante, já que o imperativo de zelar por que a humanidade não desencadeie eventos que possam acabar com a vida na Terra (ou, o que é muito mais fácil, com a civilização moderna) não é mais nem menos premente por existirem ou não outros planetas com vida no Universo.

O que pode concluir-se de mais este “episódio” é que, seja qual for o assunto abordado, Kemp está mal informado e perde-se em elucubrações ociosas, destituídas de lógica e estéreis.

O que temos a aprender com o bom selvagem

À medida que se avança na leitura de A Maldição de Golias, há duas perplexidades que vão crescendo no leitor. Uma é que toda a copiosa informação sobre as virtudes da vida entre os “bons selvagens” provenha de livros, artigos e outras fontes bibliográficas e, nem por uma vez, Kemp deixe transparecer ter visitado, ainda que fugazmente, uma das sociedades tradicionais que tão fervorosamente elogia, ou ter falado com algum dos seus membros (embora o seu país natal, a Austrália, albergue quase um milhão de aborígenes, repartidos por meio milhar de sociedades distintas).

A outra perplexidade prende-se com o abissal desfasamento entre o pensamento e as opções de vida de Kemp. Se ele vê a história da “formação e colapso dos Estados […] como o estabelecimento de uma organização criminosa, que depois se fragmenta devido a lutas internas ou a pressões exercidas por organização concorrentes” (pg. 181); se atribui aos Estados – e, em particular, aos Estados europeus – a prática continuada da guerra, do esclavagismo e da exploração do Sul Global (que prossegue hoje, ainda que encapotada); se avalia as mais avançadas democracias do nosso tempo como ridículos arremedos da verdadeira democracia; se entende que o modelo de sociedade tribal é o que mais convém à natureza humana; se vê a adopção da agricultura como o pecado original que lançou o homem na lúgubre e árdua senda da civilização; e se louva a Era de Ouro em que o Homo sapiens vivia, sustentavelmente, da caça-recolecção e era pacífico, cooperativo, inclusivo, igualitário, saudável, feliz e, last but not least, alto (exactamente o contrário daquilo em que a civilização o tornou), o que o levará a persistir em fazer a sua vida na civilização que tanto execra?

Por que escolhe continuar a habitar o ambiente climatizado dos gabinetes e salas de conferências do meio académico ocidental, por que aceita trabalhar para as pífias instituições que governam o mundo, por que faz parte dos “passageiros frequentes” que saltitam de avião entre compromissos espalhados pelo planeta, libertando, no processo, incontáveis toneladas de dióxido de carbono? Em que medida é que o seu estilo de vida se distingue do dos cidadãos alienados e subservientes do “Golias Global”?

O que impede Kemp de renegar o iníquo e hipócrita mundo moderno e juntar-se a uma tribo no coração da Amazónia, da Nova Guiné ou do outback australiano, ou tentar ser aceite pelo povo que habita a ilha Sentinela do Norte, no arquipélago de Andaman, no Índico, que se recusa firmemente a ser corrompido pela civilização e a abdicar do seu modo de vida paleolítico?

Terá Kemp receio de não conseguir prescindir dos confortos e mordomias do Ocidente moderno, ou de não ser capaz de adaptar-se à dureza da vida em “estado de natureza”? Ou temerá descobrir que o “bom selvagem” não é mais do que uma fantasmagoria criada pela imaginação pouco vigiada de alguns membros da elite intelectual ocidental, atormentados pela má consciência, iludidos pela nostalgia de um tempo que não viveram e sobre o qual quase nada sabem e, nalguns casos, destilando rancor contra o “sistema” que lhe proporciona uma vida recheada de mordomias?

Em meados do século XIX, grassou em Londres – então capital de um império em que o sol nunca se punha – um interesse inusitado pelos “povos indígenas” do mundo, que foi espoletado, em 1839, pela “Indian Gallery”, uma vasta exposição de cerca de 500 quadros do explorador e pintor americano George Catlin sobre os índios das planícies da América do Norte, complementada por centenas de artefactos deste povos (incluindo um imponente tipi). Este interesse conheceu novo pico em 1853, com os “quadros vivos” da exposição “Native Zulu Kafirs”, que esteve patente em Londres durante quatro meses de 1853, antes de fazer uma tournée pela Grã-Bretanha; esta mostra foi promovida pelo comerciante A.T. Caldecott e pelo seu filho Charles Henry e contava com 13 zulus que apresentavam um programa de danças, cânticos, rituais e reencenações da sua vida quotidiana. Nesse mesmo ano, Charles Dickens, em reacção à onda de excitação frívola em torno do “bom selvagem” publicou na sua revista semanal Household Words o ensaio satírico “The noble savage”, em que denunciava aquele como uma romantização do primitivismo, “um prodigioso incómodo, uma desmedida superstição. […] Se alguma coisa temos a aprender com o ‘bom selvagem’, é aquilo que devemos evitar. As suas virtudes são uma fábula, a sua felicidade uma ilusão, a sua nobreza um disparate”.

Um século antes, Voltaire já tinha produzido uma refutação da tese de Jean-Jaques Rousseau sobre a bondade inata dos “selvagens” e a irremediável e irredimível maldade da civilização, só que não fora tornada pública. Em resposta a Rousseau, que lhe enviara um exemplar do Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre os homens, Voltaire enviou-lhe uma carta, datada de 30 de Agosto de 1755, que começa assim: “Recebi, caro senhor, o vosso novo livro contra o género humano. Agradeço-vos. […] Nunca antes foi colocado tamanho empenho em fazer de nós bestas. Ao lê-lo, fica-se com vontade de passar a caminhar sobre quatro patas. Todavia, como há mais de sessenta anos que perdi esse hábito, temo que, infelizmente, me seja impossível retomá-lo. Deixo essa postura natural para outros mais dignos dela do que eu e vós”.

São linhas que assentam bem a Luke Kemp e ao manifesto anarcoprimitivista que é A Maldição de Golias.