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Pickaxe Mountain, a fortaleza nuclear iraniana que sobreviveu a todos os ataques e que (agora) Trump promete destruir "com toda a força"

Nunca foi atingida e está fora do alcance das maiores bombas antibunker. Com galerias a 100m de profundidade, pode ser a chave da sobrevivência nuclear do Irão — e o maior dilema dos Estados Unidos.

Manuel Nobre Monteiro
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A instalação subterrânea de Pickaxe Mountain voltou ao centro da tensão entre Washington e Teerão depois de Donald Trump ter ameaçado ordenar um ataque ao complexo. Construído no interior de uma montanha, junto à fábrica de enriquecimento de urânio de Natanz, e protegido por dezenas de metros de rocha, o local é considerado um dos ativos mais sensíveis do programa nuclear iraniano, embora persistam dúvidas sobre as atividades desenvolvidas no seu interior.

“Vamos atacar essa zona, muito provavelmente, muito em breve e com toda a força. E eles não podem fazer absolutamente nada para o impedir”, afirmou o Presidente norte-americano, esta terça-feira, durante um encontro com o seu homólogo libanês, Joseph Aoun, reiterando que os Estados Unidos continuam focados em impedir que o Irão obtenha armas nucleares.

https://twitter.com/CBSNews/status/2079600633775034559

Dias antes, o líder dos EUA tinha reconhecido que os serviços de informações norte-americanos “não veem qualquer atividade” na instalação. “Estamos a acompanhar muito de perto a Pickaxe Mountain. Não vemos qualquer atividade. Sempre que ouvimos falar disso, destruímos. Mas provavelmente vamos atacar a Pickaxe muito em breve”, explicou, citado pela CNBC. Contudo, especialistas ouvidos pela imprensa internacional consideram que há atividade neste complexo e acreditam que poderá vir a desempenhar um papel central na recuperação da capacidade iraniana de enriquecer urânio.

Qual a importância da “Montanha da Picareta”?

Conhecida no Irão como Kuh-e Kolang Gaz La (expressão persa que significa “Montanha da Picareta”), a instalação situa-se junto ao complexo nuclear de Natanz, na província de Isfahan, a cerca de 220 quilómetros de Teerão. Natanz alberga duas das principais instalações de enriquecimento de urânio do país e foi repetidamente atacada por Israel e pelos Estados Unidos nos últimos meses. A Pickaxe Mountain, porém, nunca foi atingida.

Pouco se sabe sobre o que existe atualmente no interior da montanha. A agência de notícias Reuters nota que as imagens de satélite indicam que o complexo continua em construção e que as principais galerias subterrâneas estarão enterradas a cerca de 100 metros de profundidade, embora algumas estimativas apontem para zonas ainda mais profundas. Essa distância da superfície faz com que muitos analistas considerem que a instalação poderá estar para além do alcance das bombas antibunker mais potentes atualmente disponíveis no arsenal norte-americano.

“O complexo subterrâneo da montanha Kolang Gaz La ou Pickaxe tem como objetivo dar ao regime um local de armas nucleares que até mesmo a Força Aérea dos EUA teria dificuldade em destruir com as suas maiores bombas convencionais”, descreveu ao jornal The Telegraph o investigador Reuel Marc Gerecht, do think tank Foundation for Defense of Democracies (FDD).

https://observador.pt/2025/06/26/camaras-e-tuneis-mais-profundos-e-com-maior-protecao-a-fortaleza-nuclear-que-o-irao-esta-a-construir-sob-a-montanha-kolang-gaz-la/

A origem da instalação remonta a julho de 2020, quando uma explosão destruiu uma unidade de montagem de centrifugadoras avançadas em Natanz (máquinas que fazem girar gás de hexafluoreto de urânio a velocidades extremamente elevadas para enriquecer o urânio). O ataque, atribuído a Israel, provocou danos significativos numa das principais infraestruturas do programa nuclear iraniano. Poucos meses depois, Ali Akbar Salehi, então responsável pela Organização da Energia Atómica do Irão, anunciou que o país iria construir uma nova instalação “no coração da montanha“, destinada a substituir a fábrica destruída.

O objetivo oficial era, segundo a CNN, montar centrifugadoras avançadas. Esse processo seria indispensável para produzir combustível destinado a centrais nucleares, mas, quando o grau de enriquecimento é suficientemente elevado, também permite obter material para ser utilizado no fabrico de armas nucleares.

As imagens de satélite revelam, ainda, um complexo cada vez mais sofisticado. Segundo o Institute for Science and International Security (ISIS), o local dispõe de dois pares de entradas para túneis, uma extensa vedação de segurança construída em redor da montanha e várias estradas pavimentadas que ligam o complexo ao perímetro de Natanz. Desde os ataques israelitas e norte-americanos contra outras instalações nucleares iranianas, as entradas orientais dos túneis foram reforçadas com camadas adicionais de terra e betão e parcialmente aterradas. Como nota o Financial Times, isto pode dificultar eventuais tentativas de forças inimigas para bloquear as entradas através de bombardeamentos.

Para Sam Lair, investigador do Foreign Policy Research Institute, estes trabalhos de reforço demonstram que Teerão continua preocupado com a possibilidade de um ataque. “Podemos concluir que existem atividades em curso na Pickaxe Mountain que os iranianos pretendem manter, mas estão suficientemente preocupados com um eventual ataque para reforçarem as suas defesas”, afirmou à Reuters. O especialista considera que o reforço das entradas dos túneis “complicará ataques com munições penetrantes, como as bombas antibunker“.

Em abril de 2025, o ISIS relatou que foi detetado um novo perímetro de segurança em torno de Kolang Gaz La, algo que trouxe novas preocupações para os especialistas. Em declarações à Reuters, David Albright, presidente do instituto, reconheceu que se trata de um sinal de que os complexos de túneis poderão tornar-se operacionais em breve.

As imagens de satélite, por si só, não permitem determinar quando o complexo poderá entrar em funcionamento nem esclarecer se o plano original de instalar uma grande unidade de montagem de centrifugadoras continua de pé. O instituto admite, no entanto, que o Irão possa optar por construir uma unidade de menor dimensão capaz de apoiar um eventual programa de armas nucleares, caso decida reconstruir a sua capacidade de produção de centrifugadoras após os sucessivos ataques contra outras instalações nucleares.

Existe urânio enriquecido nas instalações?

Nos últimos meses, informações recolhidas pelos serviços secretos israelitas e divulgadas inicialmente pelo Wall Street Journal indicaram que o Irão terá transferido milhares de centrifugadoras para a Pickaxe Mountain no outono passado, numa tentativa de preservar o equipamento mais sensível do seu programa nuclear. A avaliação foi posteriormente partilhada com Washington, mas continua sem confirmação independente e nem Israel nem os Estados Unidos divulgaram provas que sustentem essa conclusão. Questionado sobre estas informações, Donald Trump respondeu apenas: “Acho que podem tê-lo feito. Não temos isso registado“.

Caso as suspeitas se confirmem, a Pickaxe Mountain poderá tornar-se na instalação mais importante do programa nuclear iraniano. Depois dos ataques lançados por Israel e Estados Unidos contra Natanz, Fordow e Isfahan (as três principais), que destruíram parte significativa da infraestrutura nuclear conhecida, a montanha poderá representar a principal oportunidade de Teerão reconstruir a sua capacidade de enriquecimento de urânio.

Durante a guerra de 12 dias, travada em junho de 2025, Israel atingiu os três principais centros nucleares iranianos e matou vários cientistas ligados ao programa atómico. Os Estados Unidos juntaram-se posteriormente à ofensiva, utilizando bombas antibunker contra as mesmas instalações. Donald Trump afirmou, na altura, que as capacidades nucleares iranianas tinham sido “obliteradas“, mas avaliações posteriores dos serviços de informações norte-americanos e de organismos internacionais concluíram que parte do programa permaneceu intacta, embora significativamente degradada. A Pickaxe Mountain ficou de fora destes ataques.

https://observador.pt/especiais/obliterado-ou-a-poucos-meses-de-uma-bomba-nuclear-como-ficou-o-programa-nuclear-iraniano-depois-da-guerra/

Segundo David Albright, a dimensão do complexo subterrâneo levanta dúvidas sobre a versão oficial apresentada pelo Irão. O especialista considera que a instalação parece ser “significativamente maior” do que seria necessário apenas para montar centrifugadoras, o que leva o instituto a admitir que o complexo possa vir a acolher também uma instalação de enriquecimento de urânio. “Quando se montam centrifugadoras, o passo seguinte é instalá-las numa central de enriquecimento”, afirmou, citado pela CNBC. Se essas máquinas estiverem efetivamente armazenadas no interior da montanha, acrescenta Albright, o Irão poderá dispor de um caminho para restaurar rapidamente a produção de urânio enriquecido, apesar dos ataques sofridos nos últimos meses.

As razões para Washington querer atacar o complexo

Esta profundidade ajuda a explicar a razão pela qual a Pickaxe Mountain é vista como um alvo particularmente difícil. Em vez de tentarem destruir diretamente as galerias subterrâneas, vários analistas defendem que uma eventual operação militar norte-americana teria como objetivo inutilizar a instalação, atacando as entradas dos túneis, os sistemas de ventilação, o fornecimento de eletricidade e outras infraestruturas essenciais ao funcionamento do complexo.

“Não se procura fazer uma bomba antibunker que atravesse a montanha. Isso simplesmente não é possível”, afirmou David Albright, acrescentando, contudo, que isso não significa que o complexo seja invulnerável. “Não está imune à destruição ou ao encerramento. Se [os iranianos] tiverem centrifugadoras lá dentro e não as conseguirem utilizar, isso já representa um avanço para impedir o Irão de construir armas nucleares”, explicou.

O próprio Institute for Science and International Security considera que a instalação apresenta vulnerabilidades. Embora reconheça que uma operação terrestre dos EUA seria o cenário mais eficaz para neutralizar o complexo, o instituto refere que a necessidade constante de ventilação, fornecimento de energia, refrigeração e acesso de pessoal cria pontos fracos suscetíveis de serem atingidos por ataques aéreos ou operações de sabotagem. Um relatório do Pentágono, divulgado após os ataques de 2025, concluiu que o programa nuclear iraniano terá sofrido um atraso de um a dois anos, mas sublinhou igualmente que essa avaliação continha um elevado grau de incerteza.

https://observador.pt/2025/06/25/relatorio-preliminar-dos-servicos-secretos-revela-que-ataques-norte-americanos-nao-destruiram-so-atrasaram-programa-nuclear-iraniano/

Outros especialistas admitem que, caso Washington conclua que os bombardeamentos não chegam para impedir o Irão de recuperar a sua capacidade nuclear, uma futura intervenção poderá assumir um formato diferente. Rebeccah Heinrichs, investigadora do Hudson Institute, considera que uma eventual operação terrestre teria maior probabilidade de envolver forças especiais encarregadas de entrar no complexo para apreender ou destruir material nuclear sensível, eventualmente em coordenação com Israel, do que uma invasão convencional.

Apesar desta hipótese, não existe qualquer indicação de que os Estados Unidos estejam a preparar uma operação deste tipo. A própria analista admite, ainda, que o facto de Washington não ter atacado a Pickaxe Mountain nas operações anteriores poderá significar que pretende preservar essa possibilidade.

A resposta de Teerão às ameaças de Trump

As declarações de Donald Trump sobre o complexo motivaram uma resposta imediata de Teerão. O quartel-general central Khatam al-Anbiya (principal base de comando militar e de engenharia das Forças Armadas do Irão) advertiu que qualquer ataque norte-americano contra instalações nucleares iranianas ou outros alvos estratégicos provocará uma escalada do conflito na região e prometeu um “ataque poderoso” contra as bases militares dos Estados Unidos nos países do Golfo.

Um órgão de comunicação próximo da ala mais conservadora do regime foi ainda mais longe, defendendo que o Irão deveria divulgar uma lista de infraestruturas estratégicas na região, nomeadamente nos Emirados Árabes Unidos, para atacar caso a Pickaxe Mountain seja bombardeada.

Apesar das suspeitas levantadas por Israel e por vários especialistas, Teerão continua a rejeitar todas as acusações de que está a construir armamento nuclear. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, garante que o Irão não possui instalações secretas de enriquecimento de urânio e insiste que todas as atividades nucleares têm fins exclusivamente pacíficos.

Também o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baqaei, acusou Washington de utilizar a Pickaxe Mountain como “um pretexto fabricado para agressão, destruição e sabotagem“, afirmando que “não ocorre qualquer atividade nuclear” no local. Ainda assim, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) continua sem acesso ao complexo. Rafael Grossi, o diretor-geral da organização, reconhece que o Irão não deu boas explicações sobre as atividades desenvolvidas na instalação nem esclareceu se existe material nuclear armazenado no seu interior.

É precisamente esta ausência de informação verificável que faz da Pickaxe Mountain um dos locais mais sensíveis do programa nuclear iraniano. Sem confirmação independente sobre o que existe no interior da montanha, mas perante indícios de que poderá vir a desempenhar um papel central na recuperação das capacidades nucleares de Teerão, o complexo tornou-se simultaneamente um dos ativos estratégicos mais valiosos do Irão e um dos principais alvos das ameaças de Donald Trump.

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