Discreto, nos bastidores, mas a exercer um soft power presidencial longe das câmaras. António José Seguro não esteve apenas de prontidão, como escreveu o Observador, mas manteve um papel ativo durante o fim de semana perante a crise dos exames nacionais. Entre a intervenção de dia 17 e a nota publicada a 21, a Casa Civil do Presidente da República, através de dois adjuntos, esteve em contactos contínuos com alunos, pais e professores, enquanto o próprio Seguro manteve contactos permanentes com o Governo. Depois de um fim de semana com alguma confusão, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, foi mesmo presencialmente a Belém. Houve ainda telefonemas, confirmou o Observador, entre Belém e a Fenprof. Seguro está empenhado em que o problema se resolva e evita entrar em choque com o Governo, mas admite subir o tom se a segunda fase correr mal.
Seguro foi monitorizando, quase hora a hora, o que se passava nas escolas. O Presidente da República quis fazer a sua própria avaliação, além daquilo que eram as notícias dos órgãos de comunicação social e as informações que eram cedidas pelo próprio Governo. É um traço do Presidente: pegar no telefone e tentar perceber, sem filtros, o que realmente se está a passar. Fez o mesmo, por exemplo, relativamente à resposta ao comboio de tempestades na Zona Centro, quer quando era candidato, quer já depois de ser Presidente.
A primeira declaração pública sobre os exames foi no dia em que terminava o prazo para a entrega das notas, 17 de julho. António José Seguro deu o primeiro puxão de orelhas público ao Governo quando disse que era “reconhecido por todos que o processo de avaliação não correu bem, e onde deveria haver estabilidade existe ansiedade e preocupação por parte de alunos, de famílias e também de professores”. Na Fundação Calouste Gulbenkian, o chefe de Estado colocou-se do lado dos principais prejudicados, dirigindo uma palavra de compreensão e de solidariedade para as famílias, para os alunos e para os professores.
Seguro colocou pressão no Governo, que àquela hora antecipava que as notas ficassem todas disponíveis ao início da noite, ao exortar a que “rapidamente se estabeleça uma relação de confiança com o processo de avaliação”. O Presidente da República avisava ainda que “nenhum aluno” deve ser “prejudicado pelos erros que ocorram”. E iniciava o pré-aviso de pressão para os exames da segunda fase: “É importante que a segunda fase, que vai começar na próxima semana, ocorra sem nenhum problema”. Era aquilo que em Belém se considera de “intervenção cirúrgica”.
No fim de semana voltaria à gestão dos silêncios e à discrição dos atos. Todos os contactos foram feitos de forma recatada, quer para o Governo quer para os agentes do setor. O mantra presidencial não mudou: “Foco na solução, não no conflito.” E sem mudar o ponto de partida: “Evitar o choque com o Governo”. Ao contrário do que chegou a circular nas redações, Seguro não chamou Luís Montenegro de urgência a Belém, guardando a sua próxima intervenção pública, se se justificasse, para depois da reunião semanal com o primeiro-ministro.
Se a segunda fase não correr bem, sobe o tom
Seguro esperou então pela reunião de terça-feira com Luís Montenegro, mas, como continuavam a existir alunos à espera de notas, decidiu fazer uma comunicação pública, por escrito, sobre o assunto. O Presidente da República começou por fazer um diagnóstico, negativo, da situação, ao dizer que “os acontecimentos registados nas últimas semanas no processo de realização e classificação dos exames nacionais geraram uma compreensível preocupação e ansiedade entre milhares de alunos, famílias e professores.”
António José Seguro alertava que se trata de “um momento particularmente importante da vida académica dos jovens” e, por isso, “o Estado tem o dever de assegurar que os procedimentos decorram com rigor, previsibilidade e confiança”. O chefe de Estado acrescentava que, “quando surgem falhas ou atrasos, é essencial que sejam reconhecidos, explicados e resolvidos com a maior celeridade e ponderação.” E dava a entender que o tem transmitido às partes envolvidas, em particular o Governo, desde a primeira hora: “Este tem sido o entendimento do Presidente da República desde o início do processo.” É o chefe de Estado a deixar claro que não acordou para o problema só na sexta-feira.
Seguro lembrava que foram “várias as reuniões” e os “contactos mantidos”, além da reunião com o primeiro-ministro. Depois de receber toda a informação, o chefe de Estado reafirmava o “sentido de exigência que deve pautar todo o processo, com a obrigatória salvaguarda do princípio de igualdade entre todos os alunos e a normalidade e previsibilidade de todo o sistema, em especial no que diz respeito ao concurso de acesso ao Ensino Superior.”
A parte mais relevante da mensagem surge quando o Presidente da República diz que “importa igualmente retirar desta situação as devidas lições, de modo que os processos de inovação tecnológica sejam acompanhados por mecanismos de prevenção e resposta capazes de evitar a repetição de constrangimentos desta natureza, designadamente no decurso da 2.ª fase dos exames.”
António José Seguro tem bem presente que a quem compete a composição do Governo é ao primeiro-ministro, mas isso não significa que coloque limites ao magistério de influência, pela palavra. Há até antecedentes de um Presidente praticamente demitir uma ministra em direto, como aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa e Constança Urbano de Sousa em 2017. Seguro não está nesse ponto, nem lá perto. O que não significa que se cale. O grande foco do Presidente, sabe o Observador, é perceber como corre a segunda fase. Se o processo voltar a falhar, Belém pode mudar de posição. Por muito que queira evitar o choque com o Governo de Montenegro, é possível que a crítica suba de tom em direção a Fernando Alexandre. E, aí, o método já não será a discrição, mas a reprimenda pública.
[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
