A obra póstuma de Yórgos Seféris, um dos mais importantes poetas gregos do século XX, é composta por um único livro: o romance Seis Noites na Acrópole. Originalmente escrito na década de 1920, quando Seféris, então um jovem estudante de Direito, vivia em Paris, foi revisto várias décadas depois, em 1954, quando o autor ocupava o cargo de embaixador grego no Médio Oriente, e publicado na Grécia em 1974, três anos após a sua morte, sem grande sucesso. Embora se possa argumentar que não passa de um pequeno apontamento na carreira de um escritor que se dedicou principalmente à poesia, género pelo qual recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1963, é possível antever em Seis Noites na Acrópole alguns dos temas clássicos de Seféris, como a alienação, a inquietação e a morte, abordados com grande solidez. O trauma histórico e o contraste entre a grandeza do passado e o declínio do presente, explorados a fundo pelo autor na sua obra poética, surgem também aqui representados, e servem como pano de fundo à história dos amores e desamores, do questionamento pessoal e da frustração social e política de um grupo de sete jovens amigos em Atenas, em meados da década de 1920, no rescaldo da Guerra Greco-Turca de 1919-1922.
O romance acompanha o grupo de quatro rapazes e três raparigas (Strátis, Nikólas, Nóndas, Klliklís, Marigó ou Esfinge, Lála, Salómi ou Bíliò) em Atenas durante um período de seis meses, entre março e setembro de 1928, quando, encorajados por Nikólas, começaram a reunir-se mensalmente, por altura da lua cheia, na Acrópole, para ganharem “coesão”. Porém, à medida que as noites vão passando, o grupo, que mais parecia “uma efémera torre de Babel”, na descrição de um dos seus membros, vai-se desvinculando, até restarem apenas Strátis e Lála, empurrados para a concretização de uma relação desprovida de sentimentos, pós a súbita morte de Salómi, a terceira personagem de um triângulo amoroso que os vai consumindo até ao seu desaparecimento. A imponência e a elegância arquitetónica da Acrópole, o principal monumento histórico da cidade, contrastam fortemente com a Atenas moderna, decadente e repleta de marginais — um espelho perfeito do estado mental das personagens, que vagueiam pelas ruas da cidade em busca de um sentido para a vida.
A história é contada a partir das entradas do diário de Strátis. Os excertos diarísticos do jovem aspirante a poeta remetem inevitavelmente para a obra de André Gide, precursor do romance epistolar modernista, considerado uma das principais influências de Seis Noites na Acrópole. A influência francesa no romance de Seféris é, de resto, bastante evidente, não só por causa da sua atmosfera tipicamente simbolista, de sugestão, mas também por causa de inúmeras referências à literatura francesa, muitas das quais diretas, que surgem ao longo de todo o romance. Estas surgem lado a lado com citações de obras de escritores gregos de diferentes épocas, desde Homero (uma das grandes influências de Seféris), a Platão, passando por importantes poetas de finais do século XIX e inícios do século XX, como Kostís Palamás, Yórgos Sourís (conhecido como o “Aristófanes moderno” por causa da sua poesia satírica) e Miltiádis Malakásis. Os nomes de algumas personagens podem ter, também, uma inspiração simbolista. Nadia Charalambidou, autora de uma série de ensaios sobre Seis Noites na Acrópole, sugeriu que “Salómi” (“Salomé”) alude à peça de Oscar Wilde com o mesmo nome e que “Lalá” se refere à peça A Cidade, de Paul Claudel. Seis Noites na Acrópole é um livro com muitos livros dentro.

Embora muitas das referências literárias de Seis Noites na Acrópole sejam anteriores ao modernismo, muitos aspetos do romance são modernistas, desde logo a escolha de uma paisagem cosmopolita para o desenrolar de uma trama envolvendo personagens deslocadas. A influência modernista também se sente na abordagem a determinados temas, nomeadamente à sexualidade. Críticos sucessivos têm enfatizado que uma das cenas do livro — o encontro lésbico entre Salómi e Lalá, ao qual Strátis assiste por uma janela a partir da rua — foi inspirada (ou “plagiado”, na opinião de um comentador mais extremado) por Proust. Contudo, é a estrutura que mais evidencia uma aproximação ao modernismo. Romance híbrido e experimental, vai alternando entre os discursos epistolário e narrativo (este último na sua forma mais convencional e na terceira pessoa), que se conjugam para criar um texto com múltiplas camadas e perspetivas.
Outro aspeto importante é o contexto histórico em que o romance se desenrola e que explica, em parte, o desalento das suas personagens. Strátis, que viveu em Paris durante uma temporada, regressou a Atenas após a “catástrofe” de 1922, quando os turcos, durante a chamada Guerra Greco-Turca de 1919-1922, invadiram a cidade de Esmirna, na costa do mar Egeu, que tinha sido ocupada por tropas gregas em 1919, no rescaldo da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O avanço turco sobre Esmirna e outros territórios ocupados na Ásia Menor levou à evacuação em massa das comunidades gregas nessas regiões, gerando uma crise humanitária na Grécia, que não tinha capacidade para lidar com o aumento súbito da população. Em outubro de 1922, com a assinatura do Tratado de Lausanne, que definiu as fronteiras da recém-fundada República da Turquia, foi também acordada uma troca de populações (gregos ortodoxos em território turco foram trocados por muçulmanos em território grego), um processo que deixou marcas profundas nas sociedades de ambos os países. Estima-se que, ao todo, cerca de dois milhões de pessoas tenham sido obrigadas a deixar as suas casas. Além de Strátis, também Nikólas, que estudava matemática numa universidade na província francesa, regressou a Atenas na mesma altura.
Em 1928, a “catástrofe” era um trauma vivo na memória de todos e é várias vezes referida no romance, por exemplo, quando Strátis, originário de Aivalí, na Ásia Menor, reproduz o relato que ouviu “da boca de um refugiando”, um homem que acabou por escapar “para uma ilha grega” com a mulher e o filho bebé, “há seis dias sem comer”: “A mulher suplicava por água. Por fim, alguém respondeu de uma janela: ‘Um franco por copo.’ E o pai continua: ‘Que podia eu fazer? Sr. Strátis, cuspi para dentro da boca do meu filho para lhe matar a sede”. A esta entrada do diário do jovem segue-se uma reflexão sobre a Grécia, partindo de uma citação da Apologia de Sócrates, de Platão, sobre o destino dos atenienses: “Na Grécia sempre existiram duas raças: a raça de Sócrates e a raça de Ânito [adversário de Sócrates] e seus companheiros. A primeira faz a grandeza do país, a segunda estimula a primeira de modo negativo. Mas parece-me que hoje só esta resta — a primeira sumiu-se de vez”. O desapontamento com o destino da Grécia após a Primeira Guerra Mundial é evidente e até traumático.
Apesar de viver há alguns anos em Atenas, Strátis parece ser incapaz de se adaptar. Um grego exilado entre outros gregos, o jovem vive uma vida errática, que se divide entre momentos de grande solidão dedicados à escrita, encontros com o grupo de amigos, durante os quais se discute arte e literatura, e momentos fugazes de paixão com Salómi, com a qual se envolve após a primeira noite na Acrópole, mas que o faz sentir mais e mais frustrado à medida que os encontros se repetem. Embora admita estar apaixonada por Strátis, Salómi é incapaz de prescindir da sua liberdade e de se entregar completamente. A incompletude do relacionamento começa a atormentar o jovem, a ponto de quase o levar à loucura, um processo de declínio mental que é interrompido pela misteriosa morte de Salómi numa ilha grega. O desaparecimento da amante empurra-o para os braços de Lála, que também mantinha um relacionamento sexual com Salómi, sua antítese, que a escolheu para ser a companheira de Strátis. O livro termina com uma espécie de epifania de Strátis, que vê surgir na praia o corpo de Salómi, renascido a partir do de Lála.
Romance epistolar ou romance de formação (ou as duas coisas ao mesmo tempo), Seis Noites na Acrópole é uma narrativa sólida e original, que tem por base a própria biografia do autor, que viveu em Atenas durante o mesmo período e se inspirou numa mulher com quem mantinha um romance intermitente e secreto, Loukia Fotopoulo, para criar a personagem de Sálomi. Por incluir muitos dos temas explorados a fundo por Seféris na sua poesia, pode servir como introdução à sua obra, uma das mais importantes da literatura grega do século XX, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1963 pela sua escrita lírica “inspirada por um sentimento profundo pela cultura do mundo helénico”.