No filme Jogo Perigoso, de Mike Flanagan (2017), adaptado do livro com o mesmo título de Stephen King (Gerald’s Game, no original) e que ficou inédito nos cinemas portugueses, Carla Gugino e Bruce Greenwood interpretam Jessie e Gerald Burlingame, um casal que vai passar uns dias numa casa isolada perto de um lago. Como a relação está em crise, recorrem a uma fantasia sexual para tentar melhorar a situação conjugal, e o marido amarra a mulher à cama. Só que Gerald morre de súbito com um ataque cardíaco, deixando Jessie completamente imobilizada e sozinha, tirando um cão vadio de que tiveram pena e a que deram de comer.
De Mãos Atadas, do espanhol Ángel de la Cruz, baseado num livro do seu compatriota David Jasso, um dos mais destacados autores de terror, ficção científica e policiais do país vizinho, é um filme claramente reminiscente de Jogo Perigoso, até mesmo porque as referências a Stephen King são várias e óbvias. Por exemplo, o protagonista, Daniel Lonces (Jaime Lorente), um popularíssimo autor de livros de terror, tem uma mensagem no gravador do telefone fixo que remete para A Coisa-It; e o mesmo telefone fixo, comprado a bom preço num leilão online, terá pertencido ao autor de Carrie e Misery.
[Veja o “trailer” de “De Mãos Atadas”:]
https://www.youtube.com/watch?v=FPpWq5pQ4mw
Daniel acabou de se mudar para uma acolhedora vivenda com a mulher e o filho pequeno, tem um livro novo para entregar ao editor e está com bloqueio criativo. Por isso, e para sentir melhor o que a sua heroína, que foi raptada, está a passar, e chamar a inspiração, pede à mulher que o ate a uma cadeira, velha mas resistente, e lhe ponha uma mordaça e fita isolante na boca, combinando que dentro de um par de horas ela virá libertá-lo. Só que a mulher tem um inesperado e dramático acidente na cozinha, e Daniel fica preso à cadeira, sem poder chamar uma ambulância e cada vez mais desesperado, enquanto a criança, atarantada e desamparada, não para de correr a casa num choro desatado. E nem a assistente virtual lhe pode valer, porque não consegue falar, tão bem a mulher o amordaçou.
O filme não chega a ter 80 minutos de duração, e Ángel de la Cruz usa bem o pouco tempo de que dispõe, assinando um exercício cinematográfico de suspense, desconforto e angústia crescentes, fazendo-nos partilhar todas as fases do transe emocional e psicológico extremo que o escritor está a atravessar, e introduzindo alguns subenredos (envolvendo um entregador de encomendas, um casal de vizinhos, a amante de Daniel e a mãe de um rapaz muito impressionável que se suicidou após ler o último livro dele) que contribuem para o adensar e o esticar da atmosfera de tensão cada vez mais aflitiva em que a fita banha.
Se tivesse sido feito no seio da indústria cinematográfica americana, De Mãos Atadas seria um mais do que aceitável thriller de terror realista de série B, e revela a consistência, a confiança e a qualidade geral não apenas da produção mainstream, como também de títulos de género do cinema espanhol, do policial ao fantástico e ao horror sobrenatural. Ángel de la Cruz atrapalha-se apenas no final, que teria beneficiado em ser um pouco mais elíptico e menos moralizante e “explicado”. Tomáramos nós ter em Portugal um cinema comercial tão regular, homogéneo e variado, e tão preocupado com o público como existe em Espanha.