(c) 2023 am|dev

(A) :: A Era da Validação 

A Era da Validação 

Já não basta reconhecer o outro como interlocutor, exige-se que se aceite a sua versão dos factos, mesmo quando são manifestamente falsos.

Luís Nunes dos Santos
text

Há uma ideia profundamente errada de que vivemos numa era de excesso de informação. Não vivemos. Vivemos numa era de excesso de validação.

Nietzsche percebeu, muito antes de existir internet, que o problema nunca foi a falta de verdade, mas a dificuldade em suportá-la e explorou ao longo da sua vida a tensão entre o caos do real e a forma humana de o tornar habitável. Porque o pensamento não se limita a espelhar o mundo, interpreta-o, organiza-o, e, por vezes, deforma-o para o tornar suportável.

A verdade raramente confirma aquilo em que gostaríamos de acreditar e por isso, é sistematicamente substituída por versões mais digeríveis e compatíveis com as nossas necessidades de pertença.

É nesse sentido que a distinção entre o apolíneo e o dionisíaco, em O Nascimento da Tragédia, ganha atualidade. O “apolíneo” representa a forma, a medida, a aparência de unidade, o “dionisíaco” remete para a desordem, a intensidade e a fragmentação da vida. O que vemos hoje nas redes sociais é esta pulsão levada ao extremo, em que deixa de haver mediação da realidade, substituindo-a por uma versão esteticamente organizada e emocionalmente habitável.

Cada perfil tornou-se uma construção cuidadosamente editada, onde se elimina o incómodo, se filtra a dissonância e se encena coerência onde ela, na verdade, não existe. O impulso “apolíneo”, que em Nietzsche equilibra o caos, converteu-se num mecanismo de defesa contra a complexidade do real. E cada opinião, longe de ser um exercício de ponderação, transforma-se num marcador de pertença. O utilizador não quer estar certo, quer estar acompanhado. Não procura nenhuma verdade, quer, sim, o conforto da confirmação.

A convicção deixa de ser uma conclusão do pensamento para se transformar numa extensão da própria identidade. E é por isso que se torna mais resistente do que a mentira, que maquilha a realidade, porque a mentira pode ser corrigida, mas a convicção, quando integrada no “eu”, tende a tornar-se impermeável ao contraditório.

Quando esta lógica sai das redes sociais e passa a estruturar a política, o problema torna-se evidente para as democracias liberais. A democracia não vive de unanimidades, é preciso a diferença para que os regimes liberais se equilibrem, mas também não resiste sem um mínimo de realidade partilhada. Sem esse chão comum, não há debate, só monólogos sobrepostos e o que se apresenta como pluralismo é apenas a coexistência de bolhas que não comunicam entre si, embora exijam igual legitimidade factual.

Tornou-se por isso inevitável, confundir respeito pelas opiniões com validação. Já não basta reconhecer o outro como interlocutor, exige-se que se aceite a sua versão dos factos, mesmo quando são manifestamente falsos. O contraditório passou a ser visto como uma forma de violência e a crítica, como desrespeito descabelado intolerante.

Neste ambiente, os extremos prosperam e mobilizam com facilidade, porque oferecem certezas, identidade e pertença.

Fazem-se vídeos curtos para agradar, promete-se o impossível porque é isso que é recompensado, adiam-se decisões difíceis porque são penalizadas. A política deixa, assim, de ser a gestão responsável do possível para se tornar na encenação permanente do desejável.

Nietzsche apresentou-nos a vontade de potência como uma dimensão constitutiva da ação humana. As redes sociais ofereceram uma caricatura dessa ideia, uma ilusão de poder sem consequências. Likes, seguidores e métricas que simulam influência e produzem uma sensação de relevância instantânea, um tipo de poder sem responsabilidade, e por isso profundamente vazio.

O problema é que quem se habitua a esta lógica passa depois a exigi-la da política, com resultados imediatos, validação constante e soluções instantâneas. Tudo aquilo que a realidade não permite. Entre os que recusam mudar e os que querem tudo de uma vez, instala-se um impasse que bloqueia as democracias liberais que se sustentam na vontade da maioria.

Nietzsche deixou-nos a intuição de que o problema não está nas mentiras que nos contam, mas, na verdade, que insistimos em não aceitar. É assim que o espaço público plural, informado e moderado vai morrendo, no fim, resta apenas uma guerra de validações.