À 1h22 desta quarta-feira, uma falha antiga, mas não conhecida, voltou a mexer-se sob o Alentejo. O movimento foi pequeno, mas suficiente para libertar a energia de um sismo de magnitude 3,7, com epicentro localizado preliminarmente a cerca de dez quilómetros a sul de Évora. Foi sentido, acordou pessoas e fez regressar uma pergunta que já tinha ficado no ar em dezembro, quando outro abalo ocorreu na mesma zona: que falha é esta?
A resposta ainda não tem um nome nem um traço desenhado num mapa. “Não temos nenhuma estrutura mapeada, identificada, caracterizada, que explique o sismo”, afirma Fernando Carrilho, chefe da Divisão de Sismologia do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, em resposta ao Observador.
A falha existe, evidentemente, porque um sismo não acontece do nada. Mas estará em profundidade e não deixa à superfície sinais que permitam aos geólogos reconhecê-la no terreno. Ou pelo menos não o fez até agora. “À superfície não identificamos nada. A neotectónica não reconhece, mas os sismos acontecem. Portanto, isso significa que há uma falha que os gera”, explica o sismólogo. Pode ser uma única estrutura ou tratar-se de um conjunto de falhas. O que o IPMA sabe, por enquanto, é que nenhuma delas está devidamente mapeada e caracterizada. São desconhecidas.

Mas não são as únicas. Fernando Carrilho recorda que situações semelhantes ocorreram em Arraiolos e em Sines: as falhas já lá estavam, naturalmente, mas não eram conhecidas como estruturas capazes de produzir sismos. Não apresentavam um traço claro à superfície. Foram os próprios abalos que as denunciaram. A de Arraiolos com o sismo de 2018 e a de Sines com os vários abalos entre 2024 e 2025.
É esse o ponto de partida para a investigação que se segue: encontrar, ou pelo menos delimitar melhor, a estrutura que se moveu sob Évora.
Está no sistema da falha de Arraiolos?
A zona sísmica mais conhecida do Alentejo interior fica a norte de Évora e abrange Arraiolos, Azaruja, Mora e Ciborro. Foi ali que ocorreu, a 15 de janeiro de 2018, um sismo de magnitude 4,9, sentido em grande parte do território continental, seguido por várias réplicas.
Já o epicentro, preliminar, do abalo desta quarta-feira encontra-se a sul de Évora. Questionado pelo Observador sobre a existência de uma continuidade estrutural entre o sismo de 2018 e o atual, Fernando Carrilho é taxativo. “Em termos mapeados, em termos de neotectónica? Não.” Nada a ver? “Nada, nada.”
Isto não significa que as duas zonas vivam em mundos tectónicos separados, mas sim que não existe uma falha cartografada que ligue os dois locais, nem evidência de que o sismo desta quarta-feira tenha ocorrido numa extensão da estrutura de Arraiolos. “Faz parte do sistema de falhas do Alentejo, certamente”, esclarece Carrilho. “Mas não temos nada mapeado à superfície que corresponda à origem deste sismo.”
A distinção é importante. O Alentejo não é atravessado por uma única falha contínua, como uma racha bem desenhada numa parede. A crosta é cortada por estruturas de diferentes idades, dimensões e orientações. Algumas cruzam-se, outras terminam, dividem-se em segmentos ou desaparecem sob camadas de sedimentos. E muitas foram formadas em épocas geológicas muito anteriores à atual configuração da Península Ibérica.
Podem todas estar sujeitas ao mesmo campo regional de tensões e, apesar disso, movimentar-se separadamente. Arraiolos será uma estrutura, a falha que provocou o sismo a sul de Évora poderá ser outra. O motor tectónico é seguramente o mesmo; a peça da crosta que cedeu pode não ser.
Então é uma nova falha?
Nova para os mapas, seguramente, mas nova do ponto de vista geológico, quase de certeza que não. “É uma falha desconhecida neste sentido: já existe há muito tempo, certamente, mas não está reconhecida à superfície”, explica Fernando Carrilho.
Dizer que o sismo “criou” uma falha seria enganador, porque a hipótese mais razoável é que tenha reativado uma estrutura antiga, já instalada na crosta, mas enterrada ou sem expressão reconhecível no relevo. Pode ter centenas de milhões de anos, o movimento é que aconteceu agora.
É assim que ocorrem muitos sismos intraplaca: a crosta conserva cicatrizes de colisões, separações de continentes, levantamento de montanhas e abertura ou fecho de antigos oceanos. Essas cicatrizes podem ficar imóveis durante períodos enormes. Depois, quando o campo de forças muda ou a tensão acumulada ultrapassa a resistência das rochas, uma delas volta a deslizar.
“Falhas preexistentes podem sofrer movimentação devido à acumulação destas tensões”, diz Fernando Carrilho. Em último caso, admite, as forças tectónicas também podem criar novas fraturas. Mas, estando Évora afastada da fronteira entre as grandes placas, essa não é a explicação mais provável. “A explicação mais razoável será reativar falhas preexistentes”, conclui.
Não se conhece ainda a geometria da estrutura. Nem a sua extensão ou orientação. Nem se o sismo resultou do movimento de uma única falha ou de uma pequena rede de fraturas em profundidade. Por enquanto, a prova da sua existência é o próprio sismo.
Mas já havia sismos naquela zona?
Sim. O abalo desta quarta-feira não ocorreu num ponto completamente quieto. “Nos últimos anos têm ocorrido vários sismos naquela zona, sempre de magnitudes pequenas”, afirma o chefe da Divisão de Sismologia do IPMA. Os focos são relativamente profundos e, por isso, tornam mais difícil estabelecer uma ligação direta com estruturas observáveis no terreno.
Este detalhe muda a leitura do episódio desta quarta-feira. O sismo de magnitude 3,7 não revelou que a região começou subitamente a tremer. Mostrou, com mais força do que os abalos anteriores, uma atividade que já existia e que ainda não foi associada a uma estrutura geológica bem caracterizada. A 15 de dezembro de 2025, o IPMA registou outro sismo, de magnitude 3,5, também descrito como tendo o epicentro a cerca de dez quilómetros a sul de Évora. Em outubro, um abalo de magnitude 2,5 tinha sido localizado a oeste-sudoeste da cidade.
Isto não basta para concluir que todos ocorreram na mesma falha. As referências divulgadas nos comunicados do IPMA são arredondadas: dois epicentros apresentados como estando “dez quilómetros a sul de Évora” podem, na realidade, ficar separados por vários quilómetros. Também podem ter profundidades diferentes ou resultar de movimentos com orientações distintas.
Será necessário comparar as coordenadas finais, as profundidades, os erros associados às localizações, a distribuição de pequenos sismos em redor e, quando os dados o permitirem, os respetivos mecanismos focais. O mecanismo focal funciona como uma espécie de impressão digital do sismo. Ajuda a perceber em que direção se moveu a falha e que tipo de movimento ocorreu: compressão, extensão ou deslizamento lateral. Sem essa informação, uma semelhança no mapa pode enganar.
A placa africana está a empurrar-nos?
De forma simplificada, sim. É, na verdade, o motor regional desta história. A Terra não tem uma crosta única e imóvel, como sabemos. A superfície está dividida em grandes placas tectónicas e em blocos menores, descritos como microplacas. Estas peças deslocam-se lentamente sobre materiais mais quentes e deformáveis do interior do planeta.
A Península Ibérica faz parte da placa euroasiática, mas encontra-se perto de uma das fronteiras tectónicas mais complexas do planeta. A sul e a sudoeste, a placa africana aproxima-se lentamente da Eurásia. Entre os Açores, Gibraltar e o norte de África, essa convergência não se concentra numa linha simples. Distribui-se por uma zona larga, feita de falhas, blocos e estruturas que acomodam o movimento de formas diferentes.
Daí a dificuldade em desenhar uma fronteira limpa no mapa. Não é como encaixar duas peças de um puzzle: há setores onde uma placa desliza lateralmente em relação à outra, há zonas de compressão, estruturas submarinas deformadas e blocos mais pequenos que também se movimentam.

É nesta região oceânica que se concentra grande parte da sismicidade mais forte capaz de afetar Portugal. Mas a força não fica toda junto à fronteira: parte das tensões transmite-se para o interior da Península, empurra e encontra falhas antigas prontas — ou quase prontas — a ceder.
Questionado sobre se as falhas do Alentejo estão sujeitas ao campo de tensões criado pela convergência entre África e Eurásia, Fernando Carrilho não hesita. “Sim. O campo de tensão é conhecido e tem uma validade regional, mas depois provoca efeitos distintos em falhas preexistentes.” Depois reforça: “O motor, aquilo que gera, é a mesma interação entre as duas grandes placas.”
África não está, evidentemente, a empurrar Évora como se deslocasse um objeto sobre uma mesa. O processo é muito mais lento, as placas avançam apenas alguns milímetros por ano. Mas fazem-no continuamente. Ao longo de milhares ou milhões de anos, a deformação acumula-se. As rochas aguentam, dobram-se numa fração quase impercetível. Mas a tensão aumenta, até que um ponto de fraqueza desliza de repente: e é esse salto súbito que gera o sismo.
O que é, afinal, uma falha, e como se pode esconder?
Uma falha é uma fratura da crosta terrestre ao longo da qual houve movimento entre dois blocos de rocha. Nem todas as fraturas são falhas: para o serem, tem de ter existido deslocamento. E nem todas as falhas estão ativas neste momento: algumas não se mexem há milhões de anos, enquanto outras produzem pequenos sismos sem nunca chegarem à superfície.
Também é enganador imaginar sempre uma falha como uma linha única, direita e contínua. Muitas são zonas de deformação com dezenas ou centenas de fraturas menores. Um “sistema de falhas” pode incluir segmentos paralelos, ramificações e estruturas enterradas que respondem de maneira diferente ao mesmo campo de forças.

É isso que Fernando Carrilho admite para a região de Évora. O sismo pode ter ocorrido numa falha isolada, mas também num conjunto de estruturas profundas que ainda não foi possível desenhar. A cartografia geológica regista as falhas identificadas no terreno, através do estudo das rochas, do relevo, de escavações, de perfis geofísicos e de outros indícios. A neotectónica procura perceber quais dessas estruturas apresentam sinais de movimentos geologicamente recentes e podem continuar ativas.
O problema surge quando a falha não chega à superfície. Pode estar coberta por sedimentos. Pode ter sido apagada pela erosão. Pode existir apenas em profundidade. Nesses casos, a sismicidade torna-se uma das poucas formas de a detetar. Foi o que aconteceu, segundo o sismólogo, em Arraiolos e em Sines. E poderá estar novamente a acontecer a sul de Évora: primeiro aparecem os sismos e só depois se tenta reconstruir a estrutura que os provocou.
Este sismo altera a dimensão da zona sísmica de Arraiolos?
Para já, não. Fernando Carrilho recusa interpretar o episódio como uma prova de que a falha de Arraiolos se prolonga até sul de Évora e o sismo desta quarta-feira também não basta, sozinho, para redesenhar a zona sísmica conhecida. “Não é um sismo único”, salienta. Já havia pequenos eventos naquela área. O que continua a faltar é a correspondência entre os hipocentros — os pontos em profundidade onde os sismos começam — e uma estrutura geológica reconhecida.
https://observador.pt/2018/01/16/a-placa-africana-esta-a-rachar-o-pais-e-mais-uma-duzia-de-duvidas-sobre-sismos/
A atividade de Ciborro–Arraiolos mantém as suas características próprias. Concentra-se a norte da cidade e é conhecida por uma sismicidade pouco habitual no interior de uma placa tectónica: sismos geralmente superficiais, na maioria inferiores a magnitude 4, por vezes organizados em sequências ou enxames. Foi ali que o sismo de 2018 chamou a atenção para uma falha que também não era, até então, claramente conhecida. Mas não existe uma ponte tectónica mapeada entre esse episódio e o abalo desta quarta-feira.
A ligação é mais ampla. Ambos pertencem à deformação do Alentejo e respondem ao mesmo campo regional de tensões. Isso não os transforma em movimentos da mesma falha.
Pode haver um sismo maior?
Pode. O IPMA não exclui essa possibilidade: “Podem acontecer sismos de magnitude maior”, afirma Fernando Carrilho. A frase do sismólogo precisa, porém, de ser lida até ao fim. O facto de ter ocorrido agora um sismo de magnitude 3,7 não é sinal de que esteja iminente outro mais forte. Os sismólogos não conseguem prever um terramoto indicando o local, a data e a magnitude. E um pequeno abalo não funciona, por regra, como anúncio de um grande.
“Não vamos dizer, pelo facto de ter acontecido este sismo desta magnitude, que possa ocorrer um muito maior”, adverte Carrilho. “Mas é possível ocorrerem sismos de magnitude superior? Sim, isso é possível”. A história sísmica da região de Évora contém episódios com efeitos mais importantes: o responsável do IPMA refere intensidades históricas que poderão ter atingido os graus VI ou VII, embora ressalve que se trataria de sismos moderados, abaixo dos grandes terramotos associados a Lisboa ou a Benavente.
Magnitude e intensidade não são a mesma coisa: a magnitude mede a dimensão física do sismo e a energia libertada na fonte, é um valor único para cada evento. A intensidade descreve os efeitos observados em determinado lugar: se as pessoas acordaram, se os objetos caíram, se surgiram fendas ou danos. Pode variar de local para local no mesmo sismo.
Um abalo moderado, superficial e muito próximo de uma cidade pode ser sentido com bastante clareza. Um sismo maior, mas distante e profundo, pode chegar mais atenuado.
Também não se pode determinar a dimensão máxima possível de um sismo sem conhecer a falha. Quanto maior for a área capaz de romper, maior poderá ser o evento. Neste caso, ainda não sabemos sequer qual é a estrutura, quanto mede ou como está orientada. É uma das razões pelas quais o estudo da sequência se torna importante.
Dizer que podem ocorrer sismos superiores não é lançar um alarme. É reconhecer que a magnitude 3,7 registada nesta quarta-feira não representa necessariamente o limite físico da região.
Foi uma réplica do sismo de dezembro?
Pode haver relação, mas ainda não está demonstrada. O sismo de 15 de dezembro de 2025 teve magnitude 3,5 e foi igualmente localizado, na comunicação pública do IPMA, cerca de dez quilómetros a sul de Évora. O desta quarta-feira foi ligeiramente mais forte e recebeu uma descrição geográfica semelhante.
Mas uma réplica não é definida pela proximidade a uma cidade. É um sismo integrado no reajustamento da área de rutura depois de um evento principal. Para saber se existe essa relação, é preciso verificar se os dois hipocentros estão efetivamente próximos, se as profundidades coincidem, se os mecanismos são compatíveis e se houve uma sequência de eventos entre ambos.
Sete meses não tornam a hipótese impossível, mas também não a provam. Há várias explicações em aberto. Os dois sismos podem ter ocorrido na mesma falha, podem ter partido segmentos diferentes de um sistema próximo, ou podem resultar de falhas distintas, todas comprimidas pelo mesmo campo de forças.
A informação disponível permite dizer que a área tem atividade sísmica repetida. Ainda não permite contar uma história única para todos os abalos.
Évora é uma zona de risco sísmico elevado?
Não está entre as regiões portuguesas de maior perigosidade, mas também não está livre de sismos. A atividade mais intensa do território continental concentra-se sobretudo ao largo do Algarve e do sudoeste português, perto da extensa zona de interação entre África e Eurásia. O vale inferior do Tejo também tem um peso importante no risco sísmico nacional.
O Alentejo interior apresenta, em geral, uma sismicidade mais fraca. Évora não costuma surgir ao lado do Algarve, de Lisboa ou do vale do Tejo quando se enumeram as regiões mais expostas. Isso não significa silêncio geológico. Os estudos feitos ao longo das últimas décadas descrevem uma atividade dispersa, geralmente moderada, mas persistente. A norte da cidade destaca-se a zona Ciborro–Arraiolos. A sul, os sismos recentes mostram agora outra concentração para a qual ainda não existe uma falha reconhecida à superfície.

O risco depende, além da probabilidade de ocorrer um sismo, da vulnerabilidade dos edifícios, da densidade populacional, do tipo de solos e da preparação das autoridades e da população. Um território com menos sismos pode continuar vulnerável se as construções forem antigas ou pouco resistentes.
Neste caso, o abalo de magnitude 3,7 não causou, segundo a informação inicial do IPMA, danos pessoais ou materiais. Isso não retira interesse ao episódio, pelo contrário. Sismos pequenos e moderados são precisamente uma das formas de estudar estruturas profundas antes de ocorrerem eventos mais significativos.
O que acontece agora?
Primeiro, refinar a localização. Os dados automáticos divulgados logo depois de um sismo são revistos à medida que os técnicos analisam os registos das diferentes estações. Pequenas alterações na posição ou na profundidade podem ser decisivas para aproximar o evento de uma falha conhecida — ou afastá-lo definitivamente.
Depois, será necessário procurar um alinhamento. Se existirem novos sismos de pequena magnitude, a sua distribuição em profundidade pode começar a desenhar um plano: esse desenho invisível é muitas vezes a melhor pista para localizar uma falha enterrada. O mecanismo focal poderá mostrar a direção do movimento. A cartografia do Laboratório Nacional de Energia e Geologia ajudará a verificar se existem estruturas antigas compatíveis. Perfis geofísicos, estudos do subsolo e futuras redes sísmicas mais densas poderão completar o retrato.
Questionado pelo Observador sobre se esse é agora o passo seguinte — tentar mapear a falha — Fernando Carrilho responde sem rodeios: “Exatamente”. Não será necessariamente fácil. Uma falha profunda pode continuar sem nome durante anos. À superfície, o terreno pode não mostrar nada. Nenhuma escarpa, nenhuma rutura, nenhum desvio evidente de um curso de água.
Em baixo, porém, as rochas já não estão no mesmo lugar. O sismo desta quarta-feira não criou uma nova cicatriz na crosta, mas trouxe de volta o sinal de uma cicatriz antiga que os mapas ainda não conseguem mostrar. E deixou aos sismólogos uma pergunta muito concreta: qual das estruturas escondidas sob o Alentejo voltou a mexer-se?
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