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Quinhentos anos depois de Henrique VIII, o que significa para o Anglicanismo a chegada de um católico a Downing Street?

Pela primeira vez desde o século XVI, o primeiro-ministro britânico é católico. Num país formalmente anglicano, mas cada vez mais secularizado, é mais um sinal do declínio do Anglicanismo?

João Francisco Gomes
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Quando, no final de junho, o antigo presidente da câmara de Manchester Andy Burnham fez o seu juramento como membro do parlamento britânico, não pegou numa cópia da protestante Bíblia do Rei Jaime, a edição mais comum da Bíblia no Reino Unido, usada por inúmeros políticos britânicos para os seus juramentos formais. Em contrapartida, pegou numa cópia da Bíblia de Jerusalém, a edição católica de referência elaborada no século XX pelos académicos da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém.

O juramento como deputado foi o primeiro passo formal para que Burnham, o novo líder do Partido Trabalhista, se tornasse primeiro-ministro do Reino Unido, na sequência da demissão de Keir Starmer. A tomada de posse do novo chefe de governo britânico aconteceu esta segunda-feira e trouxe uma novidade à história daquele país: pela primeira vez desde o século XVI, o governo britânico é liderado por um católico romano.

Como recorda a revista America, Tony Blair, que foi primeiro-ministro do Reino Unido entre 1997 e 2007, ia à missa habitualmente com a mulher e os filhos, que eram católicos, mas esperou pelo fim do seu mandato no governo para aderir à Igreja Católica sem levantar ondas. Já Boris Johnson (2019-2022), que nasceu numa família católica e foi batizado como católico, recebeu o crisma na Igreja de Inglaterra, tornando-se anglicano antes de ser primeiro-ministro.

É que, apesar de o Reino Unido ser hoje em dia uma sociedade bastante secularizada (aproximadamente metade dos habitantes não pertence a nenhuma religião nem acredita em Deus) e ter liberdade religiosa, trata-se também de um país que continua a ter religião oficial: a Igreja de Inglaterra, principal igreja da Comunhão Anglicana, é a igreja de Estado em Inglaterra (e o mesmo acontece na Escócia com a Igreja da Escócia), o Rei é por inerência o governador supremo da Igreja e a sua coroação continua a ser feita na Abadia de Westminster pelo arcebispo de Cantuária.

Durante séculos, e apesar do seu controverso início, o Anglicanismo foi uma importante componente da identidade britânica — conferindo uma dimensão transcendental e cerimonial à monarquia, mas representando também a independência em relação ao Catolicismo de Roma. Agora, porém, isto parece inverter-se: depois de Keir Starmer, o primeiro primeiro-ministro assumidamente ateu, surge Andy Burnham, o primeiro católico. Tudo numa altura em que os dados parecem indicar que o Anglicanismo está a perder terreno para o Catolicismo e em que a Comunhão Anglicana, acabada de nomear a primeira mulher arcebispa de Cantuária, está mais dividida do que nunca. A chegada de um católico romano a Downing Street será um sinal de que o projeto religioso iniciado no século XVI por Henrique VIII está em risco?

“A materialização do catecismo na Terra é o Partido Trabalhista”

A independência religiosa do Reino Unido remonta ao ano de 1534. O Rei Henrique VIII pretendia obter da parte do Papa o anulamento do seu casamento com Catarina de Aragão, com o objetivo de casar com Ana Bolena e ter um filho varão para herdar o trono. Frustrado com a inação de Roma, o monarca — líder de um país onde o Cristianismo tinha chegado logo no século II, e onde se tinha afirmado oficialmente no século VI — decidiu rejeitar a autoridade papal, romper com Roma e criar uma nova Igreja.

A recém-formada Igreja de Inglaterra, cujo líder supremo seria o Rei e que teria a sede episcopal na histórica catedral de Cantuária, tornar-se-ia um elemento central da identidade britânica — bem como o ressentimento em relação aos católicos e a Roma. Até 1829, por exemplo, os católicos não podiam tornar-se sequer membros do parlamento britânico: a unidade religiosa sob a autoridade da Igreja de Inglaterra era crucial para a estabilidade do país. E, ainda hoje, há uma série de restrições ainda em vigor. Por exemplo, nenhum fiel da “religião papal” pode herdar a coroa britânica. Além disso, nenhum católico pode aconselhar, direta ou indiretamente, o monarca no que toca a nomeações relativas à Igreja de Inglaterra (o que já levou o parlamento britânico a publicar um relatório técnico dizendo que, provavelmente, Burnham terá de delegar formalmente num ministro anglicano o formalismo de dar parecer sobre a nomeação dos bispos britânicos).

Cerca de 200 anos depois da histórica decisão que permitiu a entrada de católicos no parlamento, e quase 500 anos depois da reforma, o Reino Unido tem um católico à frente do governo.

Nascido e criado numa família católica, Andy Burnham colocou os seus três filhos em escolas católicas e nunca escondeu a importância do Catolicismo na sua vida. Tornar-se-iam célebres, e infinitamente citadas, as palavras que disse ao The Guardian, numa entrevista em 2009, quando era ministro da Cultura, ao ser questionado sobre as três coisas mais importantes da sua vida além da família: “O Everton FC, o Partido Trabalhista e a Igreja Católica. Por esta ordem. A razão pela qual digo isto é que tudo volta à identidade cultural.”

"Eu sempre disse, e algumas pessoas não vão gostar disto, que aquilo que eu costumava ter de ler no catecismo, a sua materialização na Terra era o Partido Trabalhista."
Andy Burnham, em 2012

Anos depois, como nota a Spectator, Burnham tem suavizado essa famosa declaração com a advertência “eu costumava dizer que” — e, nos meios católicos, não falta quem o critique por falta de coerência entre a fé que diz professar e as posições políticas que defendeu ao longo dos anos. O facto de ser (e ter votado) a favor do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da morte assistida em casos de doença terminal tem levado as alas mais conservadoras a sublinharem como Burnham não segue a doutrina da Igreja Católica na definição dos seus posicionamentos políticos.

Burnham não só nunca escondeu essas posições, como também procurou defender que a Igreja Católica atualizasse o seu pensamento acerca dos assuntos mais controversos. Em 2015, depois de a católica Irlanda ter aprovado, por referendo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e de o Vaticano ter considerado que a decisão era uma “derrota para a humanidade”, Andy Burnham defendeu, na sua crónica semanal no The Daily Mirror, que o Papa Francisco tinha de “trazer a Igreja para o século XXI”.

“O nosso novo Papa trouxe de volta o estilo misericordioso e caloroso que parecia caracterizar a Igreja Católica na minha juventude”, lembrou Burnham, pedindo a Francisco que aproveitasse o debate aberto na Irlanda para atualizar o pensamento da Igreja Católica sobre o casamento. Ainda assim, em 2008, Burnham tinha sido um dos deputados católicos a defender uma modificação na lei da fertilização in vitro que exigia a “necessidade de um pai” — e que punha em causa o acesso de mulheres homossexuais àquela solução.

Andy Burnham cresceu dentro da Igreja, andou numa escola católica e, na infância, até foi acólito. “Deviam ter visto as lutas dele e dos irmãos aos domingos”, disse a mãe de Burnham, Eileen, numa entrevista ao The Mirror em 2015. “Eram todos acólitos, mas o Andy tinha de ser aquele que vinha à frente para segurar a patena da comunhão.”

Com o passar do tempo, Andy Burnham deixou de ser um frequentador assíduo da missa. Hoje, assume que vai apenas ocasionalmente e aponta o Catolicismo, essencialmente, como elemento cultural da sua identidade, embora garanta que mantém a fé e a pertença à Igreja Católica. “A minha mãe nunca me perdoaria se respondesse ‘não’ a essa pergunta”, disse Burnham recentemente ao The Times, apesar de ter, anteriormente, admitido que não é “particularmente religioso” atualmente. Daí que seja, agora, necessário encontrar uma solução técnica para contornar as restrições relativas ao papel do primeiro-ministro britânico no processo de nomeação dos bispos anglicanos.

Apesar das divergências nos temas mais fraturantes — chegou a dizer que se tinha afastado da fé devido à “obsessão” da Igreja Católica com a sexualidade —, Andy Burnham, que cresceu na zona de Liverpool, uma das cidades mais católicas do Reino Unido, tem reiterado que a Doutrina Social da Igreja é um dos pilares fundamentais do seu pensamento político. “A Doutrina Social da Igreja é a base da minha política. Tínhamos de ler o catecismo na escola, mas é poderoso, forte e correto”, disse Burnham em 2015. Noutra ocasião, tinha ido ainda mais longe: “Eu sempre disse, e algumas pessoas não vão gostar disto, que aquilo que eu costumava ter de ler no catecismo, a sua materialização na Terra era o Partido Trabalhista.”

A formação católica de Burnham foi decisiva para o empurrar para o Partido Trabalhista. Noutra entrevista, em 2022, explicou que a maioria dos funcionários da escola católica onde estudou, durante o pontificado de João Paulo II, eram de tendência trabalhista, o que o ajudou a formar a ideia de que era naquele caminho político à esquerda que se encontrava a tradução prática e política do pensamento católico. Como explica o cronista do The Times Patrick Maguire, a influência do arcebispo de Liverpool da época, Derek Worlock, foi decisiva para essa conclusão. Defensor das causas sociais e sindicais, o que o levou a episódios de tensão com Margaret Thatcher, Worlock acreditava na importância da ação política para pôr em prática a mundivisão cristã numa região do país marcada por crónicos problemas sociais, tensões entre a polícia e as comunidades mais pobres, grande pobreza e ainda o drama dos mineiros, por quem o arcebispo tentou interceder.

“Posso rezar pela alma [do meu vizinho], mas não posso voltar as costas ao modo como ele vive: o seu bem-estar, a sua liberdade, a sua prosperidade ou pobreza, a sua casa, o seu emprego, e por aí fora”, disse o líder católico, em tempos. “Tudo isso cabe ao campo da política, quer eu goste, quer não goste. Por isso, faz parte do meu duplo compromisso, com Deus e com o próximo.”

Burnham levaria para a política esta mundivisão, inspirada pelo arcebispo Worlock e, mais tarde, pelo Papa Francisco. Depois de deixar de ir à missa com regularidade e de se distanciar da Igreja durante o pontificado de Bento XVI (dizendo, por exemplo, que tinha deixado de se identificar com a Igreja “humana, bem-humorada e irreverente” da sua juventude), Burnham reaproximou-se do pensamento católico com o Papa Francisco, que elogiou frequentemente pelo modo como se posicionava em defesa da igualdade e da humanidade. “Senti que esses anos [de Bento XVI] foram difíceis, mas tenho esperança no novo Papa”, disse em 2015. “Um homem humilde, muito caloroso e um caráter fantástico”, acrescentou, dizendo que ainda vivia na “esperança” de ver a Igreja mudar de posição em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a outras “obsessões” acerca da moral sexual.

Em 2015, depois de a católica Irlanda ter aprovado, por referendo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e de o Vaticano ter considerado que a decisão era uma “derrota para a humanidade”, Andy Burnham defendeu, na sua crónica semanal no The Daily Mirror, que o Papa Francisco tinha de “trazer a Igreja para o século XXI”.

Numa crónica sobre o Catolicismo de Burnham no The Times, Patrick Maguire (descrito pela revista America como “o comentador político com melhores contactos no círculo de Burnham”) frisa que Burnham chegou à fé “através da experiência e não através da abstração teológica”. O que esperar, então, de um primeiro-ministro católico em Downing Street? Não um conservadorismo em matérias da moral sexual, responde Maguire, mas um pensamento social assente na Doutrina Social da Igreja (e marcado pela “história com consciência de classe do Catolicismo no norte” do Reino Unido, em que Burnham cresceu), ao contrário do Catolicismo atualmente dominante, por exemplo, na Casa Branca.

Neste contexto, a Igreja Católica britânica reagiu com cautela à subida de Andy Burnham a primeiro-ministro. Numa reação oficial, o presidente da conferência episcopal católica de Inglaterra e País de Gales, o arcebispo Richard Moth, deu os parabéns a Burnham sem mencionar a sua pertença à Igreja Católica. “Como cristãos, temos um dever de ser construtores de pontes e fazedores da paz”, sublinhou Moth. “Onde há tensões, hostilidade ou injustiça, somos chamados a responder com preocupação verdadeira e respeito pela dignidade da pessoa, pelas necessidades das famílias, dos marginalizados e dos vulneráveis.”

Na Escócia, o vice-presidente da conferência episcopal católica, o bispo Brian McGee, foi também cauteloso na reação. “Ele diz que muita da sua inspiração vem da Doutrina Social da Igreja. Se a sua consciência for mesmo formada pelo evangelho, esperamos que isso traga alguns frutos”, afirmou McGee, dizendo que Burnham terá de estar “preparado para defender” aquilo em que acredita e que não deverá ceder às preferências liberais e seculares da “classe política” britânica.

Um Anglicanismo em declínio e à beira da rutura

Ainda é cedo para saber, ao certo, quais serão as implicações de um primeiro-ministro católico no Reino Unido. Apesar da abertura legislativa do século XIX, que permitiu o acesso dos católicos a cargos de poder, a verdade é que continuam em vigor algumas restrições aos católicos que, apesar de simbólicas, corporizam um preconceito ainda existente nas instituições de um país que é, oficialmente, anglicano — e que tem nesse diálogo entre o aparelho estatal e a hierarquia anglicana uma importante parte da sua identidade.

Mas tudo isto acontece também num momento em que o universo anglicano enfrenta um duro teste à sua sobrevivência, o mais recente capítulo de uma crise que afeta a Igreja de Inglaterra e a Comunhão Anglicana há quase dois anos. Em novembro de 2024, o anterior arcebispo de Cantuária, Justin Welby — o mais alto clérigo da Igreja de Inglaterra, líder espiritual de todos os anglicanos do mundo e conhecido por ser o oficiante das principais cerimónias reais como casamentos e coroações —, demitiu-se na sequência de uma controvérsia em torno do modo como geriu um caso de abuso sexual de menores.

Seguiu-se um longo e penoso processo de escolha do sucessor de Welby, que demorou quase um ano. Como disse, na altura, ao Observador o bispo anglicano Jorge Pina Cabral, líder da pequena comunidade desta denominação cristã em Portugal, “a exigência deste cargo não o torna muito apetecível”, sobretudo num momento em que a Igreja de Inglaterra estava não só sob intenso escrutínio público devido à crise dos abusos, como também à beira da divisão interna devido às fortes discórdias sobre uma série de reformas dos últimos anos.

A Igreja de Inglaterra, que é a igreja estatal da Inglaterra, é simultaneamente a igreja-mãe da Comunhão Anglicana, pelo que o arcebispo de Cantuária é também o líder espiritual dos cerca de 100 milhões de anglicanos que vivem em todo o mundo. Mas a Comunhão Anglicana não é uma igreja: é uma congregação de múltiplas igrejas (como a Igreja Lusitana, com sede em Portugal) que são herdeiras da Reforma inglesa, que partilham a mesma espiritualidade, mas que são autónomas entre si — e têm também muitas divergências.

O universo anglicano encontra-se hoje profundamente polarizado por razões semelhantes às que têm provocado grande divisão na Igreja Católica: os debates fraturantes em torno da ordenação de mulheres e dos direitos da comunidade LGBT. Desde a década de 1990 que a Igreja de Inglaterra permite que as mulheres recebam a ordenação diaconal e presbiteral, uma abertura que começou gradualmente a empurrar alguns fiéis e clérigos mais conservadores para a Igreja Católica. Em 2014, o Sínodo Geral da Igreja de Inglaterra aprovou a possibilidade de ordenação episcopal de mulheres e, na última década, várias mulheres foram ordenadas bispas. Isto provocou grande desconforto entre as alas mais conservadoras, que rejeitaram a autoridade episcopal das mulheres. Para tentar impedir uma fuga em massa dos anglicanos mais tradicionalistas para a Igreja Católica, a Igreja de Inglaterra implementou uma solução criativa: os “flying bishops” (“bispos voadores”), bispos masculinos responsáveis pela supervisão das paróquias que rejeitavam a ordenação de mulheres, caso estivessem numa diocese liderada por uma mulher.

Mas a crise viria a aprofundar-se ainda mais com a aprovação de cerimónias de bênção de casais de pessoas do mesmo sexo. Dentro da comunidade anglicana, não falta quem veja neste caminho da Igreja de Inglaterra as razões para um forte declínio. Ao longo dos últimos anos, tem-se verificado uma onda de abandonos da Igreja de Inglaterra rumo à Igreja Católica — não só de fiéis, mas também de clérigos. Múltiplos padres e até alguns bispos anglicanos foram anunciando a sua decisão de se juntar à Igreja Católica, como explica a BBC, em grande parte devido à sua oposição à ordenação episcopal de mulheres.

Entre os fiéis, a paisagem religiosa tem vindo a mudar significativamente. Em 2025, um estudo da Bible Society mostrava que, olhando exclusivamente para os jovens da Geração Z (nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012), o número de católicos já era o dobro do número de anglicanos. Com esta inversão a verificar-se entre os mais jovens, a tendência natural é a de que, nas próximas décadas, o Catolicismo volte a ser a confissão religiosa maioritária no Reino Unido, destronando o Anglicanismo pela primeira vez desde o século XVI. A grande tendência, porém, é outra: a da secularização: a percentagem da população britânica que se diz cristã já fica abaixo dos 50%, de acordo com os estudos mais recentes. O segundo maior grupo no país é o dos não-religiosos (37%), pouco abaixo dos 46% que se dizem cristãos, e claramente em crescimento ao longo dos últimos anos. (O capítulo dedicado à religião deste relatório é bem elucidativo do modo como o Reino Unido se tem transformado, gradualmente, numa “nação de não-crentes”.)

"A maioria da Comunhão Anglicana ainda acredita que a Bíblia exige um episcopado totalmente masculino."
Comunicado do GAFCON

Neste contexto de declínio da religião e, em particular, do Anglicanismo, a Igreja de Inglaterra escolheu, em outubro de 2025, a então bispa de Londres, Sarah Mullally, para o cargo de arcebispa de Cantuária. Pela primeira vez na história, uma mulher ocupa o cargo mais importante da Igreja de Inglaterra e, por consequência, da Comunhão Anglicana. A nomeação de Mullally foi vista em várias partes do mundo como um sinal de progresso e abertura — mas levantou graves problemas sobre a capacidade de o universo anglicano resistir às fraturas internas.

Dentro da própria Igreja de Inglaterra, o sistema dos flying bishops para assegurar a “supervisão episcopal alternativa” às comunidades tradicionalistas que rejeitam a autoridade episcopal das mulheres continua em vigor, mas é agora incerto até que ponto esses bispos alternativos — cuja autoridade alternativa é reconhecida formalmente pela Igreja de Inglaterra — vão aceitar a autoridade de Sarah Mullally sobre eles. A The Society, comunidade que reúne estes bispos e os padres associados às paróquias tradicionalistas, publicou um tímido comunicado acerca da eleição de Mullally que deixa dúvidas sobre o que irá acontecer: garantindo o respeito e as orações pela nova arcebispa, os bispos tradicionalistas diziam esperar que Mullally mantivesse em vigor as provisões que permitem a convivência entre diferentes abordagens teológicas e continuasse a garantir a nomeação de bispos homens para a supervisão alternativa nos lugares liderados por bispas mulheres. Por fim, garantiam continuar a trabalhar no sentido de manter “o mais elevado grau de comunhão possível dentro da Igreja de Inglaterra”. O que é que isso significa ao certo? É ainda impossível saber.

Mas se o problema é assim dentro da Igreja de Inglaterra, na mais alargada Comunhão Anglicana será ainda pior: estima-se que 75% dos anglicanos de todo o mundo vivam em províncias e dioceses onde a ordenação de mulheres ainda não é permitida, nem sequer como diaconisas ou presbíteras. Com 100 milhões de fiéis em todo o mundo, a Comunhão Anglicana tem uma forte presença nos países do Sul Global, nomeadamente em África, onde a vertente mais conservadora é maioritária (de resto, como acontece no universo católico). Até agora, esta questão nunca se tinha colocado, uma vez que, apesar de a Igreja de Inglaterra ordenar mulheres há vários anos, o arcebispo de Cantuária tinha sido sempre um homem.

Agora, porém, já há sinais de fratura. O GAFCON (Global Anglican Future Conference), grupo liderado pelo arcebispo do Ruanda, Laurent Mbanda, que representa vários milhões de anglicanos em África, na Oceania e no continente americano, foi criado em 2008 justamente em reação às reformas vistas como progressistas e é o principal rosto da oposição tradicionalista a Mullally. Depois da nomeação da arcebispa, Mbanda assinou um duro comunicado, acusando a Igreja de Inglaterra de “abandonar” milhões de anglicanos em todo o mundo, com uma decisão que vai “dividir uma comunhão já partida”. No comunicado, o GAFCON dizia que os vários arcebispos de Cantuária dos últimos anos falharam na sua missão de “guardar a fé” e que, por isso, o cargo já não era “o líder credível dos anglicanos” nem podia ser reconhecido como o “primus inter pares” dos bispos anglicanos de todo o mundo.

“Esperávamos que a Igreja de Inglaterra tivesse tido isto na devida conta ao deliberar sobre a escolha de um novo arcebispo de Cantuária e escolhesse alguém que pudesse trazer unidade a uma Comunhão Anglicana dividida. Infelizmente, não o fizeram”, lê-se no comunicado, que sublinha que “a maioria da Comunhão Anglicana ainda acredita que a Bíblia exige um episcopado totalmente masculino”, pelo que a nova arcebispa não poderia ser a líder da Comunhão Anglicana. Por isso, acrescentava Mbanda, a verdadeira liderança anglicana global estava, agora, nas mãos do GAFCON. “Estamos prontos para assumir o leme”, disse o arcebispo, convocando uma assembleia de bispos tradicionalistas para a capital da Nigéria, Abuja, em março deste ano.

O mundo anglicano temeu, durante algum tempo, que a cimeira de Abuja fosse o equivalente a um golpe de Estado para destronar a sé de Cantuária. Em março, porém, a opção mais radical acabou por não avançar: os bispos tradicionalistas alinhados com o GAFCON optaram por não eleger um novo “primus inter pares” entre si, algo que seria visto como uma afronta direta à autoridade da arcebispa de Cantuária, mas decidiram, em contrapartida, abandonar os títulos e as estruturas antigas e avançar para a criação de um novo conselho episcopal, chefiado pelo próprio Mbanda e destinado a assumir a liderança global dos anglicanos. Como conta a BBC, questionado sobre se o GAFCON reconhecia a autoridade suprema da arcebispa de Cantuária, o porta-voz do grupo limitou-se a dizer que aquela organização “reconhece o arcebispo Laurent Mbanda como o seu líder” e que “Sarah Mullally é a arcebispa de Cantuária”.

É num contexto de declínio e divisão interna dentro do Anglicanismo que, pela primeira vez desde o século XVI, o governo britânico é chefiado por um católico. Mesmo que Andy Burnham esteja mais próximo de ser um “católico cultural” que frequenta pouco a igreja, a verdade é que novo primeiro-ministro britânico tem reiterado a importância do Catolicismo na sua formação, na sua identidade e na conceção do seu pensamento político — ao ponto de não rejeitar a fé católica mesmo perante os constrangimentos formais e os preconceitos que terá de enfrentar. O tempo dirá se a chegada de um católico a Downing Street é ou não um sinal de que o projeto religioso iniciado por Henrique VIII ainda é um elemento fulcral na identidade britânica.