(c) 2023 am|dev

(A) :: Moretti, Herzog, Koreeda e Brizé juntam-se a Danny Boyle em Veneza 2026

Moretti, Herzog, Koreeda e Brizé juntam-se a Danny Boyle em Veneza 2026

O festival anunciou os 20 filmes que vão disputar o Leão de Ouro da 83.ª edição, entre 2 e 12 de Setembro. Não haverá cinema português, nem na selecção oficial, nem no programa da secção paralela.

Francisco Ferreira
text

Se um só nome houvesse a destacar no line-up do próximo Festival de Veneza, que decorrerá uma vez mais no Lido, a partir de 2 de Setembro, teria que ser o de Nanni Moretti, que há muito andava distante da Sereníssima. Pouco importa agora dizer porquê. É assunto que daria para um romance em que Cannes levou quase sempre a melhor. Pois só faltou a Alberto Barbera, director artístico do festival, chamar a Moretti de “filho pródigo” quando, emocionado, anunciou a presença de Succederà Questa Notte na próxima leva de filmes a concurso pelo Leão de Ouro. De facto, há 37 anos — desde o saudoso Palombella Rossa (1989) — que o cinema de Moretti não tinha honras de estreia veneziana. Nesse ano, o festival privou este filme maior do concurso principal, empurrando-o para uma estreia polémica na Semana da Crítica — mas, no fim dessa Mostra, ninguém falava noutra coisa.

Succederà Questa Notte apresenta-se como um drama romântico livremente inspirado em Hungry Heart, livro de contos do escritor israelita Eshkol Nevo (por sua vez inspirado na canção homónima de Bruce Springsteen). O filme é interpretado pelo francês Louis Garrel e pela italiana Jasmine Trinca (que debutou no cinema em O Quarto do Filho, filme de Moretti, de 2001), ladeados no elenco por Angela Finocchiaro, Elena Lietti, Antonio De Matteo, Andrea Lattanzi, Hippolyte Girardot e pelo próprio Moretti.

À semelhança do que aconteceu este ano em Cannes com o cinema francês, é forte a “squadra” transalpina de Veneza 2026, com 25% de ocupação do concurso principal. Cinco dos vinte filmes selecionados são italianos, novas obras de Edoardo De Angelis, Andrea Pallaoro, Paolo Strippoli e do italo-chileno Marco Bechis, que regressa à Argentina e aos tempos da Ditadura Militar em que foi preso e torturado, antes de ser expatriado. Bechis volta às temáticas do seu filme de 1999, Garage Olimpo. Já The Echo Chamber, de Andrea Pallaoro, parte do último (e autobiográfico) argumento escrito por Bernardo Bertolucci. Mas há mais — muito mais — cinema italiano distribuído do festival, com novas obras, fora de concurso, de autores importantes como Gianni Amelio ou Mario Martone. Também de fora ficou Paul Schrader e o seu novo trabalho (esperado no concurso), The Basics of Philosophy.

Os italianos terão concorrência de peso do resto da Europa e do continente asiático. Stéphane Brizé (Un bon petit soldat, nova incursão no mundo do trabalho, com Alba Rohrwacher e Vincent Lindon), Cédric Kahn e Nicolas Pariser são os representantes francófonos que se apresentam ao Leão de Ouro e nomes já falados desde Cannes (tal como sucedeu, no ano passado, com Jim Jarmusch, que sairia do Lido vitorioso). O mesmo sucede com o novo trabalho de Werner Herzog, Bucking Fasterd, trocadilho que a Croisette recusou, vá-se lá saber se com razão ou desacerto.

O novo Herzog inspira-se na incrível história verídica das gémeas britânicas Freda e Greta Chaplin (sem qualquer relação com Charles Chaplin), que espantaram os anos 80 do século passado graças à extraordinária simbiose e sincronia de comportamentos – a um tal ponto que foram descritas como “uma mente entre dois corpos”. Falavam em uníssono, vestiam-se de igual e compartilhavam os mesmos sonhos — até ao momento em que se descobriram apaixonadas (e obsessivamente) pelo mesmo homem (papel de Orlando Bloom). Interpretam as irmãs Kate e Rooney Mara (que não são gémeas na vida real), reunidas pela primeira vez no grande ecrã. Herzog afirmou que o filme seria a última parte de uma “trilogia operática” sobre o génio, a loucura e a natureza indomável, seguindo-se aos anteriores Fitzcarraldo e Grizzly Man.

Da Ásia, não é possível deixar de indicar novas obras de autores habituados a premiações de grande relevo: Look Back, de Hirokazu Koreeda, Mr. Nelson, Did You Kill People?, de Shinya Tsukamoto (ambos nipónicos) e Possible Love, de Lee Chang-dong (Coreia do Sul). Já de estrelas anglo-saxónicas, está Veneza, uma vez mais, devidamente servido: Nick Nolte em Company, de Casey Affleck; John Malkovich, Sam Rockwell e Steve Buscemi em Wild Horse Nine, de Martin McDonagh; Robert Pattinson em Primetime, de Lance Oppenheim… Já em Bunker, de Florian Zeller, é espanhol o casal (no ecrã e na vida) que está na cabeça do cartaz: Penélope Cruz e Javier Bardem. Chega e sobra para agitar as águas do Adriático. O filme de abertura — previamente anunciado — será Ink, do britânico Danny Boyle, com Jack O’Connell, Guy Pearce e Claire Foy nos principais papéis. É a história do jornal inglês The Sun transformado em tabloide desde a sua aquisição por Rupert Murdoch. O júri será presidido pela actriz Maggie Gyllenhaal, aproveitando Veneza para estrear uma nova curta-metragem realizada pela norte-americana, Flesh Impact, com Ellen Burstyn e Dakota Johnson a interpretarem Marilyn Monroe. É um tributo a Marilyn, no ano do centenário do seu nascimento. Burstyn, por seu lado, será distinguida em Veneza com um Leão de Ouro honorário.

E o cinema americano, que é feito? Parte dele ficará, certamente, no lado de lá do Atlântico, quando Toronto revelar as suas estreias, outra parte contornará a vida festivaleira e chegará directamente às salas, numa manobra comercial passível de discussão e com resultados irregulares. Ainda assim, tem Veneza mais argumentos que aqueles que Cannes apresentou em Maio. E, com isto, abre-se espaço para outras coisas, como o “filme concerto” (palavras de Barbera) em que Russell Crowe escreve a sua biografia: What Love Builds. No mesmo lote de não-ficção fora de concurso, encontram-se as quase quatro horas de Musk, o documentário que Alex Gibney ergueu em torno do “homem mais rico do mundo” (pelo menos, é o que dizem aqueles que ainda não descobriram como contar as fortunas de Xi Jinping e de Putin…).

Amos Gitai, Barbara Kopple, Victor Kossakovsky e o argentino Mariano Llinás (desta vez com 5h30 de cinema com título que desperta curiosidade, Biografía de Jorge Luis Borges) integram o mesmo lote que ainda contempla Imperium, de Sergei Loznitsa. O ponto de partida deste último é sugestivo: nos anos 70, o Partido Comunista Italiano enviou para a União Soviética um grupo de operadores de câmara para captar a realidade daquele regime. Acontece que aquilo que os enviados do PCI deixaram impresso em película foi o absoluto oposto da ideia do “império moderno” que Moscovo procurava passar ao Ocidente. Outros cineastas de relevo como Tsai Ming-Liang e Wim Wenders (com um documentário sobre o arquitecto Peter Zumthor) contribuem para que esta secção se torne, por si só, um festival à parte no Lido.

Veneza 2026 não terá cinema português, nem na selecção oficial, nem no programa da secção paralela Giornate Degli Autori, que por norma aposta em cineastas emergentes. Mas em boa hora informou a Midas Filmes que A Noiva Difícil (The Difficult Bride), de Rubaiyat Hossain, é uma co-produção europeia com o Bangladesh em que a empresa participa. Quarto filme da realizadora de Made in Bangladesh, com direção de fotografia (Leonor Teles) e pós-produção portuguesas, A Noiva Difícil compete na secção Orizzonti. Realce-se que a Midas Filmes, que mantém há muito uma relação de fidelidade com a obra de Moretti, distribuirá entre nós Succederà Questa Notte assim como o supracitado Imperium, de Sergei Loznitsa.

Competição – 20 filmes a concurso

  • Ink, de Danny Boyle (filme de abertura)
  • Company, de Casey Affleck
  • A Bit of Light, de Ali Asgari
  • Ritorno a Buenos Aires, de Marco Bechis
  • Un bon petit soldat, de Stéphane Brizé
  • Il fuoco che ti porti dentro, de Edoardo De Angelis
  • Woman Unknown, de May el-Toukhy
  • Bucking Fastard, de Werner Herzog
  • 15/18 (A Place to Heal), de Cédric Kahn
  • Dau, de Ilya Khrzhanovsky
  • Look Back, de Hirokazu Koreeda
  • Possible Love, de Lee Chang-dong
  • Wild Horse Nine, de Martin McDonagh
  • Succederà Questa Notte, de Nanni Moretti
  • Primetime, de Lance Oppenheim
  • The Echo Chamber, de Andrea Pallaoro
  • Un peu avant minuit, de Nicolas Pariser
  • L’estranea, de Paolo Strippoli
  • Mr. Nelson, Did You Kill People?, de Shinya Tsukamoto
  • Bunker, de Florian Zeller

Secção Orizzonti – 19 filmes a concurso

  • La ragazza com la Leica, de Alina Marazzi
  • The Burning Giants, de Phuttiphong Aroonpheng
  • What Belongs to Others, de Grzegorz Debowski
  • Una storia, de Anna Foglietta
  • La città dei vivi, de Edoardo Gabbriellini
  • Falling House, de Mohsen Gharaei
  • Too Much Sugar, de Robert Greene
  • The Difficult Bride, de Rubaiyat Hossain
  • La maison du vent, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu
  • I figli della scimmia, de Tommaso Landucci
  • A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra, de Jacqueline Lentzou
  • Oasis, de Jannis Lenz
  • Until the Day Ends, de Jelena Maksimovic
  • La moula, de Jérôme Pierrat
  • Lovers in the Blue Night, de Anuparna Roy
  • Un détour par Diane, de Ann Sirot e Raphaël Balboni
  • The Color of the Sun, de Xavier Tera
  • Eklipse, de Manuel Wetscher
  • Big Little Things, de Michelle Zhou

P.S. — Pouco depois do anúncio do Festival de Veneza e da conclusão deste texto, a gritante discrepância verificada entre homens e mulheres cineastas a concurso pelo Leão de Ouro 2026 começou a ser alvo de contestação nas redes sociais, sobretudo em Itália e nos media transalpinos. De facto, das vinte longas-metragens seleccionadas para o concurso deste ano, apenas uma é realizada por uma mulher, May el-Toukhy, artista dinamarquesa de origem egípcia. Ora, o título do filme em causa (que corre sob bandeira daquele país escandinavo) não veio propriamente suavizar a controvérsia: Woman, Unknown.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.