A Guerra Civil de Espanha começou há 90 anos. Foi no dia 18 de Julho, ou, mais precisamente, no dia 17, em Melilla, no Marrocos espanhol, precipitada por um evento fortuito e inesperado que até teve por protagonista um compatriota nosso, sargento do Tercio.
Por cá, na efeméride, confundiu-se o fundador e chefe da Falange, José António Primo de Rivera, com o pai, o general Miguel Primo de Rivera. E chamou-se ditador a José António, que não ditou coisa nenhuma, até porque esteve preso desde Março e foi fuzilado em Alicante em 20 de Novembro de 1936.
Mas já se sabe que, tanto na inteligência artificial como na estupidez natural, a ideologia e a paixão partidária cegam, e em todas as histórias, e notoriamente nestas da Guerra de Espanha, há “maus” muito maus – as direitas – e “bons” muito bons – as esquerdas. E, claro, há, de um lado, violência admissível, romântica, compreensível, e, do outro, violência inadmissível, desumana, crua, produto de pura maldade.
Na Guerra Civil de Espanha, a violência começou por ser da “romântica e compreensível”; e começou bem antes do levantamento militar de 18 de Julho, quando as esquerdas, logo a seguir à hoje discutível e discutida vitória eleitoral de Fevereiro-Março de 1936, começaram a ocupar “latifúndios”, a queimar igrejas e a matar padres.
Alianças radicais
Ora, na versão “correcta”, a violência generosa, humanitária e progressista da Esquerda acordou o tradicional egoísmo puramente malévolo das resistências à Direita.
A unidade da Esquerda resultava de uma convergência de forças políticas várias – um grande partido socialista radicalizado, os também numerosos anarquistas, um pequeno, mas disciplinado partido comunista, separatistas catalães e bascos e republicanos burgueses de esquerda.
Na Direita, havia igualmente uma colecção de tendências e movimentos: católicos da CEDA, monárquicos, divididos entre carlistas tradicionalistas (com o forte feudo de Navarra) e borbónicos liberais; e falangistas, nacional-sindicalistas que encarnavam o que de mais próximo havia do fascismo italiano – embora Mussolini e a Itália tivessem uma relação privilegiada com os carlistas, e não com os falangistas. E, claro, o núcleo militar conspiratório, a funcionar há algum tempo, também com diversas sensibilidades e facções.
A revolta falhada de Sanjurjo, em 1932, levara o general para o exílio em Portugal. Os conspiradores mais activos estavam ligados aos “Africanos”, os oficiais que tinham feito serviço militar activo nas campanhas de Marrocos, até à pacificação em 1926, no tempo do consulado de Miguel Primo de Rivera. O principal organizador da conspiração era o general Emilio Mola y Vidal, que fora director da inteligência militar e era um patriota conservador.
Assim, entre Fevereiro e Julho de 1936, reuniam-se as condições em Espanha para uma guerra civil de baixa intensidade, em que as milícias radicais de ambos os bandos se enfrentavam e se liquidavam mutuamente. Foi neste quadro que, na noite de 13 de Julho, em Madrid, um grupo de milicianos socialistas e guardas de assalto foi a casa do líder parlamentar da Renovación Española, José Calvo Sotelo, na Calle Velásquez, 89, e o raptou e assassinou. Era a modalidade do “paseo”, depois muito praticada pelos frente-populistas.
Foi o assassínio deste homem que liderava a direita nacional-conservadora que decidiu chefes militares ainda hesitantes, como o general Francisco Franco, comandante-geral das Canárias, a avançar para a rebelião.
A partir de 18 de Julho, os militares tentaram a sorte nas várias cidades importantes de Espanha: Madrid, Barcelona, Valência, Sevilha, Santander, Valladolid, Burgos, Pamplona. Em Madrid e em Barcelona o golpe falhou, também porque a Guarda Civil apoiou o governo, bem como a maioria dos generais e altos comandos. Assim, a revolta foi esmagada em Madrid, em Barcelona, em Valência e em Santander; mas triunfou na Corunha, em Valladolid, em Sevilha, em Marrocos e nas Canárias. De um modo geral, pode dizer-se que o triunfo ou derrota do movimento rebelde dependeram da afinidade existente com as populações civis. Em zonas rurais, como a Galiza, Navarra ou Castela, onde o catolicismo e o conservadorismo eram dominantes, ganharam as direitas. Em grandes cidades, como Madrid e Barcelona, com populações industrializadas e sindicalizadas, mobilizáveis pelos dirigentes da esquerda laboral, as direitas civis e militares perderam. E quem perde paga, isto é, na retaguarda, os perdedores foram encostados à parede.
A guerra dos mortos
Durante muitos anos, o número de mortos na Guerra Civil Espanhola foi fixado em um milhão. Era um número que convinha a vencidos e vencedores: uns exaltavam o peso e o sacrifício da derrota e da opressão, outros engrandeciam a vitória.
Em 1977, um historiador militar, Ramón Salas Larrazábal, no seu livro Perdidas de la Guerra, fazia a revisão – e a redução – do mítico “milhão de mortos”. Hoje, o número total de mortos nos mil dias da guerra (entre 18-7-1936 e 1-4-1939), fixado pelos estudiosos por comparação entre o número de mortos habitual e os números da guerra, é de 330.000. Desses, cerca de 220.000 morreram em combate e 110.000 foram executados na retaguarda. Segundo Martin Rubio (Paz, piedad, perdón y verdade: la represión en la guerra civil, una sintesis definitiva, 1997; Los mitos de la repressión en la guerra civil, 2005), os rebeldes militares executaram entre 47.000 e 48.000 pessoas durante a Guerra Civil; e quanto à repressão exercida pelos vencedores no pós-guerra, Miguel Platón, em La represión de la posguerra, situa entre 15.000 a 20.000 o número de dirigentes e militantes esquerdistas julgados e condenados por “delitos de sangue”. Quanto aos direitistas executados nas zonas governamentais, Martin Rubio estima que tenham sido entre 57.000 e 59.000.
Assim, não há uma grande diferença entre as vítimas de um e outro lado, cujo total andará pelos 110.000, isto é, um terço das baixas mortais totais, e bem longe do número de mortos na guerra civil entre Vermelhos e Brancos, na Rússia, entre 1918 e 1922.
Internacionalização ideológica
À partida, a Frente Popular ocupava mais território e tinha, nesse território, com as grandes cidades, mais população do que os “nacionais” de Franco (16 milhões vs 9 milhões).
Era um conflito marcadamente ideológico, como ficaria claro com a intervenção dos estrangeiros. Ou seja, sendo, essencialmente, uma guerra entre espanhóis, os contingentes estrangeiros foram decisivos no início – italianos e alemães para o transporte do grosso das tropas de Franco de Marrocos para a península; as Brigadas Internacionais para defender Madrid, quando Franco ali chegou no Outono de 1936, depois de uma fulgurante campanha a partir de Sevilha e Badajoz.
No Verão de 1936, Mussolini e Hitler enviaram meios para os “nacionais” – sobretudo para que as tropas de Marrocos atravessarem o estreito de Gibraltar, já que a revolta dos marinheiros da República que tinham matado os oficiais e tomado conta dos navios desequilibrara a arma naval contra a Direita. Além dessa facilitação de transporte, Mussolini mandou para Espanha o Corpo de Truppe Voluntarie e Hitler a Legião Condor.
À esquerda, os apoios viriam da União Soviética de Estaline que, pela Internacional Comunista, accionou as Brigadas Internacionais que salvaram Madrid no Outono de 36. O México anti-clerical do Partido Revolucionário Institucional também apoiou Madrid.
O Portugal de Salazar apoiou Franco, quando grande parte dos oposicionistas ao Estado Novo, eufóricos com a vitória da Frente Popular, se juntaram em Espanha. O atentado contra Salazar do anarquista Emídio Santana, em 4 de Julho de 1937, terá sido uma encomenda do governo espanhol. O Reino Unido e a França foram pela “não intervenção”.
O apoio português a Franco foi sobretudo diplomático e económico, já que, como demonstrou José Luís Andrade (Portugal and the Spanish War (1936-1939): Not wanting to fall short and not being able to go further, Vol.III, KDP, 2023), o número dos “Viriatos” tem sido tradicionalmente exagerado. Alguns dos portugueses que lutaram em Espanha fizeram-no, paradoxalmente, do lado contrário às suas convicções, já que eram refugiados políticos anti-Ditadura Militar que fugiram para Espanha e se alistaram na Legião. E na Legião combateram.
A Guerra de Espanha reflectia a radicalidade ideológica da Europa de então – o frente-populismo antifascista adoptado por Estaline e a III Internacional depois da vitória hitleriana na Alemanha em 1933 – e também de uma Espanha com grandes contrastes sociais e reivindicações separatistas.
Hoje, noventa anos passados, com um frente-populismo socialmente moderado e grandes escândalos de corrupção, o radicalismo ideológico fascismo-comunismo desapareceu. Nos anos 1960-1970, o franquismo criou uma classe média que domina socialmente a Espanha, diluindo os abismos sociais de 1936. O problema e a divisão hoje nascem sobretudo dos separatismos vasco e catalão, que cresceram depois da transição para a monarquia parlamentar e que acabam por ser necessários, em Madrid, para fazer maiorias.