Rui Costa, presidente do Benfica, ex-futebolista e empresário, entrou para a chamada ‘lista negra’ do Banco de Portugal. O seu nome consta agora da Central de Responsabilidades de Crédito do banco central, sinalizado em situação de incumprimento devido a crédito “vencido”. Está em causa o incumprimento no pagamento de prestações de capital, juros de mora e encargos de uma responsabilidade total perante o Banco Montepio que supera os 15 milhões de euros. O montante total dos créditos inicialmente contratualizados é superior a 20 milhões de euros.
No centro do caso está uma empresa chamada 10 Invest — Investimentos Imobiliários, Lda, empresa da qual Rui Costa é acionista e avalista, e o financiamento da construção de um empreendimento imobiliário, denominado “Dream Living” e localizado na serra de Carnaxide (concelho de Oeiras). Na prática, o presidente do Benfica, na sua condição de empresário, responsabilizou-se como fiador pela devolução do capital e juros do contrato de crédito que foi assinado entre a sua empresa e o Banco Montepio (antigo Montepio Geral).
Ao que o Observador apurou, estão em causa vários créditos concedidos pelo Montepio para a aquisição dos terrenos (vários lotes), o financiamento da construção e ainda uma conta corrente para reforço de tesouraria durante a construção. No total, estará em causa um montante superior a 20 milhões de euros que foi alvo de créditos aos quais Rui Costa deu o seu aval pessoal.

O Observador contactou a 10 Invest, confrontando-a por escrito com todas as informações que constam desta peça, nomeadamente a situação de incumprimento da empresa e de Rui Costa. Fonte oficial da sociedade começa por esclarecer que “não houve lugar a qualquer execução de hipoteca no âmbito da sua relação com o Banco Montepio”, garantindo ainda que “a relação com esta instituição bancária [Banco Montepio] tem decorrido dentro da normalidade, no quadro da gestão corrente de um projeto imobiliário desta dimensão”.
A mesma fonte sublinha que “as garantias prestadas ao Banco Montepio ultrapassam largamente o valor do crédito em causa, assegurando de forma robusta a posição da instituição financeira”.
A mesma fonte não desmentiu a situação de incumprimento, como também nada disse sobre um acordo com o Banco Montepio para pagar os créditos vencidos — e que justificam a inscrição do ex-jogador na ‘lista negra’ da Central de Responsabilidades de Crédito.
Ao que o Observador apurou, Rui Costa está a tentar renegociar a sua dívida e o respetivo pagamento com o Banco Montepio. Mesmo que chegue a acordo, os créditos inscritos na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal não deixarão de ter automaticamente o status de incumprimento. Tal só acontecerá após um determinado prazo. (ver infobox “Se chegar a acordo com o Montepio, a situação de Rui Costa fica automaticamente regularizada?”)
Se chegar a acordo com o Montepio, a situação de Rui Costa fica automaticamente regularizada?
Não. Mesmo que regularize ou renegocie a dívida, a atualização no Banco de Portugal não é imediata, pois exige que o Banco Montepio processe e reporte os novos dados ao regulador.
Estar registado em incumprimento impede a concessão de novos créditos. Contudo, se a dívida já estiver liquidada ou a situação resolvida, Rui Costa pode contornar o bloqueio sem ter de esperar pela atualização do regulador: basta solicitar ao Banco Montepio uma declaração que ateste a regularização da situação do cliente.
Um empreendimento com problemas financeiros e o incumprimento que começou em maio
O empreendimento da 10 Invest — o “10” é uma alusão ao número da camisola que Rui Costa costumava usar enquanto jogador de futebol quer nos clubes por onde passou, quer na Seleção Nacional — já tinha estado numa polémica por ter levado Luís Mendes, antigo vice-presidente do Benfica, a colocar uma ação judicial para tentar recuperar cerca de 500 mil euros que tinha emprestado à empresa de Costa por falta de liquidez do promotor pelo empreendimento denominado “Dream Living”.
Quando a notícia foi dada em abril pela revista Sábado, já Luís Mendes tinha saído do Benfica em rutura com Rui Costa. E o problema judicial também já tinha sido resolvido, tendo o líder benfiquista pago a sua dívida.
Em reação, a empresa ligada a Rui Costa enviou um comunicado às redações para desmentir a existência de dificuldades financeiras, assegurando que mantinha a sua atividade plenamente regular.
“Importa sublinhar que a 10 Invest mantém a sua atividade plenamente regular, com estabilidade operacional e financeira, continuando a cumprir escrupulosamente todos os seus compromissos contratuais e financeiros, como sempre aconteceu”, consta do comunicado.
Contudo, os problemas financeiros da empresa 10 Invest para concluir o empreendimento já vêm de longe (desde a altura da pandemia de Covid-19) e persistiram.
Relativamente aos atrasos na construção, que motivaram os processos judiciais, a promotora justificou-os com “constrangimentos operacionais no ritmo de execução, comuns no setor da construção”, garantindo tratar-se de uma situação que lamentava, mas que estava já em processo de regularização com a máxima rapidez possível. Apenas uma parte minoritária das frações foi efetivamente entregue aos proprietários.
Ao que o Observador apurou, o incumprimento bancário começou em maio deste ano. É verdade que já terá amortizado cerca de sete milhões de euros, mas o capital em dívida fixa-se atualmente em cerca de 14 milhões de euros. Com os juros de mora e os encargos, a responsabilidade total perante o Banco Montepio supera os 15 milhões de euros.
É por esta razão que o nome do empresário foi parar à ‘lista negra’ do Banco de Portugal — a base de dados do regulador que reúne a informação prestada pelas instituições financeiras sobre os empréstimos concedidos e assinala casos de irregularidades. E na qual Rui Costa surge sinalizado com perfil de risco devido a crédito vencido.




Em visita ao local na quinta-feira, o Observador constatou que os dois lotes objeto de construção e financiamento (os lotes 44 e 47) encontram-se em diferentes fases de obra. Um está praticamente concluído e já está habitado, tendo inclusive uma piscina a ser utilizada por vários moradores. Já o outro ainda não está terminado, com as varandas por concluir e isoladas com fita, além de diverso material de obra disperso pelos arruamentos.
Fonte oficial da 10 Invest garantiu ao Observador o seu “compromisso com todos os seus clientes, parceiros, investidores e restantes stakeholders“. “O empreendimento encontra-se em fase final de conclusão, de acordo com o planeamento atualmente previsto. Após alguns atrasos decorrentes da pandemia de Covid-19 e de aspetos técnicos entretanto ultrapassados, a conclusão da obra ocorrerá muito em breve”, concluiu.
O ‘sonho’ do Dream Living, a faturação nula, 668 euros no banco e 2,9 milhões em tribunal
Fundada em janeiro de 2006, a 10 Invest faz parte do universo empresarial do ex-futebolista. Tem dois acionistas principais: a 10 Invest, S.G.P.S., Lda. (na prática uma holding, ou seja, serve para gerir participações sociais de outras sociedades), com participação de 90%, e o próprio Rui Costa (com 10%).
A empresa, cujo objeto social é a compra e venda de bens imobiliários, fechou o ano de 2024 com faturação nula e um resultado negativo de 21.398 euros. Porém, os seus ativos ascendem aos 36,7 milhões de euros, segundo relatórios da Iberform, empresa de gestão de risco.
Além da dívida bancária, a empresa terminou o ano de 2024 com apenas 668 euros inscritos na rubrica contabilística “caixa e depósitos bancários”, quando nos anos anteriores chegou a ter 119.299 euros (2023) e 924.958 euros (2022). Já o seu nível de risco ficou classificado com a nota mínima de 1, ou seja, apresenta risco máximo de incumprimento.
A juntar a este cenário, a empresa tem quatro ações judiciais em curso — e em todas é a ré. Trata-se de três processos comuns e uma execução ordinária que, somados, envolvem valores na ordem dos 2,9 milhões de euros.
O processo mais antigo refere-se à venda de um terreno nas Amoreiras, em parceria com a extinta Valor Ideal do também ex-jogador Luís Figo, no qual o queixoso exige mais de 700 mil euros em comissões. Os restantes três processos estão ligados ao Dream Living e devem-se a atrasos na construção do empreendimento.
Anunciado durante o Salão Imobiliário de Lisboa de 2018, o empreendimento Dream Living é um complexo residencial fechado e de luxo, composto por dois conjuntos residenciais de seis edifícios, com 90 apartamentos de T1 a T5. Além de jardins, o condomínio dispõe de espaços de lazer, com duas piscinas exteriores.
Na altura, o projeto foi apresentado como “uma parceria de sucesso” entre a empresa de Rui Costa (dona do terreno e promotora da obra) e o JPS Group, de João Paulo Sousa, responsável pela construção e pela comercialização do empreendimento.
Texto atualizado às 23h01m