Menos de um mês de trabalho, dois encontros realizados no Seixal à porta fechada com muitos golos, mais dois ensaios no Algarve com outro nível de competitividade para testar uma máquina em construção. Neste caso, literalmente em construção. O Benfica não teve muitas saídas até agora, exceção feita a Otamendi e Sidny Lopes Cabral, também não teve muitas entradas, com Lenglet e Kaminski a serem as únicas caras novas além de Jhon Durán (que não podia jogar) e Gabriel Índio (que está a ser “trabalhado” nesta fase por ser uma aposta a médio prazo), mas alterou todo um software que passou a ser liderado por Marco Silva em vez de José Mourinho sem contar com várias peças de hardware que só mais tarde se foram juntando ao grupo por terem estado no Mundial. Tudo por outro mindset sem mais tempo para experiências.
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Mais do que aquilo que foi a derrota frente ao Flamengo, que tem outro andamento nesta fase da temporada, e o triunfo diante do Villarreal, que está atrás na preparação, o foco de Marco Silva foi passando sempre pela consolidação de novos processos. Em campo, fora de campo, em todos os campos. Foi nesse sentido que, na sequência da partida com momentos de maior tensão com os brasileiros, o técnico preferiu focar-se noutros aspetos. Por um lado, a necessidade de haver reforços, não tanto numa crítica à política desportiva mas numa espécie de constatação de facto perante as circunstâncias deste arranque de temporada. Por outro, as fugas de informação a propósito da aposta (à porta fechada) em Jaden Umeh nos ensaios feitos no Seixal. “Já percebi que estão bem informados, logo a informação está a sair cá para fora…”, lamentou o técnico.
“Essa é uma das questões em que o Benfica tem de começar a ser Benfica de vez, mas isso é algo para o futuro”, avisou. “As palavras de Marco Silva eram uma chamada de atenção até mesmo para a quantidade de pessoas que estão envolvidas no Benfica Campus terem a consciência de que as coisas têm de ficar ali mesmo, dentro do Benfica Campus. É natural que assim seja”, legitimou depois Rui Costa, presidente dos encarnados que, à margem de uma apresentação da Luz, disse tudo sem dizer quase nada: o plantel está em construção, haverá entradas e saídas, a base é em grande parte a mesma da última época, nesta fase o que é mais relevante é passar as pré-eliminatórias para chegar à Liga Europa. Agora começava esse “desafio”.
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Também houve momentos de “felicidade” e quis o destino que o Benfica fizesse a estreia fora-mas-em-casa. Ao jogar na Suíça frente ao St. Gallen, os encarnados contariam com muito apoio nas bancadas para o início a todo o gás de uma máquina longe de carburar o que pode. Tomás Araújo e Dedic regressaram, entraram nos convocados mas ainda não eram opções, Richard Ríos, Lukebakio, Aursnes e Andreas Schjelderup ainda não voltaram do Mundial e a isso juntou-se também um problema físico que afastou Leandro Barreiro das opções para a estreia. Entre todo esse contexto, a permanência de António Silva nas opções era uma boa notícia, com o central a ter tudo encaminhado para rumar ao Bournemouth mas a “adiar” essa saída da Luz.
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“Consideramos importante começar da melhor forma e sermos competitivos o suficiente tendo em conta o momento da época e a pré-temporada atípica que temos tido. Sermos competitivos e estarmos na próxima eliminatória é o nosso objetivo, sabendo que é uma eliminatória com dois encontros. Benfica favorito? O St. Gallen não tem nada a perder e o favoritismo prova-se dentro de campo. No papel é assim, não há que escondê-lo. A grandeza do Benfica a isso obriga. No futebol, ninguém ganha antes de começar o jogo. Vamos defrontar um adversário que vem de uma temporada muito boa, pela forma como competiu no campeonato e na taça. Temos de ser sérios e profissionais, como é a nossa obrigação”, apontara o técnico das águias.
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“António Silva? Se o António não estivesse com a cabeça naquilo que é o treino, a sua obrigação e o que representa ser atleta do Benfica não estaria sequer nos jogos de pré-temporada. E se esteve nos jogos de pré-temporada, se utilizei o António, é porque os sinais que me foi dando, dia após dia nos treinos, mostravam que estava em condições de jogar nesses jogos e treinar no dia seguinte. Se algum atleta dá sinais de que não está comprometido com a sua profissão e com o clube que representa, que neste caso é o Benfica, não poderá estar presente no treino seguinte, quanto mais no jogo seguinte…”, assegura também Marco Silva. O discurso era forte e de confiança, o discurso chocou com a realidade: no dia em que estreou o seu quarto campeão mundial Sub-17, Miguel Figueiredo, que ganhou o lugar num meio-campo que teve Enzo Barrenechea a começar no banco, os encarnados nunca igualaram a intensidade e agressividade dos suíços, pecaram nas bolas defensivas e saíram com uma derrota do primeiro jogo oficial. A boa notícia é também a má notícia: há uma segunda mão para virar a eliminatória mas este Benfica precisa é sobretudo de tempo.
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Ficha de jogo
St. Gallen-Benfica, 2-1
1.ª mão da 2.ª pré-eliminatória da Liga Europa
Sitterstadion, em St. Gallen (Suíça)
Árbitro: Luca Pairetto (Itália)
St. Gallen: Ati-Zigi; Tom Gaal, Stanic (Joel Ruíz, 90+3′), Okoroji; Vandermersch, Daschner, Görtler, Boukhalfa (Hunziker, 72′), Stevanovic; Aliou Baldé (Beio, 72′) e Witrzig (Frokaj, 72′)
Suplentes não utilizados: Watkowiak, Frozliji, Owusu, Konietke e Heydari
Treinador: Enrico Maassen
Benfica: Trubin; Bah, António Silva, Lenglet, Dahl; Manu Silva (João Rêgo, 84′), Miguel Figueiredo (Enzo Barrenechea, 66′); Rafa, Sudakov, Kaminski (Tiago Gouveia, 66′) e Pavlidis (Ivanovic, 76′)
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Dedic, Tomás Araújo, Daniel Banjaqui, José Neto, Anísio Cabral, Gonçalo Moreira e Rui Silva
Treinador: Marco Silva
Golos: Aliou Baldé (37′), Rafa (44′) e Tom Gaal (80′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Görtler (30′), Stanic (62′), Pavlidis (64′) e Tom Gaal (90+4′)
A partida começou com uma curiosa abordagem do St. Gallen a essa ideia do “nada a perder”. Porquê? Numa atitude com tanto de guerreira como de arriscada, a formação suíça não teve problemas em assumir linhas de pressão altas nos dez minutos iniciais que conseguiram algumas vezes bloquear a primeira fase de construção mas que deixavam sempre demasiados metros na profundidade para os jogadores encarnados aproveitarem as transições. Um, dois, três passes, bola a saltar a oposição, Rafa a ser ativado mais descaído sobre a direita, como aconteceu num lance em que Kaminski lançou o português, Miguel Figueiredo não apanhou bem a bola na passada mas a tentativa transformou-se em assistência de Pavlidis, que viu Ati-Zigi defender com a perna antes da recarga de Sudakov a bater num defesa (5′). Tudo antes do primeiro lance em que Marco Silva ficou desagradado, com Aliou Baldé a desviar sozinho ao segundo poste por cima depois de um canto (4′).
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A ideia que sobrava era que o Benfica era melhor mas que continuava meio preso naquilo que o St. Gallen conseguia fazer sem bola, com várias recuperações e interceções no meio-campo dos encarnados numa fase em que Sudakov descaía mais sobre a esquerda com Kaminski em movimentos interiores. E foi assim que os minutos foram passando, com maior estabilidade em termos defensivos antes do último terço mas questões iguais para lançar ataques rápidos na frente, algo que só aconteceu duas vezes nos 25 minutos iniciais com Miguel Figueiredo a mostrar que era um médio com chegada ao ataque. Sem a agora habitual paragem para hidratação, até porque a UEFA não vê necessidade em parar a partida três minutos para ganhar mais algum em publicidade, a lesão de Okoroji permitiu que alguns jogadores fossem ao banco mas essas indicações nada mudaram no rumo da partida, entre um remate de Pavlidis ao lado após jogada com Rafa (27′).
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Mais de 35 minutos com pouco ou nada, menos de dez minutos com quase tudo e uma boa notícia para o Benfica: apesar de ter sido o pior período em termos de estabilidade defensiva, os encarnados conseguiram ir para o intervalo empatados e com tudo em aberto. Witzig teve a primeira oportunidade clara numa falha clara dos centrais, surgindo isolado no meio da área para desviar de cabeça um cruzamento da esquerda por cima (36′). O St. Gallen ameaçava, o St. Gallen chegaria mesmo ao golo, o St. Gallen ameaçou aumentar logo de seguida e tudo com Aliou Baldé na jogada: o avançado nascido no Senegal que representa a Guiné caiu sobre a esquerda, aproveitou uma linha de fora de jogo mal definida por António Silva e disparou um míssil com pouco ângulo que passou por cima da cabeça de Trubin para o 1-0 e, na sequência de um canto para o Benfica, surgiu isolado na profundidade mas a não conseguir evitar a defesa do guarda-redes ucraniano (37′). Foi nessa fase que, na primeira vez em que os encarnados conseguiram receber de frente para o jogo entre linha média e defensiva, Pavlidis assistiu Rafa que, sozinho na área, atirou cruzado para o 1-1 (44′).
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Ainda houve mais um lance com muito perigo antes do descanso, com Boukhalfa a surgir de novo sozinho na área agora após canto para desviar de cabeça por cima nos descontos. Esse era um dos problemas que Marco Silva teria de corrigir ao intervalo, com várias bolas na área que encontravam jogadores suíços numa boa posição para finalizar. Em paralelo, faltava intensidade e verticalidade nas saídas, com demasiadas ocasiões em que o momento decisivo da transição tinha a referência de costas para a baliza, o que atrasava todo o restante processo. Apesar dessas lacunas, os encarnados regressaram sem alterações após o intervalo.
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Não foi por isso que o Benfica melhorou muito. Sudakov, numa meia distância após boa circulação no meio-campo contrário quando havia um elemento do St. Gallen no chão, obrigou Ati-Zigi a uma grande defesa para canto, com Manu Silva a aproveitar essa bola parada para desviar de cabeça e obrigar o ganês de novo a ter trabalho (60′). No entanto, e mesmo sem a mesma capacidade física de pressão, os suíços iam conseguindo criar perigo ou em situações pelos corredores laterais com cruzamentos ao segundo poste, como aconteceu com Stevanovic para defesa de Trubin (56′), ou em lances de bola parada, de novo com Boukhalfa a surgir sem marcação para o desvio que ficou nas mãos do ucraniano (62′). Foi aí que Marco Silva decidiu mexer pela primeira vez, retirando de jogo Miguel Figueiredo e Kaminski por Enzo Barrenechea e Tiago Gouveia, e foi o ala português a conseguir agitar o ataque, tendo um remate que saiu perto do poste (70′).
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Seria também a partir de uma jogada que começou em Tiago Gouveia que Sudakov, numa fase em que tinha entrado Ivanovic para a saída de Pavlidis, apareceu bem na área mas para desviar às malhas laterais (78′). O Benfica parecia querer estabilizar a partida, começava a ter algumas circulações de bola mais demoradas no meio-campo adversário mas continuava a cair naquilo que foi sempre o seu pecado capital: as bolas paradas defensivas. Mais: os suíços tiraram a papel químico no final aquilo que já tinham feito no início da partida, com uma concentração de jogadores ao primeiro poste para surgir alguém isolado ao segundo. A diferença, essa, esteve na eficácia, Daschner a bater longo na esquerda, a bola a passar por Enzo Barrenechea e a ser desviada sem hipóteses para Trubin por Tom Gaal, que recolocou os suíços na frente do marcador (80′). Agora, e ao contrário da primeira parte, não houve mesmo capacidade de reação. Nem quando o St. Gallen ficou um minuto com nove, com dois jogadores dos suíços de fora após serem assistidos…
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