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(A) :: Uma história que acabou na história que está a começar: Tiago Torres cai nos quartos do Estoril na estreia em torneios ATP

Uma história que acabou na história que está a começar: Tiago Torres cai nos quartos do Estoril na estreia em torneios ATP

Entre protestos em bolas de dúvida e a sobrecarga de jogos a fazer sentir-se no braço esquerdo, Tiago Torres ainda deu show no Estoril mas não evitou a derrota frente a Gaston nos quartos (6-3 e 6-4).

Bruno Roseiro
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Foi o próprio a assumir: “Estava a passar uma vergonha”. A estreia no Millennium Estoril Open era também a estreia num torneio ATP, mas a estreia dificilmente poderia estar a correr pior: break no primeiro jogo de serviço, mais um break mais à frente, 4-1 em menos de 20 minutos. “Não estava a conseguir jogar e pensei para mim que tinha de tentar dar um bocadinho de show porque a malta veio cá ver isto”, apontou. Estava a ter início uma das histórias mais incríveis no torneio português dos últimos anos e logo com um atleta nacional como protagonista, num feito que não demorou também a saltar para a imprensa estrangeira.

https://observador.pt/2026/07/20/tiago-torres-bate-basilashvili-e-esta-na-segunda-ronda-do-estoril-open/

Recuperando essa partida supracitada, na primeira ronda do quadro de singulares da maior competição da modalidade no país, Tiago Torres, que ocupa uma modesta 427.ª posição no ranking mundial, ganhou todos os restantes cinco jogos do primeiro set, que fechou com 6-4, e fechou a partida com um 6-2. Ou seja, em 13 partidas a partir dessa reflexão, ganhou 11 frente ao georgiano Nikoloz Basilashvili, um jogador mais batido no torneio mas que deixou de ter argumentos para travar o ténis do português. No entanto, o melhor estava ainda para vir. E se no final já admitia estar a viver um sonho, o “jogo de uma vida” estava a chegar.

A defrontar o chileno Alejandro Tabilo, terceiro cabeça de série do torneio e 30.º do ranking mundial, Tiago Torres não demorou a entrar no encontro, fez um break logo a abrir que conservou até ao 6-4 no primeiro set entre dois pontos de break evitados e respondeu da melhor forma a um contra break do sul-americano no segundo parcial para quebrar de novo o serviço e fechar a segunda partida também com 6-4. Depois de um jogo de sonho, um jogo ainda mais de sonho com “a melhor exibição da carreira”. Aquele canhoto de 24 anos que joga todo vestido de negro tinha entrado em definitivo no mapa… apesar de ter recebido um wild card por parte da organização por deter o título de campeão nacional absoluto, ganho no final de 2025.

https://observador.pt/2026/07/22/wild-card-tiago-torres-faz-historia-no-estoril-open-derrota-3-o-cabeca-de-serie-e-chega-aos-quartos-de-final-no-1-o-torneio-atp/

“Foi brutal, nunca tinha jogado com tanta gente. Já tinha jogado com 200, 300 pessoas, nunca com um estádio basicamente cheio. No início foi muito complicado, estava muito nervoso, mas com o andar do jogo consegui mostrar bom ténis e ganhar. Estou muito feliz. Estou emocionado, aqui à vossa frente não, mas mais ali atrás, hei de chorar, não sei. É o trabalho de muitos anos, de muitas pessoas que acreditaram em mim, que deram tudo por mim, do meu pai, que viaja sempre para me ver jogar, a Federação tem-me ajudado muito também. Se calhar, se não tivesse ganhado, dizia o mesmo. Se calhar, se tivesse perdido 6-2 e 6-2, o trabalho está lá. Às vezes, não interessa o resultado. Acho que as pessoas pensam muito no dia de hoje e não no futuro. Simplesmente, agora está a acontecer e está a ser o melhor resultado da minha vida, mas, se não fosse o trabalho, não estava lá e isso nunca vai mudar”, comentou o jovem lisboeta após o triunfo.

Ainda não sei bem como viver isto. Disse que, na segunda-feira, tinha para aí 500 mensagens, hoje vou ter outras 500. Peço desculpa a todos a quem não consigo responder, mas é que também preciso de um tempo para mim, para ser sincero. Vou continuar a ser eu mesmo. Para a semana estou a jogar outra vez torneios do meu nível. Não vai mudar nada, continuo humilde”, frisou.

A história estava a ser escrita por um jogador que, à semelhança de Nuno Borges, foi estudar para os Estados Unidos e, enquanto fazia a licenciatura em Gestão na Universidade do Texas em San Antonio, esteve também quatro anos a competir na 1.ª Divisão Universitária do país (o maiato esteve em Mississípi). Regressou após a conclusão do curso, no verão de 2025, e foi para a Ace Team Tennis Academy para dedicar-se a 100% ao ténis nesta fase da vida, tendo o título nacional absoluto no Jamor frente a Francisco Rocha, no mês de dezembro, como momento mais alto dessa fase de transição até chegar a este Millennium Estoril Open.

https://twitter.com/TennisTV/status/2079990813627470255

Havia, ainda assim, algo mais por disputar, ou não fosse esta uma história de sonho em aberto. Depois de tornar-se apenas o quarto jogador português a chegar aos quartos no Estoril nesta nova era iniciada em 2015, depois de João Sousa, João Domingues e Nuno Borges (com Jaime Faria a tornar-se mais tarde o quinto), o lisboeta enfrentava agora o francês Hugo Gaston, também ele um canhoto com uma semana muito positiva onde bateu Damir Dzumhur e o compatriota Titouan Droguet. Em qualquer cenário, esta já seria a melhor semana da curta carreira de Tiago Torres. Em qualquer cenário, podia arriscar chegar mais longe.

https://twitter.com/EstorilOpen/status/2080611065310630328

https://twitter.com/EstorilOpen/status/2080637914812125514

E o jogo até começou da melhor maneira: 1-0 no seu primeiro jogo de serviço, 2-0 com um break no serviço de Gaston. Aí, o francês fez de imediato o contra break para segurar-se ainda ao primeiro set e terá sido esse o momento em que a história começou a mudar, até porque, logo de seguida, Tiago Torres pediu assistência médica na paragem seguinte. Mais uma vez, tal como fizera no encontro anterior e tal como acontecera na Lourinhã, onde fez o derradeiro torneio antes de chegar ao Estoril, o braço esquerdo continuava a dar problemas, não num sentido de “lesão” mas pela sobrecarga de encontros para quem não estava habituado a estas andanças (chegou também aos quartos do torneio de pares com João Domingues). O nível de jogo baixou, as pancadas deixaram de sair e, após essa paragem, Gaston ganhou três encontros seguidos até ao 6-3 incluindo mais dois breaks no serviço do português que passaram pelas vantagens antes de fecharem.

https://twitter.com/EstorilOpen/status/2080615566767759497

Num momento que por vezes se torna uma imagem de marca do português, Tiago Torres foi ao balneário a protestar com tudo e com todos mas estava longe de dar-se por vencido mesmo tendo tudo a jogar contra si. O que faltou? A regularidade que Gaston foi ganhando com o tempo, nomeadamente desde que chegou aos oitavos de Roland Garros em 2020, entre um coração enorme do lisboeta: conseguiu fazer o break para o 2-1 num jogo onde voltou a elevar a qualidade do seu ténis, sofreu de seguida o contra break, teve um ponto de break não concretizado no serviço de Gaston, aguentou depois três pontos de break para fazer o 3-3 a abrir o livro com amorties que deixavam impressionado um francês… que é o rei dos amorties. Estava tudo em aberto numa batalha onde Torres teve uma oportunidade de ouro no sétimo jogo, com três pontos de break perdidos antes de Gaston fazer o 4-3, que acabaria por custar caro antes da derrota por 6-4 com um break no último jogo de serviço que foi às vantagens e acabou por ser cedido com uma dupla falta.

https://twitter.com/ivabianconero/status/2080658015066140676