1.A morte de Edgar Morin passou quase despercebida no nosso país. É sempre assim: quando morre um intelectual do prestígio dele, ainda por cima desenfreado e heterodoxo, a esquerda nacional cala, a não ser alguns figurões que em bicos de pés lá tentam aproveitar-se do nome dele para se promoverem como «intelectuais».
Morin interessou-se toda a vida por dissecar as possibilidades do conhecimento nas ciências humanas. O homem na sua versatilidade e imprevisibilidade foi sempre o centro do seu pensamento, pelo que não é asneira nenhuma chamar-lhe um pensador humanista.
Precisamente por ser assim é que teorizou a complexidade do pensamento contra todas as ortodoxias. É por isso que foi obviamente expulso do partido comunista francês em 1951, a que tinha aderido pela mão da sua militância na resistência contra o invasor nazi.
Para Morin o pensamento ocidental continua preso ao paradigma racionalista herdado do Discurso do Método de Descartes que separa as coisas para as compreender, as reduz ao seu expoente mais simples para depois as reunir numa síntese superior e abstrai de particularidades ditas supérfluas. Permitiu grandes avanços no domínio das ciências exactas, designadamente na física e na biologia, mas fora daí gerou resultados nocivos porque se esqueceu do homem no centro das suas preocupações e não levou em conta que o dado simples de que partiu é sempre um dado simplificado. A especialização científica, fruto do racionalismo cientista, matou a complexidade própria da dimensão humana. Acabou por a reduzir a um conjunto de fórmulas e equações que pretensamente a explicam. O marxismo foi o expoente máximo desta visão redutora das coisas. É por isso que deu mau resultado.
2.O cientismo transformou o conhecimento do homem numa cegada. As desintegrar a realidade humana, sob o pretexto de melhor a estudar, esqueceu-se de considerar a subjectividade, as lições da história, a ética, a esperança, o desenraizamento das populações, a importância das religiões, os nacionalismos emergentes, a intolerância e, em suma, tudo aquilo que pode condicionar e condiciona efectivamente o comportamento individual e social. A realidade humana está cheia de interacções e retroacções positivas e negativas que a tornam (relativamente) imprevisível. A condição judaica de Morin foi o lugar exacto para compreender de que massa são feitos os homens e o que na verdade os move.
O cientismo conduziu assim à douta ignorância nas coisas humanas. Estuda o homem dentro de um microcosmo como nos laboratórios se estudam as reacções químicas. Gerou uma pedante inteligência ignara. Produziu especialistas alheios a tudo o mais e doutrinas obscuras como o marxismo que julgam tudo compreender e explicar, como se a verdade, nas próprias palavras traduzidas de Morin «estivesse encerrada num cofre-forte de que bastaria ter a chave para a ela ter acesso».
3. O humano não se reduz ao natural. Foi esta a grande lição de E. Morin. O paradigma cientista é que julgou que sim. Gerou assim conhecimentos altamente especializados e tecnicizados através dos quais tudo pretende controlar e programar. Deu azo à era dos especialistas que, como dizia Ortega Y Gasset, são aqueles «que sabem cada vez mais de cada vez menos». E mais: aquele paradigma conseguiu convencer os mais ignorantes que há uma explicação racional para tudo. Como é possível que tantos intelectuais de renome não tenham compreendido esta coisa elementar: que os fenómenos sociais não podem ser tratados com os métodos que valem nos laboratórios e tenham consequentemente embarcado em tanto douto cretinismo? Pudera, reduziram o homem a uma entidade genérica e indiferenciada, de que falava Hegel, sujeito a determinismos e causalidades rígidas como a «consciência de classe», as ideologias «dominantes» e outros dislates e preparado para a infantilização em frente à televisão e para o êxtase com o crescente poder da tecnologia, como o da inteligência artificial, por detrás da qual espreita o poder manipulador do estado e dos interesses económicos e se esfuma a liberdade.
4.Para Morin a sociedade humana auto-organiza-se como entidade complexa que é e a sua compreensão tem de ser multidisciplinar e tem de aceitar a dúvida quanto aos resultados e a incerteza. Aceitar a dúvida não é sintoma de pequenez científica. Pelo contrário, é indício de lucidez e convite à reflexão. O fundamental é compreender que o conhecimento nas coisas humanas não as separa, não as reduz: une-as e reúne-as num todo complexo e vivo. Complexidade não quer dizer complicação. Quer apenas dizer que as sociedades humanas não podem ser compreendidas unilateral e uniformemente e que carecem de abordagens integrais que saibam abarcar a diversidade a a imprevisão. Morin aceitava, tal como o seu amigo o ex-marxista C. Lefort, que nas sociedades democráticas há, tem que haver, conflito e desigualdade e que só uma visão total e integrada das coisas as pode compreender. Em matérias sociais o conhecimento liga e religa as coisas, não as separa nem as isola. O conhecimento é assim um processo, um circuito permanente. Não há pontos de partida dogmáticos, leis inflexíveis nem resultados inquestionáveis.
Reler esse extraordinário judeu marrano que foi Morin, tal como esses outros que foram Montaigne e Espinoza, é um exercício salutar de inteligência, de lucidez e de liberdade.