Maria (nome fictício) quer entrar este ano na licenciatura de Gestão de Recursos Humanos em Portugal. Aluna da Escola Portuguesa de Moçambique, em Maputo, planeou usar o exame de Português como prova de ingresso, mas a nota ficou a décimas da positiva: teve 9,2. Pediu logo a consulta e na segunda-feira, dia 20, o pai recebeu um email do IAVE (o antigo Instituto de Avaliação Educativa agora integrado no EduQA). Os dois ficaram surpresos ao abrirem um PDF com 12 folhas em branco.
No email, a que o Observador teve acesso, está anexada a folha com as cotações da aluna e as 12 folhas em branco. “O extrato da classificação está correto, os 92 valores batem com o somatório, mas queríamos era ver mesmo a prova” antes da segunda fase da prova de Português, no dia 21, relata o pai de Maria.
Também Ana (nome fictício), aluna da mesma escola, recebeu o exame de Português em branco. “Obviamente que a minha filha foi à segunda fase, mas foi tudo em cima do joelho”, lamenta a mãe ao Observador. “Não houve tempo para estudar, houve a questão da ansiedade.”
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Depois de um primeiro envio em branco, Ana recebeu a sua prova correta, também classificada com nota negativa, no dia 20. A digitalização rigorosa da prova de Maria também chegou ao email do pai no fim do dia 20, mas foi parar à caixa de lixo eletrónico, sem ele dar por isso antes de a filha entrar para o exame da segunda fase.
O Observador contactou a Escola Portuguesa de Moçambique via email e telefone, bem como o EduQA acerca dos problemas verificados em Moçambique, mas não obteve resposta em tempo útil. “[Na Escola Portuguesa] Foram proativos”, elogia a mãe de Maria. “Tivemos muito apoio por parte dos professores e diretores de turma, que pelo menos tentaram manter a calma dos alunos durante este processo.” Segundo esta mãe, a Escola Portuguesa de Moçambique contactou os serviços em Portugal para resolver a situação e desde o dia 21 que se encontram no site da escola as informações partilhadas pelo Ministério da Educação acerca das desconformidades na digitalização. Depois de receberem o ficheiro corrigido, os alunos tinham os dois dias seguintes para pedir a reapreciação da prova, algo que tanto Ana como Maria fizeram. Por enquanto, os planos das duas jovens ficam em suspenso.
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Professora recomendou Inteligência Artificial para analisar prova de alunos
O pai de Maria tencionava que a filha entrasse numa universidade em Portugal através do estatuto de emigrante previsto no Regulamento do Concurso Nacional de Acesso e Ingresso no Ensino Superior Público para a Matrícula e Inscrição no Ano Letivo de 2026-2027. Este permite que 7% das vagas destinadas para a primeira fase e 3,5% das vagas da segunda fase sejam preenchidas por “candidatos emigrantes portugueses, familiares que com eles residam e lusodescendentes”.
Querendo usar Português como prova de ingresso, Maria precisa dos 0,3 que lhe faltam para a positiva e, se a reapreciação lhe for favorável, ainda pode fazer a candidatura ao Ensino Superior nos três dias seguintes à divulgação da nota prevista para 7 de agosto e ter acesso às vagas da primeira fase.
“Seguimos as recomendações de uma professora e colocámos a prova, o enunciado e os critérios de avaliação nos motores de Inteligência Artificial, e todos eles dão uma nota superior”, relata o pai de Maria. “Ela teve 9,2, mas o Google Gemini atribuiu-lhe uma nota de 12,4 à prova, e o Microsoft Copilot 13.”
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Se a reapreciação não correr bem nem a Maria nem a Ana, resta-lhes a nota da segunda fase e da época especial de setembro, cujos resultados só serão divulgados no dia 30, o último desse mês.
“Temos passagens compradas” que se podem tornar inúteis, conta a mãe de Ana. Teme ainda que a filha, que deseja estudar Economia ou Direito, só seja colocada no fim de setembro quando a família já está a trabalhar — e teme, também, que as opções de alojamento possam já ser escassas nesse momento. “Queríamos que ficasse próxima das universidades para ter algum conforto em termos de segurança para nós, como pais. Já estivemos aí várias vezes, mas ela nunca esteve sozinha.”
Já Maria tem uma “pré-reserva numa residência universitária em Lisboa” e, caso não consiga colocação nem na primeira fase com a prova reapreciada, nem na segunda ou na época especial, metade do valor da caução é devolvido. “O que eu acho é que normalmente para a segunda fase o número de vagas já é muito reduzido”, afirma o pai. Contudo, o ministro da Educação garante que os alunos não serão prejudicados pelas dificuldades técnicas no processo de avaliação dos exames. “Com o que o [artigo 59.º do] Regulamento do Ensino Superior permite, se houver algum caso de um aluno prejudicado na primeira fase por uma razão que não lhe é imputável, poderá ser criada uma vaga extra”, garantiu Fernando Alexandre durante a última audição no Parlamento.
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Diretor de Centro de Estudos de Espanhol apreensivo com derrapar dos prazos
Nessa mesma audição, foi abordado o caso dos alunos que vão no sentido contrário ao de Ana e Maria e que, ao invés de quererem estudar em Portugal, preferem ingressar no Ensino Superior no estrangeiro. Angélique Da Teresa, deputada da Iniciativa Liberal que integra a Comissão de Educação e Ciência onde Fernando Alexandre foi ouvido, afirmou ter recebido uma denúncia sobre como o adiamento da afixação das notas e, consequentemente, da emissão das fichas ENES (que contêm a classificação final do ensino secundário e as notas dos exames nacionais) colocava em causa o cumprimento de prazos internacionais.
O aviso surgiu do Centro de Estudos de Espanhol, uma escola de línguas que há mais de 30 anos ajuda os seus alunos, mediante a realização de provas de acesso a universidades espanholas, a entrar nas mesmas. A maioria pretende seguir Medicina nestas instituições cujo prazo de candidatura na fase normal termina a 31 de julho e, quando as fichas ENES só começaram a ser emitidas no dia 20, o diretor Emilio Rubio temeu não conseguir cumprir o prazo.
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“Há três passos fundamentais”, relata ao Observador. “Primeiro, precisamos da ficha ENES e, com ela, fazemos um pedido à antiga Direção-Geral de Ensino Superior (DGES), que agora se chama Instituto para o Ensino Superior (IES)” para que seja emitido o certificado de acesso ao Ensino Superior em país estrangeiro, que demora “três ou quatro dias”. “Recebemos esse documento e enviamo-lo a Madrid, à Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED), que é o organismo que se ocupa de tramitar a documentação de todos os estrangeiros candidatos a Espanha. Também demora três ou quatro dias, recebemo-la e aí é que podemos remetê-la às universidades”, afirma.
O mesmo processo é seguido por todos os alunos que, sem apoio de instituições como o Centro de Estudos de Espanhol, tratem dos procedimentos sozinhos. No caso do Centro, o receio levou Emilio Rubio a contactar não só as universidades espanholas com que trabalha há 33 anos, como o IES, que elogia. “Pedimos se podiam encurtar o prazo e portaram-se bem”, detalha, e a situação dos seus alunos está bem encaminhada para que ocupem os seus lugares em instituições de Ensino Superior espanholas. “Mas tudo isto foi um stress impressionante porque os alunos estiveram o ano todo a preparar disciplinas em espanhol, fizeram um exame de acesso, tiveram que preparar Química e Biologia. Estiveram todo o ano em aulas connosco e podiam ter de deitar fora um ano das suas vidas.”