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(A) :: O Museu de Arte Popular virado ao futuro

O Museu de Arte Popular virado ao futuro

Exposições fecham, catálogos ficam. Este é dos que merecem ficar, também como indício de que o Museu de Arte Popular ainda não foi destruído por completo, como alguns tanto gostariam que fosse.

Vasco Rosa
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Se for provado que estamos diante do primeiro sinal dum renascimento, aguardado há muito por quem entende que a arte popular deve ser protegida e reinventada, então Um Cento de Cestos. Uma tecnologia sustentável para o século XXI — e há que notar o subtítulo — acerta em cheio, até por esta contemporaneidade voltada ao futuro, identificando e rastreando o passado que a inspirou. Depois de Uma Vida Dura de Jasper Morrison (2024), este livro sobre tema tão nobre, que a designer Catarina Carreiras produziu com zelo e elegância — e nunca é de mais chamar a atenção para aspetos essenciais —, pode ficar por largos anos como uma referência comparável, por exemplo, a Instrumentos Musicais Populares Portugueses de Ernesto Veiga de Oliveira (Gulbenkian, 1966 e sobretudo 2000).

Bem sei que a exposição foi inaugurada em setembro de 2021, para durar um ano, acabou por ficar praticamente cinco, que só no fim de maio passado o catálogo foi apresentado, e que isso diz quase tudo sobre a inércia ainda vigente ou sobre um moribundo incapaz de se erguer e caminhar como dantes, porém faça-se fé neste sinal de mudança que o recente protocolo de co-edições com a Imprensa Nacional permite considerar. Ainda assim, como o Ministério da Cultura é parco ou obscuro no anúncio do plano expositivo dos seus museus, fica por saber que projetos se preparam para o Museu de Arte Popular (que não tem direção autónoma), ou se o seu bom nome e a sua localização — privilegiadíssima — continuarão a ser tão desperdiçados como nas últimas décadas. Ainda que o à época director do Museu Nacional de Etnografia, Paulo Ferreira da Costa, se refira na p. 10 a “sinergias que se estabeleceram quando da decisão de reunir as duas instituições numa única entidade museológica” (sem dizer quais, que grandeza e efetivo relevo tiveram), a “complementaridade entre as duas colecções” não deve rasurar a vocação e independência do MAP, que aliás precede em duas décadas o MNE.

Trinta e duas páginas de fotografias a cores dão-nos de início, como convém, o retrato completo da museografia da exposição dos 246 cestos seleccionados — Jasper Morrison preferiu dois outros; v. Vida Dura, pp. 157, 184-85 —, com toda a variedade de formas, dimensões, usos e materiais que se possa imaginar. Todos eles sobreviventes de recolhas etnográficas operadas nas décadas de 1940-70 e nada mais depois disso, são, no dizer de Suzano e Durkee, exemplares das “técnicas milenares do design feito através da tecelagem de fibras vegetais, uma das mais antigas tecnologias humanas”, propostos a “releitura” por artesãos e designers de hoje, visando influenciar “um novo design regenerativo e sustentável”, com “objetos contemporâneos utilitários” e “práticas de consumo responsável” (p. 68). Em favor dessa reabilitação está o facto, salientado por Ana Botas, de se tratar de objetos que, “mais do que instrumentos de trabalho delimitados por uma única finalidade, foram — e continuam a ser — objectos versáteis, adaptáveis a diferentes usos e circunstâncias […] muitos persistem, integrando-se em novos contextos, inclusive urbanos” (p. 72). Infelizmente, não consta da exposição o duplo cesto na bicicleta dum padeiro a domicílio que, ainda nos anos 1980, subia e descia a Calçada da Estrela, em Lisboa, num tempo em que o museu do Restelo já perdera de vista a sua função recolectora. A bela foto dum vendedor de cestos a caminho do mercado do Funchal, tirada em 1963 por Benjamin Pereira durante expedição às ilhas (pp. 66-67) é, pois, o duplo testemunho de quão longeva foi a prevalência dos materiais naturais sobre os produtos em plástico e de uma das derradeiras investidas museológicas na identificação desses usos e costumes.

São 5 as técnicas de fabrico e 20 as fibras vegetais usadas na cestaria tradicional portuguesa, o que diz tudo sobre o extenso aproveitamento humano dos recursos naturais de proximidade, colhidos ao longo do ano de acordo com sazonalidades há muito estabelecidas, e com uma distribuição geográfica que mapas permitem conhecer num relance. O esparto e a palma, por exemplo, são exclusivos do Algarve, a giesta ou piorno pertence sobretudo ao Alto Minho e a Trás-os-Montes, o carvalho, o sanguinheiro, a giesta e o castanheiro preenchem o norte e não têm expressão a sul, enquanto a palha do centeio e do trigo e o junco se espalham um pouco pelo território continental e só este último tem alguma expressão na Madeira e nos Açores. O pleno absoluto só é alcançado pela silva (Robus sp.), como se vê na p. 102. Há cestos de vindima feitos em castanheiro e silva, com recurso a três técnicas, outros em vime e castanheiro, outros apenas em carvalho. As canastras que as peixeiras levavam à cabeça são em castanheiro quase todas, e o vime é a fibra mais aplicada na cestaria grossa, curiosamente em artefactos de pesca fluvial como covos ou nassas (p. 150), mas também para o transporte do pescado algarvio ou açoriano. A palha tem múltiplas aplicações, desde tabuleiros em Viseu, a joeiras em Santa Maria, aos abanos da Foz do Giraldo, Castelo Branco, ou à rodilha para assentar cântaros tal como feita em Miranda do Douro e ao belo cesto de duas secções criado em Campo Feito, Gozende, Castro Daire, com palha de centeio, casca de silva e piorno (p. 191).

Percorrendo as fichas dos cestos, é fácil admitir que as formas elegantes de alguns destes modelos — como os cestos de merenda na ilha de São Miguel “utilizados pelos trabalhadores do campo ou da cidade” (p. 169), um outro, de Câmara de Lobos (p. 174) ou o açafate de Amarante (p. 175), para já não falar do cesto de Tavira que Jane Birkin popularizou (p. 181) e duma certa alcofa de esparto, de Vila do Bispo (p. 203), além de outros — dão nas vistas e piscam o olho à experimentação de réplicas ou recriações por parte duma nova geração de jovens artesãos, seduzidos por tais técnicas e materiais. Um número recente da excelente revista de Lifestyle do Observador deu mesmo capa a Helena Novelletto, italo-brasileira de 27 anos que trabalha o bunho ou buínho (Schoenoplectus lacustris (L-.) Palla) em cadeiras e bancos contemporâneos criados com outros designers. Seiras ou cestas para compras, em junco colorido com novas versões arrojadas (como as da p. 287), têm certamente procura nas boas lojas de artesanato. Residências colaborativas entre designers e artesãos — de que o catálogo dá exemplos — são uma boa maneira de reinventar este mundo antigo mas não arcaico ou obsoleto com novas funcionalidades, numa dinâmica de “coworking e vida partilhada” (p. 317) com propósitos de sustentabilidade. Um largo “assento de descanso” (pp. 316 e 319), com talvez um metro de diâmetro, criado pela colaboração entre dois artesãos e dois estudantes, em vime de salgueiro e em bunho, é a peça que se destaca do summer camp de três semanas promovido pelo Ministério da Cultura, a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e uma fundação internacional.

Repositórios vivos do saber-fazer da cestaria tradicional, 35 artesãos identificados no fim do livro (pp. 238-62) receberão a partir de agora — e certamente com maior agrado — a visita de candidatos dispostos a aprender e prosseguir o seu ofício ou, melhor dito: a sua bela arte.