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Prato do dia: Lula à moda da casa

Receita política-culinária, com ingrediente único: um Presidente da República que faz um gesto obsceno publicamente, e que sobretudo não é de esquerda.

Paulo Nogueira
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Como as utopias têm a exasperante mania de degenerarem em distopias, a política tende a ser a arte do possível, e uma estoica escolha do mal menor (com o nariz devidamente tapado). No Brasil, com o pingue-pongue Lula/Bolsonaro em looping perene, até o mal menor é XL. E não consola que um deles esteja preso, pois o outro também esteve e não mudou uma vírgula. E tão-pouco adianta suspirar “venha o Diabo e escolha”, pois com esses dois é  óbvio que o Demo tem toda  a culpa no cartório.

Numa cerimónia no Palácio do Planalto (sede do Executivo), o presidente Lula da Silva mostrou literalmente o dedo do meio. “A gente vai acabar com essa história de que pobre não gosta de coisa boa. Gostamos, sim! Aqui para eles, ó!” E pumba: o “pai-de-todos” em riste, brandido para os ecrãs. A baixaria, incompatível com a dignidade de um estadista, é típica de Lula (e de Janja, a primeira-dama, que também já espumou: “Fuck you, Elon Musk!” – quando este fazia parte do gabinete Trump).

A obscenidade rasca de Lula escamoteia o facto de que o seu  partido, o PT, governou o Brasil por 18 dos últimos 24 anos. A 100 dias de uma eleição em que mais uma vez é candidato, o que fará num quarto mandato para melhorar a vida dos brasileiros que já não tenha feito, ou sobretudo deixado de fazer, nesses anos todos no poder? Passo.

Mas aquela ordinarice chunga tem mais um parte errada – e uma certa. Lula não é pobre há éons. Cheio da massa, não só gosta como conhece o bem bom como a palma da mão. Numa visita recente à França, ele e sua Janja hospedaram-se na exclusiva Suíte Eugénie do hotel Inter Continental Paris Le Grand, um duplex de 250 m² com cozinha privativa, quatro quartos (camas king-size com lençóis de algodão egípcio e um “menu de almofadas”) e mobília Segundo Império. Sim, foram os contribuintes brasucas que pagaram a farra, mas o atrelado escolhido a dedo é realmente de connaisseur.

Recentemente, a direita sul-americana venceu as eleições   no Chile, Equador, Bolívia, Peru e Colômbia, sem falar que na Argentina Milei está a domar o crónico dragão da inflação, e Maduro apodrece numa prisão nos EUA (vá lá: Delcy e Jorge Rodríguez, os Irmãos Sinistros, continuam impávidos na Venezuela). Na Nicarágua, o ditador Ortega (unha e carne com Lula), que está no poder desde 2007, já avisou que não haverá eleição para ninguém (na anterior, em 2021, o tirano prendeu os 7 candidatos da oposição – assim, até eu!).

Lula está fulo com as tarifas que Trump acaba de aplicar a 4 mil produtos brasileiros (menos o café, o aço, o ferro, farmacêuticos e a carne). A Casa Branca alega “deslealdade” no comércio bilateral (o Brasil é protecionista), e até o desmatamento da Amazónia. Esta última razão deveria enternecer os progressistas, se Trump não fosse o seu atual Belzebu. O primeiro-ministro Keir Starmer, também de esquerda, negociou com o Anticristo e safou a Grã-Bretanha das tarifas.

Lula prefere pirraças, e até aventou o risco de os EUA invadirem o Brasil militarmente. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, declarou que sarilhos internacionais justificam o país considerar a tecnologia nuclear também “para a defesa nacional”.  O Brasil não ratificou o TPAN (Tratado para a Proibição das Armas Nucleares). O desenvolvimento de armas atómicas é proibido pela Constituição, mas Lula fala grosso: “Votei pela não proliferação de armas nucleares porque as nações com arsenais atómicos prometeram desativá-los. Alguém cumpriu? E a nossa indústria da defesa está rota”. (Pausa para a hidratação do cronista – que também irá benzer-se.)

Num  áudio vazado numa reunião do G7, Lula disse que o mundo não é de esquerda, e que ele próprio nunca foi esquerdista. Já em de 2003, na Venezuela, no seu primeiro mandato, ronronou: “Nunca gostei (passe o cacófato) de ser rotulado de esquerda. Se sou comunista? Sou metalúrgico”. Hugo Chávez piscou-lhe o olho maroto, enquanto cozinhava o “socialismo do século XXI“ (obrigando 8,6 milhões de venezuelanos a fugirem do país para não morrerem à fome).

O mundo não é de esquerda? Talvez Xi Jinping e Kim Jong-un discordem. Em 1989, com a queda do muro de Berlim, o colapso da URSS e o poente da Guerra Fria, houve quem (olá, Fukuyama!) proclamasse “o fim da história” e a apoteose irreversível das democracias liberais. O comunismo morreu – antes ele do que eu? Nem por isso: a esquerda reciclou-se. Às vezes parece que até a direita é de esquerda (pois só existem a “extrema-direita”, ou a “ultradireita”). Os conservadores também querem ser queriduchos, estar do lado certo da história, fazer do mundo um lugar melhor, ensinar a polícia que a missão dela não é evitar que as pessoas se matem umas às outras, mas que sejam fixes e compassivas (embora a liberdade de expressão não tenha ponta por onde se lhe pegue). Até porque a esquerda já detém o monopólio no que conta: não voláteis cargos eletivos, mas agentes com ações política, jurídica e cultural a sério. Agora só com uma lupa para encontrar um empresário que não seja “do bem” e “inclusivo”. Lucro? Que nojo!

O kit-esquerda hoje tem 3 ingredientes. 1) O identitarismo. É a democracia liberal que permite que cada um viva como lhe apetece, incluindo clamores insaciáveis por justiça social. Mas o ativismo esperneia para impor uma ordem oposta, e para sempre. Igualdade significa tratamento igual perante a lei. Equidade significa o Estado manipular os resultados entre os grupos. Igualdade significa que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e deveres. Equidade exige que o governo discrimine para alcançar metas edificantes. Igualdade é sobre oportunidades equitativas. Equidade sobre representação imposta goela abaixo.

No género, são homens cis de um lado, e mulheres e “pessoas não-binárias” do outro (incluindo marmanjos de peito cabeludo que identificam-se como mulheres diáfanas). E se algumas mulheres biológicas (com o perdão da redundância) caem em si e refilam, são TERF (Feminista Radical Trans-Excludente), o que é quase mais nazi do que ser homem cis.

Também convém abolir a tóxica família nuclear, como já prescrevia Rousseau, o Iluminista que abandonou todos os seus 5 filhos à porta de um orfanato (e à morte precoce), para desespero da sua mulher Thérèse; e Marx e Engels no “Manifesto Comunista”; e feministas como Sophie Lewis, que em “Full Surrogacy Now: Feminism Against Family” ruge: “Desconstruamos a ideia de que os miúdos pertencem aqueles com quem compartilham a genética. A Califórnia precisa de obrigar os pais a doarem os seus filhos”. E, já que estamos com a mão na massa, multipliquemos as cirurgias de “redesignação de género” em crianças ainda longe da puberdade (quando a sexualidade humana começa a ser definida).

2) A esquerda e o fundamentalismo islâmico tornaram-se best friends forever. Dois compadres que só têm em comum a aversão ao Ocidente (o inimigo do meu inimigo é meu raiozinho de sol), sobretudo os EUA, o grande Satã, e Israel, o  Satãzito. Se não é indiscrição, o que os ateus identitários (“A religião é o ópio do povo!”) pensam da Xaria? Da condição da mulher nos países árabes? De o ISIS mandar gays do alto de prédios no Iraque e na Síria, e de a homossexualidade ser criminalizada em Gaza? De que este ano o Parlamento do muçulmano Senegal, em votação unânime, dobrou a pena de prisão para os gays (10 anos)?

A iraniana Narges Mohammadi, Nobel da Paz em 2023, desde 1998 foi presa 14 vezes, condenada a 31 anos de prisão e 154 chibatadas (no Irão mais de 100 crimes são puníveis com açoites. A dor é tão excruciante que – sorte delas – algumas mulheres desmaiam depois de 3 ou 4). Tendo perdido 19 quilos, Narges não vê os seus dois filhos há 11 anos.

O que há nas mulheres que assusta tanto os fundamentalistas?  Os corpos delas, que precisam de ser cobertos, pois suscitam fitnah (palavra árabe que no “Corão” significa tentação e caos). Os olhos, os lábios e os cabelos, mas também os tornozelos e até as mãos (na Arábia Saudita usam luvas) –  num calor tórrido, com as burcas, elas vagueiam como se fossem negras tendas ambulantes. Mas há ainda o som feminino: mulheres rindo-se, credo! E o perfume delas, então? OK, o melhor é encarcerá-las no lar.

Quando em 1979 Khomeini chegou ao poder, baixou a idade do casamento da mulher para 9 anos (se aprovado pelo pai ou pelo avô paterno), institucionalizando a pedofilia. Em janeiro de 2026, as iranianas promoveram os maiores protestos da história do país, depois da morte de uma jovem que tinha sido presa pelo “uso incorreto do véu”. Centenas de hijabs foram queimados nas ruas, com cânticos como: “Odiar os homens não é feminismo. Não é por isso que lutamos”. Na sua cova, o esplêndido poeta persa Omar Khayyam (que adorava um tintol) certamente deu um like.

Parece anedota de humor negro, mas em 2026 a ONU elegeu o Irão para a comissão (CPC) responsável pelas políticas das mulheres e prevenção do terrorismo. Durante a votação, os EUA foram o único país a opor-se – os demais  permitiram a decisão por consenso. Na China, milhares de muçulmanos uigures da região de Xinjiang vegetam sem acusação formal nos Laogai, os campos de concentração que “reeducam através do trabalho”, acotovelados com presos políticos e criminosos comuns. Entretanto, no islamofóbico Ocidente, o presidente da Câmara de Londres é o muçulmano Sadiq Khan, e o de Nova Iorque o muçulmano Zhoran Mandani.

3) O antissemitismo. Dá um jeitão: atribuímos aos judeus todas as perfídias: plutocratas que manipulam a economia, a política, o clima, assassinam crianças e bebem o seu sangue. A partir de 1948, com Israel, essa caricatura ganhou uma localização geográfica. Os judeus são agora “colonialistas de assentamento”, que usurpam os nativos (em “Settler Colonialism”, Adam Kirsch refuta essa falácia antissemita). E depois que os judeus tenham lá vivido desde há 3 mil anos, e sido assolados por mais imperialistas que nenhum outro povo (assírios, babilónios, persas, macedónios, romanos, árabes, otomanos, ingleses, etc.) e que “Palestina” foi um rótulo que o imperador Adriano desenrascou para apagar a Judeia da história? E depois que, além do plano da ONU da partilha em dois estados em 1948, foram propostos aos palestinianos (que viam-se só como árabes) sucessivos acordos territoriais, sempre recusados – ao contrário de Israel (rodeado por 22 países árabes), que aceitou logo o que lhe calhou na rifa?

O “judeu” é um oxímoro: uns sacanas sub-humanos, peritos em roubar e mentir (o Holocausto nunca existiu!), e ainda por cima uns filhos da mãe proficientes que controlam o mundo, a ciência e as artes (Einstein, Freud, Chagall, Proust, etc.). Se não gostamos do socialismo, a culpa é deles (Marx e Trotsky não eram judeus?). Se não gostamos do capitalismo, também (quem são os usurários como os Rotschild?).

Claro que essa paixão entre talibãs e querubins woke tem tanto futuro como Romeu e Julieta. Numa teocracia, a Xaria manda em tudo: finanças, negócios, direito civil, direito de família, herança, comportamento sexual – os marmanjos são cidadãos de primeira classe, e as mulheres, crianças crescidas. Já para os identitários o que conta é a fluidez queer. Não pode correr bem.

Entretanto, qual o menu institucional do maior tiro no pé de sempre? A democracia liberal pressupõe um governo representativo, alternância no poder em eleições pluralistas em vez de partido único; que uma pessoa possa falar, praticar a sua religião, possuir propriedades, casar-se, discordar, votar e ser julgada como um indivíduo soberano; protocolos de debate, autocrítica, contratos, investigação científica e associação voluntária que viabilizam a vida moderna.

Se não é indiscrição, se a polícia for abolida, quem lidará com a violência e a lei do mais forte? Se as prisões forem abolidas, para onde irão os energúmenos predadores? Se as fronteiras forem abolidas, quem poderá entrar (ou sair), e como determinar direitos e deveres cívicos? Se o capitalismo for abolido, quem decide o que será produzido? Quem destinará casa, comida, energia e  saúde? Se Israel for abolido, o que acontecerá com as pessoas que lá vivem? Fornos, de novo?

Em suma: se a civilização ocidental for obliterada, o que vem aí? Algo como a China de Mao, cujos adolescentes fanáticos atacaram professores, templos, livros, a autoridade familiar e a fé religiosa em nome da cruzada ideológica? Ou como o comunismo soviético, em que os bolcheviques aboliram a propriedade privada e impingiram um partido-Leviatã cujo principal órgão era a polícia secreta com o seu Gulag? (Como gemeu Gorbatchov: “Os nossos foguetes chegam a Vénus. Mas os nossos frigoríficos não funcionam.”) Ou como o Camboja do Khmer Vermelho, que proclamou o Ano Zero, esvaziou cidades, rasgou o dinheiro e exterminou 2 milhões de cambojanos, de ¼ a 1/3 da população? Ou como a Coreia do Norte, cujo regime consegue ser mais medonho do que o penteado dos seus líderes?

O comunismo fez também test drive na Jugoslávia, Checoslováquia, Hungria, Alemanha Oriental, Roménia, Tanzânia, Albânia, Polónia, Vietname, Bulgária, Laos, Iémen, Somália, Congo, Etiópia, Moçambique, Zimbabue, Angola, Venezuela, Cuba e Nicarágua. Deu tudo para o torto: nicles de prosperidade, igualdade ou liberdade.

Conta Soljenitsin que, no Congresso do PCUS em 1937, o Estaline acabara de discursar e estava a ser ovacionado de pé pela plateia: «Os aplausos continuaram – 6, 7, 8 minutos! Eles estavam perdidos! Não podiam parar agora, até que tombassem em ataques cardíacos! No fundo do salão abarrotado, podiam trapacear um bocadinho, aplaudir com menos vigor, não com tanta ansiedade…9 minutos! 10! Loucura! Até ao último homem! Com o entusiasmo de faz de conta nas suas caras, olhando uns para os outros com ténue esperança, os líderes distritais continuaram a bater palmas até cair onde estavam, e serem carregados para fora em macas. Por fim, após 11 minutos de ovação, o diretor de uma fábrica de papel decidiu que já chegava. Parou de aplaudir e sentou‑se – um milagre! Graças a ele, toda a gente parou e se sentou. Naquela mesma noite, o diretor da fábrica foi mandado para a Sibéria por dez anos. Houve um pretexto para a sentença, mas no interrogatório foi‑lhe dito: “Nunca seja o primeiro a parar de aplaudir!”»

Lula lá terá as suas razões para alegar que não é de esquerda, mas hoje no Brasil a ortodoxia identitária reina. Em 2027, escolas e universidades – incluindo as privadas – serão obrigadas a não dar aulas nos dias do Mundial de Futebol feminino – o que não aconteceu no recente Mundial masculino. Acontece que as mulheres têm que amar o desporto-rei, pois são iguaizinhas aos homens, que para não serem misóginos também têm de idolatrar o futebol feminino como se elas fossem Cristianas Ronaldas. A Assembleia do Rio de Janeiro, à espera da lei nacional que criminaliza a misoginia (já votada por unanimidade no Senado), aprovou o uso de pulseiras eletrónicas cor de rosa para homens acusados de violência doméstica (agora sim as mulheres serão inexpugnáveis). A Defensoria Pública de Minas Gerais criou uma “Escola de Masculinidades” (no plural, pois masculinidades há muitas, embora nenhuma viril) para adolescentes delinquentes – o curso “visa desconstruir padrões”. Uma vereadora do PSOL (o Livre brasileiro) explicou ao país que os traficantes de drogas são “trabalhadores mega-explorados sem direitos garantidos”, e o Piauí aprovou uma lei que reserva vagas em contratos do Estado com empresas privadas para presos em regimes aberto e semiaberto.

Como gosto não se discute (Oscar Wilde: “Posso não concordar consigo, mas defenderei até à morte o seu direito de fazer figura de parvo”), após quase dois séculos do “Manifesto Comunista” o tal fantasma continua a rondar a Europa e o Ocidente, apesar do alerta de Orwell: “Durante 200 anos, serrámos, serrámos e serrámos o galho em que estávamos sentados. E, no fim, muito mais subitamente do que qualquer um previra, os nossos esforços foram recompensados ​​e caímos. Mas, infelizmente, houve um pequeno engano. O que havia lá embaixo afinal não era um mar de rosas: era um poço de lama cheio de arame farpado.”

Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão – e nunca a lula.