A notícia corria anteontem em rodapé estridente por todos os canais televisivos da especialidade: “Última hora: este ano, o primeiro-ministro não vai tirar férias”. Alguns acrescentavam pormenores: “Só vai gozar alguns fins-de-semana e talvez uns dias esporádicos, mas apenas se agenda o permitir e sem se ausentar do país!” Bravo. Palmas para nós. Fomos nós, colectivamente, que conseguimos este pináculo da exigência e da virtude: o chefe de governo como um mártir que publicita o seu sacrifício para gáudio da multidão. Que progresso civilizacional!
Há que começar, desde logo, pelo conceito de “notícia de última hora”: um comunicado de um gabinete a dizer qualquer coisa que não vai acontecer – isto é, mais ou menos a definição académica de não notícia. Se “O primeiro-ministro vai de férias” nunca seria notícia, e muito menos de “última hora”, quanto mais o oposto. Não há um complemento directo ou indirecto, uma circunstância, uma decisão activa, uma mudança de ideias: do género “Primeiro-ministro cancela férias devido a tempestade”, ou “Tendo em conta a grave situação política ou económica do país, a crise na educação ou as suspeitas sobre o ministro da Administração Interna”, “primeiro-ministro considera que não pode abandonar o barco”.
Só que não. Tanto quanto sabemos, está tudo bem. Dizem-nos que não há caos na educação, apenas “problemas” e que “o pior já passou”. Acerca de tudo o mais, o primeiro-ministro mantém “a confiança” em todos os ministros, pois-como-é-evidente. Então, se está tudo normal, porquê isto? Aguardamos colados ao ecrã mais desenvolvimentos: “Este ano, o primeiro-ministro vai aplicar protector 50”, “usar calção em vez de sunga”, “apanhar um ar, mas só ao fim do dia, pela fresquinha”. “Hoje, o primeiro-ministro é capaz de não jantar. Talvez só uma torradinha e um chá.” “Vai dormir com um olho fechado e outro aberto – e sempre preocupadíssimo com a nação.” Por favor, não nos escondam nada acerca da última hora da normalidade. Precisamos de actualizações constantes sobre o que não se está a passar. Com pormenores.
Claro que sabemos donde isto vem: do clamor generalizado com as três idas às Américas para ver a bola, mais o crime de ter aparecido a comentar assuntos sérios num festival de música (o desvario, meu Deus, a perdição). Mais a memória da rentrée política do ano passado, com o ecrã das televisões dividido entre os seus compagnons de route de gin na mão de um lado e o país a arder do outro. Assim, o primeiro-ministro mostra que aprendeu a lição. Os seus assessores mostram que aprenderam a lição e que conhecem o país em que vivem. É indiferente se está tudo melhor ou pior; temos é de dar o ar de sermos muito seriozinhos, muito trabalhadores, muito sofredores.
Em Portugal, não nos impressiona o mérito, nem o sucesso, nem os resultados – essas coisas, aliás, roçam todas o pecado: ser “resultadista”, “calculista”, “frio”, é tudo motivo para crítica; o que importa é o esforço, o sacrifício, correr muito, trabalhar muitas horas, ser o primeiro a chegar e o último a sair, mesmo que não se produza nada de memorável. O sofrimento é motivo de admiração para o português como para talvez nenhum outro povo do mundo. Não podemos ouvir uma história difícil que temos logo de tirar da cartola uma nossa, ainda mais dolorosa. Por isso, enquanto os ditadores noutras paragens exibiam a grandeza, o nosso fazia gala na pequenez. Pobrezinho, sozinho, sofredor, trabalhador – podia ser um ditador, mas era sério!, dizemos, sem ponta de ironia.
Agora, em democracia plena, achamos todos importante ter um chefe de governo que não descansa. Não se dá ao luxo burguês das férias. Que sabe, de antemão, que até poderá ser criticado pelos resultados, mas que haverá sempre alguém, pelos cafés e redes sociais dessa Lusitânia, que dirá: “mas ao menos não foi de férias!” Pobre homem. Sério. Trabalhador. O nosso modelo, o ideal que perseguimos com fervor religioso, é o do político que se ofereça inteiramente em sacrifício à nação, que não tenha nada – posses, ligações, interesses, passado, futuro –, que não se queixe, que acorde e adormeça no seu posto, estoicamente. Se tem alguma espécie de ideia para o país, caramba, também não peçamos a Lua.
Sucede que tirar férias é um direito básico de qualquer trabalhador desde que eles existem (os direitos do trabalhador). Que parar, descansar, é condição de sucesso óbvia para o resultado do trabalho de qualquer profissional. E que organização que se preze, já agora, pode e deve funcionar sem a presença constante do líder, ou então, algo vai muito mal nessa organização. Não foi por acaso que inventaram as elites gregas e romanas o ócio e que as férias só se institucionalizaram como hábito e direito entre as sociedades ocidentais mais de 2000 anos depois: ter tempo para o descanso, para a cultura, para a criação, para si mesmo, são sintomas de desenvolvimento civilizacional – e económico, já agora. Isto é, se o estado da nação é excelente, como ainda há dias nos garantiram, com níveis de emprego históricos, dívida e rating da dita em mínimos de anos, crescimento acima da média europeia e outras proezas, por que carga de água entende agora o primeiro-ministro que não deve tirar férias? Alguém se dà à maçada de explicar?
Se servir de consolo à tribo nesta ponta da Ibéria, vale a pena dizer que o mesmo ou pior se passa no desenvolvidíssimo Japão, onde a primeira-ministra se gaba de dormir entre zero a três horas desde que chegou à função, de ocupar o seu tempo nocturno a ler extensos dossiers e a responder a milhares de emails e que só neste feriado de 20 de Julho, a “segunda-feira feliz” (sim, os japoneses ainda têm feriados – que extravagância!), conseguiu um bocadinho livre para passar a ferro e dar uns pontos numa saia [sic].
É a maravilha que temos. A democracia apodreceu em demagogia. Desde Aristóteles que sabíamos dos riscos – mas quem teve tempo de o ler?