Com a voz trémula e a incerteza estampada no rosto, enquanto lia textos preparados por assessores que ninguém conhece, o governador do Banco de Portugal tentou, na audição parlamentar sobre a nova sede da instituição, ensaiar uma resposta às críticas que ele próprio alimentou desde que decidiu colocar em causa uma decisão aprovada, por unanimidade, pelo anterior Conselho de Administração.
A estratégia foi a mais velha de todas: lançar uma suposta novidade suficientemente estrondosa para desviar as atenções da sucessão de equívocos que tem marcado o início do seu mandato. Mais do que apresentar uma solução melhor, pareceu preocupado em tentar apagar um arranque errático, do qual ele próprio é o principal responsável.
Nenhum dos objetivos foi alcançado. A nova proposta não resolve os problemas que o próprio governador invocou para rejeitar a solução anterior e, mais grave ainda, falha o objetivo estratégico que o Banco de Portugal persegue há mais de quatro décadas: concentrar todos os serviços e todos os trabalhadores numa única sede. Esse propósito foi, aliás, repetidamente referido pelo próprio Álvaro Santos Pereira durante a audição.
O que apresentou foi uma ideia ainda embrionária, sustentada mais em declarações do que em documentos. Uma proposta repleta de dúvidas, omissões e riscos financeiros que qualquer gestor prudente teria obrigação de esclarecer antes de a anunciar publicamente.
Ficou claro que não existe qualquer suporte contratual conhecido para a nova solução. Não foi apresentado o novo Contrato-Promessa de Compra e Venda; não foram explicados os riscos de indemnizações decorrentes da alteração de um contrato já assinado; não foi esclarecido o impacto das alterações já introduzidas no empreendimento a pedido do próprio Banco de Portugal (nomeadamente a laje destinada à instalação da tesouraria e a alteração da entrada principal do edifício, que implicou sacrificar centenas de metros quadrados de área comercial da Fidelidade).
Também não respondeu quanto custará manter a tesouraria na Rua do Ouro, precisamente uma das funções que a solução anterior integrava na nova sede. Não explicou como pretende acomodar cerca de 1.500 trabalhadores num edifício significativamente mais pequeno. Admitiu, inclusivamente, que apenas cerca de 50 trabalhadores estarão disponíveis para se deslocarem para as delegações do Banco de Portugal, sem quantificar quanto custará adaptar essas instalações para receber centenas de funcionários adicionais. Não apresentou qualquer orçamento atualizado, qualquer estudo técnico ou qualquer análise económico-financeira que permita avaliar o verdadeiro custo da nova solução.
Mas é precisamente na dimensão financeira que a proposta perde toda a credibilidade. Álvaro Santos Pereira compara a aquisição anteriormente acordada, no valor de 192 milhões de euros, com uma nova aquisição de 162 milhões. À primeira vista parece uma poupança de 30 milhões. Só que essa comparação é profundamente enganadora.
A proposta anterior incluía a concentração da tesouraria na nova sede. A nova proposta mantém esse serviço na Rua do Ouro, omitindo completamente o custo dessa decisão. Admitindo, de forma conservadora, um custo anual de funcionamento e manutenção de apenas 2 milhões de euros, ao longo de 50 anos isso representa cerca de 100 milhões de euros adicionais. Ou seja, os 162 milhões anunciados transformam-se, na realidade, em aproximadamente 262 milhões de euros. O resultado é simples: a proposta do atual governador não representa qualquer poupança. Pelo contrário. É cerca de 70 milhões de euros mais cara do que a solução aprovada pelo anterior Conselho de Administração.
E tudo isto para adquirir menos área, manter serviços dispersos, falhar o objetivo histórico de concentrar o Banco de Portugal numa única sede e criar novos custos permanentes que simplesmente desapareceram das contas apresentadas pelo governador.
No final da audição ficou uma conclusão inevitável: Álvaro Santos Pereira apresentou uma solução menos ambiciosa, menos transparente e potencialmente muito mais cara para o Banco de Portugal. É difícil imaginar pior forma de tentar justificar o injustificável.