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Na ala internacional

Uma das lições mais memoráveis que recebi na vida foi a de aprender a sonhar alto. Ao voar, assusta-me a descolagem. Na vida, não.

Djaimilia Pereira de Almeida
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Na ala internacional do aeroporto, sou visitada pelos fantasmas das outras viagens. Houve momentos em que julguei que a partida era definitiva. Viajei sem bilhete de regresso.

Regressada antes do tempo, mas ainda perto dessa emoção, revivo-a sem saudade. Posso dizer que conheço o sentimento de quem deixa tudo para trás. Conheço a ingenuidade de nos julgarmos pessoas sem um lugar. E o apelo incessante que tem sobre nós a paisagem onde crescemos. As aflições da ausência de familiaridade. A parte negra do desapego esperançoso. A força que têm os nossos sentimentos mais puros e as verdades a eles associados: as declinações das nossas origens, por esquivas que sejam, e o modo como não cessam nunca de nos enlear.

Aqui estou de volta, perto das mesmas portas de embarque: fui e regressei várias vezes e parto de novo, agora, para viagens breves. Não sei se me sentirei para sempre triste na ala internacional do aeroporto, mas olhando as caras da demora, os esgares impacientes, as crianças entediadas, o aquário dos fumadores, onde nestes minutos observo várias pessoas — a mulher que bebe uma imperial enquanto fuma e não abandona a sala apesar da atmosfera nauseante, a jovem israelita que deixou a bagagem no lado de fora e a vai espiando enquanto solta fumo do nariz, o senhor do Recife que crava cigarros aos outros fumadores —, os aviões do outro lado do vidro, revivo cada momento daquela última partida que não foi a última e revivo-a ainda com tristeza.

Aprendi várias coisas sobre o que acontece quando imaginamos que a nossa vida adquiriu um novo rumo, especialmente quando fomos nós que o traçámos. Experimentei a derrota e a tragédia quando causadas pela falência do corpo e da mente. Conheci o outro lado dos sonhos, quando se tornam uma agonia colossal. Tudo é reconduzido a cada uma das portas de embarque onde agora me sento e aguardo pelo avião.

Uma das lições mais memoráveis que recebi na vida foi a de aprender a sonhar alto. Ao voar, assusta-me a descolagem.
Na vida, não. Espanta-me a capacidade do corpo e da cabeça para se regenerarem. Mas conheço de perto as cicatrizes dos sonhos. Aprendi sobre a derrota. Mas a dor não me impede de devanear. A cidade onde o avião me levou e que me tirou tudo, não me roubou a capacidade de sonhar. Leio os destinos nas portas de embarque — Cidade da Praia, Rio de Janeiro, São Paulo, Telavive, Nova Iorque —, que é uma cidade senão uma máquina de reconfiguração de sonhos?

Então, olho as caras das pessoas em espera. A quantos, sem o saberem, aguarda a derrota, a quantos aguardará a vitória? Sei agora que nunca se parte em definitivo. Aprendi que viajar é uma condição provisória. O aeroporto é hoje uma metáfora de qualquer capital, com as suas cadeias internacionais, as luzes fluorescentes, e o aroma mesclado de todos os perfumes. A paisagem é artificial, mas os sentimentos são genuínos. Sabemos lá quantos vão daqui para ser felizes, quantos se encaminham para o cadafalso. Num aeroporto, não se sabe nada sobre o resto das nossas vidas, apenas se sabe o número da porta.