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(A) :: A rotina diária, uma viagem de 10 minutos e o esquecimento. Beatriz morreu na carrinha que a devia ter levado à escola

A rotina diária, uma viagem de 10 minutos e o esquecimento. Beatriz morreu na carrinha que a devia ter levado à escola

Vizinhos contam como quase todos os dias o pai ou a mãe da criança a entregavam aos cuidados da funcionária. "Eram extremamente ternurentos", contam vizinhos. PJ assumiu investigação à morte.

Pedro Raínho
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João Porfírio
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O som de passos a correr no corredor do andar de cima. Os risos, muitas vezes logo pela manhã. E o som do pequeno piano de cada vez que a pequena Beatriz* tocava nas teclas. Por baixo da ombreira da porta de casa, Rita* ainda tem dificuldades em acreditar que a criança de que falam há pouco mais de uma hora nas notícias, encontrada morta depois de um dia inteiro esquecida no banco da carrinha em que devia ter sido levada à escola, é a pequena Beatriz, a filha dos seus vizinhos. Rita pede desculpa e desaparece atrás da porta que se fecha lentamente.

Esta quinta-feira repetiu-se a rotina habitual de todos os dias. Cerca das 8h, um dos pais descia até à entrada do prédio, procurava a carrinha Peugeot cinzenta e dirigia-se à funcionária do Colégio Mestre Cuco. A carrinha não tem qualquer referência ao colégio. A única evidência de que é usada para transportar crianças é o dístico de fundo laranja, com duas crianças ao centro — o dístico que assinala carrinhas usadas no transporte de menores até aos 16 anos e que obriga o motorista a ter uma certificação especial para transporte de crianças.

Várias vezes por semana, a carrinha chegava, os pais entregavam Beatriz aos cuidados da funcionária e, nem 10 minutos mais tarde, a criança chegava ao infantário. São 3,7 km entre a casa da família e o infantário que a criança frequentava há cerca de um ano. “Via muitas vezes o pai ou a mãe descerem, irem ter com a funcionária e confiarem-lhe a menina”, conta Graça, outra vizinha, ao Observador.

https://observador.pt/2026/07/23/crianca-de-um-ano-morre-depois-de-ter-ficado-esquecida-dentro-de-carrinha-da-creche-em-almada/

Esta manhã, essa rotina diária foi interrompida. A carrinha cinzenta estacionou junto ao prédio. Depois de recolher Beatriz, a funcionária seguiu para as instalações do Colégio Mestre Cuco. Mas não para o edifício onde funcionava o infantário — e onde a criança devia ter chegado ao início da manhã.

Em vez disso, a carrinha foi estacionada em frente ao edifício onde estão instalados os anos do pré-escolar. Beatriz devia ter sido levada para as instalações do Pragal. Mas seguiu para a Avenida Cristo Rei. Depois, ficou esquecida no carro, ao cimo da rua. Só passadas quase oito horas, já perto das 16h, se deu pela falta da criança na escola. Foi quando a mãe chegou à escola para recolher a criança. Houve momentos de desorientação, ninguém ali tinha visto Beatriz durante todo o dia.

Uma funcionária da creche dirigiu-se ao SUV cinzento e, nesse momento, deparou-se com a criança no interior do carro. Foi essa mesma funcionária quem abriu a porta do SUV — não é claro se teria sido a mesma funcionária a transportar a criança nessa manhã — e encontrou Beatriz inanimada.

A equipa da VMER do INEM foi a primeira a chegar ao local. Um médico e um enfermeiro estiveram a realizar manobras para tentar reanimar a criança de um ano e meio. A intervenção prolongou-se por cerca de 45 minutos. Mas já não havia nada a fazer. O óbito foi declarado no local. Foram funcionários da creche a ligar para a família e a informá-la do que tinha acontecido. Uma equipa de psicólogos do INEM, que permaneceu nas instalações do Mestre Cuco até cerca das 20h30, garantiu o acompanhamento aos familiares e também esteve em contacto com funcionários do colégio.

A essa hora, já ao final do dia, ainda havia movimentação no interior do colégio. Vários funcionários foram vistos a abandonar as instalações a essa hora, mas outros voltaram a entrar. Saíram de cabeça descaída e ninguém se mostrou disponível para prestar declarações. O Observador tentou contactar a diretora do colégio, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.

Vizinhos em choque com morte de criança

No prédio onde vive a família, Graça, outra vizinha, está em choque com as notícias. Ouviu falar da criança que ficou esquecida na cadeirinha da carrinha em que devia ter ido para a escola. Sabe que a tragédia aconteceu ali perto, já em Almada, mas até ao início da noite ainda não tinha associado a história que ocupava os noticiários à pequena Beatriz, a filha dos vizinhos do 3.º esquerdo.

Conhece a família há anos. Já a bisavó de Beatriz ali tinha morado; depois foi a avó da criança; e, agora, também a mãe de Beatriz tinha escolhido aquela mesma casa para construir a sua família. Raquel* e Bruno* são um casal de cerca de 30 anos, ela trabalha na hotelaria. São “um casal muito dedicado à filha, extremamente ternurentos e cuidadosos com a menina”, garantira a vizinha Rita, recordando a última vez que a criança esteve ali, em sua casa, a brincar um pouco. O marido, na casa dos 60, permanece todo o tempo em pé, inamovível, também junto à ombreira da porta. Quase não esboça reação. Está petrificado e limita-se a pedir desculpas por não poder falar. Conhece Raquel e Bruno há anos — a ela desde pequena. Já antes conhecera a mãe e a avó.

Depois de os serviços de emergência serem acionados para as instalações do Mestre Cuco, a Polícia Judiciária assumiu a investigação. Foram recolhidos depoimentos de funcionários do colégio e de familiares de Beatriz. Além dos inspetores da PJ, também estiveram no local elementos da equipa científica a recolher elementos de prova, mas não foram feitas quaisquer detenções.

Ao início da noite, Graça já se tinha apercebido, nas duas horas anteriores, de que havia pessoas estranhas a entrar e a sair do prédio. Não faz ideia de quem eram. E entra, também ela, para casa.

*Nomes fictícios

[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]