O Santander Portugal lucrou 434 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, anunciou a instituição financeira, agora liderada por Isabel Guerreiro. O lucro representa uma queda de 13,9% face aos 503,9 milhões do ano anterior no período homólogo.
A instituição prefere salientar o lucro recorrente de 452,8 milhões, menos 4,9%. Este exclui 18,8 milhões de euros de custos este ano com encargos que diz não serem repetíveis com a transformação da rede de agências e reformas antecipadas, mas também o resultado extraordinário no ano passado pela devolução do adicional sobre o setor bancário.
Na conferência de imprensa, a CEO realçou que as pré-reformas são movimentos “naturalíssimos” que têm custos associados. O banco reportou no primeiro semestre um total de 4.527 trabalhadores, menos 139 que os 4.666 do final de 2025. E um total de 261 agências, contra as 278 do final do ano.
Isabel Guerreiro escusa-se a adiantar o número de balcões e trabalhadores a ter no final de 2026. No número de pessoas “há uma variação natural das pessoas que atingem a idade de reforma que vai continuar”. Mas “não há uma previsão material para a segunda metade do ano”. No ajuste de balcões e trabalhadores, que levou a uma provisão de 18,8 milhões, “não é uma recorrência anual”, é mais espaçada no tempo, salientou o administrador financeiro João Veiga Anjos.
A CEO acrescenta que no caso dos balcões tem havido da parte do Santander Portugal “uma análise caso a caso” para aferir “onde faz sentido haver fusão de balcões, encerramento, reabertura com base em número de visitas”. E até há balcões que acabaram a ver aumentado o número de trabalhadores. “Não há redução proporcional de pessoas em relação aos balcões encerrados”, garantiu, assumindo ainda que “não há um target para o número de balcões a ter. Vamos de forma granular analisar, perceber e tomar decisões”.
As agências de “maior dimensão são, claramente, as que têm melhor nível de satisfação”. Mas, concluiu, é um “trabalho contínuo”.
Comissões aumentaram pelo crescimento da atividade
“Estamos a crescer em resultado da nossa atividade comercial”, salienta a gestora, em conferência de imprensa. “Os nossos resultados são de facto muito distintivos quer no mercado português, quer europeu”, salientou Isabel Guerreiro. O Santander Portugal anunciou um crescimento de 12 mil clientes ativos, 27 mil digitais (atingindo 1,35 milhões). Foram abertas 45 mil contas e foram emitidos 72 mil cartões, numa base de quase 2 milhões de clientes.
A margem financeira no semestre diminuiu 2,6% para 677,6 milhões e as comissões cresceram 5,5% para 259,2 milhões de euros. Isabel Guerreiro aproveitou para dizer que a subida das comissões “resulta exclusivamente da atividade comercial. Não houve nem pensamos que venha a haver alterações de preçário”.
O crédito também aumentou. No final do semestre, a carteira de crédito (bruto) atingiu os 56,6 mil milhões de euros, mais 2,5 mil milhões que no final de 2025.
A carteira de crédito à habitação cresceu 8,4% para 26,1 mil milhões de euros e a do crédito ao consumo 6,7% para 2,2 mil milhões.
“Não há nenhum portefólio de crédito que esteja a gerar preocupação maior”
O Santander Portugal já se viu obrigado, neste primeiro semestre, a subir as imparidades para 24,3 milhões de euros (há um ano ainda estava a reverter). Em 2025 estava a libertar provisões. “Este ano já há uma normalização” do registo de imparidades, salientou Isabel Guerreiro, assumindo que o custo do crédito é baixo, de 7 pontos-base e com um rácio de cobertura de 88%. “Temos uma excelente qualidade da carteira de crédito”, assume a presidente executiva.
Isabel Guerreiro garante que, apesar de haver já imparidades a subir, “não há nenhum portefólio que esteja a gerar preocupação de maior”. O administrador financeiro explica, por seu lado, que nas provisões “existem muitos movimentos, os mais estruturais, dependentes do ciclo da economia — que estão em níveis bastante baixos — e os mais erráticos, que têm a ver com a particularidade de cada banco”. Muitas das provisões registadas por causa da Covid-19 não se materializaram e 2023, 2024 e 2025 acabaram por ser anos de reversão de provisões. Agora normaliza-se. “O que mudou foi a parte errática de provisões”, indica.
O Santander Portugal não vê um perfil de incumprimento dos clientes com garantia pública distinto do restante perfil de incumpridores. “O grau de incumprimento é igual ao padrão de comportamento do restante portefólio. Não há sinal de preocupação”, salienta Isabel Guerreiro. Mais de 50% do novo crédito hipotecário foi concedido a jovens e 20/25% tinham garantia pública. Desde o início de 2025, os créditos a jovens com até 35 anos representam 43% dos novos créditos, ou seja, 17 mil pessoas, metade das quais com garantia pública — correspondendo a um volume de crédito de 1,6 mil milhões.
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As regras de concessão de crédito vão apertar a partir de 1 de agosto. O Banco de Portugal reduziu a taxa de esforço dos 50% para 45% para a concessão de crédito e alargou, ao mesmo tempo, a maturidade dos empréstimos para os jovens — de 30 para 40 anos. Miguel Belo de Carvalho, administrador do Santander Portugal, acredita que os impactos, com estas duas medidas conjugadas, não serão significativos. “O efeito combinado poderá compensar”. E assume que “o mercado vai ajustar-se” às novas regras. E, por isso, assume: “Não estimamos impacto muito sério”.
No caso do Santander Portugal 15 a 20% dos clientes estão na franja dos 45-50% de taxa de esforço no crédito à habitação. No crédito ao consumo será algo em torno dos 5-6%.
Isabel Guerreiro acrescenta ainda que o Banco de Portugal não deve mexer no LTV (loan to value) que está fixado nos 90%. “Não consideramos que deva ser desconsiderado”.
Ainda a analisar o acórdão do Constitucional e as recomendações da Concorrência
Isabel Guerreiro, na sua primeira conferência de apresentação de resultados, não aprofundou temas como as recomendações da Autoridade da Concorrência que quer o fim das comissões de amortização antecipada para os créditos à habitação (taxa variável) ou que a transferência de clientes seja feita através de uma terceira entidade. “Foram notícias dos últimos dias. Temos de analisar”, diz Isabel Guerreiro, recordando que durante uns tempos a comissão esteve suspensa.
“Não consideramos que existam dificuldades na transferência de créditos, não temos visto que isso tenha sido uma inibição”, realçou a mesma responsável.
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Quanto ao acórdão do Tribunal Constitucional que considerou inconstitucional, como adiantou o Eco, a contribuição periódica para o Fundo de Resolução, o Santander Portugal não foi claro sobre o que irá fazer. “Para nós é importante que todos os bancos estejam ao mesmo nível”. Ou a medida é estendida — tendo de haver mais acórdãos nesse sentido do Constitucional que se pronunciou, desta vez, sobre um caso concreto do BCP, segundo o Jornal Económico — ou “tomaremos medidas”. Mas o acórdão “está em análise”, disse João Veiga Anjos.
Ainda questionada em conferência de imprensa sobre a criação de um fundo soberano, anunciada por Luís Montenegro, com a possibilidade de entrar no BCP, conforme indicado pelo Eco, Isabel Guerreiro não se mostrou preocupada por o Estado poder estar em dois bancos grandes do sistema. “Não creio que seja preocupação de maior”, concluiu.
No final ainda assumiu que o objetivo do Santander Portugal é crescer organicamente, e não por aquisições.