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(A) :: Quem é Mykhailo Drapatyi, o militar que travou os russos em Kherson e Kharkiv e agora é o novo chefe das Forças Armadas da Ucrânia?

Quem é Mykhailo Drapatyi, o militar que travou os russos em Kherson e Kharkiv e agora é o novo chefe das Forças Armadas da Ucrânia?

Liderou blindado que rompeu barricada pró-russa em Mariupol, libertou Kherson e estabilizou linha de Kharkiv. Drapatyi quer reformar Exército após 20 anos de combate e demissão por responsabilidade.

Manuel Nobre Monteiro
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De tenente de carros de combate ao comando das Forças Armadas. Aos 43 anos, Mykhailo Drapatyi tornou-se o novo chefe do Exército ucraniano, escolhido por Volodymyr Zelensky para substituir Oleksandr Syrskyi numa altura em que Kiev procura dar um novo impulso à condução da guerra contra a Rússia. A nomeação, anunciada na noite desta terça-feira, representa uma mudança geracional no topo da hierarquia militar e coloca à frente das forças ucranianas um oficial cuja carreira foi praticamente toda construída em combate, desde o início da guerra no Donbass, em 2014, até à invasão em grande escala lançada por Moscovo oito anos depois.

Descrito por militares e analistas como o representante de uma nova geração de comandantes, Drapatyi ganhou notoriedade no campo de batalha, mas também pela defesa de reformas internas e da descentralização do comando. A agência de notícias Reuters nota que é precisamente este perfil que o Presidente ucraniano pretende agora colocar à frente de um Exército desgastado e confrontado com a necessidade de se adaptar a um conflito em constante evolução e que já dura há cinco anos.

Poucas horas depois de ter sido anunciado como novo comandante-chefe das Forças Armadas, Drapatyi reagiu à nomeação através das redes sociais, agradecendo a confiança de Zelensky. “Agradeço ao Presidente da Ucrânia pela confiança, ao ministro da Defesa pelo seu apoio e às forças de defesa por esta nova etapa do meu serviço. Servir a Ucrânia sempre foi uma honra para mim e, durante uma guerra pela independência, isso significa uma responsabilidade absoluta”, escreveu.

Drapatyi deixou, ainda, uma palavra de reconhecimento ao seu antecessor, Oleksandr Syrskyi. “Cresci profissionalmente sob o seu comando”, afirmou, prometendo desempenhar as novas funções “com responsabilidade, foco e respeito pelas pessoas que hoje defendem o país”.

Nascido em 1982 em Kamianets-Podilskyi, no oeste da Ucrânia, Drapatyi ingressou ainda jovem na carreira militar, de acordo com a Associated Press. Formou-se em 2004 no Instituto de Forças Blindadas de Kharkiv e iniciou funções como tenente na 72.ª Brigada Mecanizada, na região de Kiev. Ao longo de mais de 20 anos de serviço, foi subindo de forma gradual na hierarquia militar, comandando unidades mecanizadas e operacionais até chegar aos mais altos cargos das Forças Armadas. É casado e tem dois filhos.

O comandante que ganhou notoriedade em 2014

A sua carreira mudou de dimensão no ano de 2014, quando a anexação da Crimeia pela Rússia e o início da guerra no Donbass colocaram o Exército ucraniano perante o maior desafio desde a independência do país, em 1991. Foi neste contexto que Drapatyi começou a construir a reputação que ainda hoje o acompanha.

Em maio desse ano, durante a operação militar para recuperar Mariupol, o novo chefe das Forças Armadas comandou uma coluna blindada encarregada de resgatar agentes da polícia ucraniana cercados pelas forças pró-russas. A missão ficou marcada pelas imagens de um carro blindado a atravessar uma barricada sem abrandar, com Drapatyi no interior do veículo. O episódio, segundo o The Telegraph, tornou-se um dos símbolos da resistência ucraniana nos primeiros meses da guerra e projetou o então oficial para o panorama militar nacional.

https://twitter.com/nexta_tv/status/2079672768262754491

Poucos meses depois, voltou a destacar-se. Cercado com centenas de militares na zona de Izvaryne, junto à fronteira russa, Drapatyi liderou uma operação que permitiu a retirada de cerca de 260 soldados e mais de 30 carros militares através de um território controlado pelas forças russas, sob intenso fogo de artilharia.

Sem qualquer rota de fuga segura para o interior da Ucrânia e com os recursos esgotados, o Exército ucraniano foi forçado a realizar uma retirada tática inédita através da própria fronteira da Rússia para evitar a aniquilação total. Este recuo resultou na perda definitiva do posto de controlo fronteiriço de Izvaryne, abrindo um corredor logístico que permitiu o abastecimento contínuo de armas e combatentes pró-russos a partir de Moscovo, consolidando o domínio na região de Lugansk até à invasão em larga escala. Este recuo, refere o Kyiv Post, consolidou a imagem de um comandante disposto a assumir riscos para salvar os seus homens.

"Um Exército em que os comandantes assumem responsabilidade pessoal pela vida dos seus homens é uma força viva. Um Exército em que ninguém é responsabilizado pelas baixas está a morrer por dentro".
Mykhailo Drapatyi, junho de 2025

Mais tarde, na mesma posição, foi transferido para as regiões de Avdiivka, Yasynuvata e Bakhmut, todas estas localidades na província de Donetsk, numa altura em que a guerra ainda estava circunscrita ao Donbass. Abandonou temporariamente a carreira militar e decidiu estudar, em 2019, na Universidade Nacional de Defesa Ivan Chernyakhovsky. A invasão da Ucrânia pelo Kremlin motivou o seu regresso à linha da frente.

A guerra em grande escala consolidou-o

Quando Moscovo lançou a invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, Drapatyi já era um dos mais experientes soldados do Exército ucraniano. Nos primeiros meses de guerra, foi destacado para a defesa de Kryvyi Rih, cidade considerada estratégica para impedir um avanço russo em direção ao centro da Ucrânia. A resistência organizada pelas forças sob o seu comando contribuiu para travar esta ofensiva de Moscovo.

Mais tarde assumiu responsabilidades na frente sul, liderando o agrupamento militar que participou na contraofensiva que permitiu recuperar a margem ocidental da região de Kherson. A operação representou uma das maiores vitórias militares de Kiev desde o início da invasão e reforçou a confiança da liderança política nas capacidades de Drapatyi.

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Em maio de 2024, foi novamente chamado para uma das frentes mais críticas. A Rússia tinha lançado uma nova ofensiva na região de Kharkiv e as tropas ucranianas enfrentavam dificuldades para conter o avanço do inimigo. Drapatyi assumiu o comando das operações e conseguiu estabilizar a linha da frente, impedindo uma progressão mais profunda das forças russas.

O desempenho nesta operação levou à sua nomeação como comandante das Forças Terrestres, tornando-se o mais jovem militar a ocupar um dos cargos mais importantes da estrutura do Exército ucraniano. Mais tarde seria colocado à frente das Forças Conjuntas, responsáveis pelas ações militares no nordeste do país.

Ao contrário de muitos dos oficiais formados ainda na tradição militar soviética, Drapatyi construiu a imagem de um comandante favorável à inovação e à adaptação constante. Enquanto líder das Forças Terrestres promoveu alterações aos sistemas de recrutamento e treino, defendeu uma maior autonomia para os comandantes no terreno e procurou reduzir a burocracia na cadeia de comando, argumentando que a rapidez de decisão é decisiva num conflito como o que a Ucrânia enfrenta.

https://observador.pt/2024/11/29/zelensky-substitui-comandante-do-exercito-e-nomeia-militar-que-esteve-na-defesa-de-kharkiv/

Drapatyi também incentivou uma utilização mais intensiva de drones, sistemas não tripulados e novas tecnologias, defendendo que a superioridade tecnológica pode compensar a inferioridade numérica das forças ucranianas. A aposta na responsabilização dos comandantes foi outra das marcas da sua liderança.

Na semana passada, poucos dias antes de ser nomeado comandante-chefe, voltou a insistir na necessidade de reformar as Forças Armadas. “Acredito nas Forças Armadas ucranianas, capazes de aprender, desenvolver tecnologia, proteger as pessoas e permitir que os comandantes assumam a responsabilidade pelos resultados”, escreveu numa publicação no Facebook.

A demissão que reforçou a sua imagem em 2025 e o novo desafio

A defesa desta cultura de responsabilização ganhou especial significado em junho de 2025. Depois de um ataque russo contra um centro de treino militar que matou pelo menos 12 soldados e feriu dezenas de outros, Drapatyi apresentou a sua demissão do cargo de comandante das Forças Terrestres, assumindo a responsabilidade pela tragédia.

Na mensagem em que anunciou a saída, afirmou que um comandante não podia fugir às consequências dos erros da instituição. “Um Exército em que os comandantes assumem responsabilidade pessoal pela vida dos seus homens é uma força viva. Um Exército em que ninguém é responsabilizado pelas baixas está a morrer por dentro”, escreveu, citado pelo Ukrainska Pravda.

A decisão surpreendeu muitos ucranianos e foi interpretada por vários analistas como um gesto pouco habitual numa instituição onde as demissões por responsabilidade política são raras durante um conflito armado. Pouco tempo depois, Zelensky voltou a confiar-lhe funções operacionais, nomeando-o comandante das Forças Conjuntas.

É agora este percurso que leva Drapatyi ao topo da hierarquia. Ao escolhê-lo para substituir Oleksandr Syrskyi, Zelensky aposta num comandante-chefe cuja autoridade assenta sobretudo na experiência adquirida no campo de batalha e na defesa de uma grande modernização das Forças Armadas.

“Defini com Mykhailo Drapatyi as tarefas que devem ser implementadas num futuro próximo e a médio prazo. As operações das Forças de Defesa da Ucrânia estão em curso e deverão prosseguir de forma estável”, referiu o Presidente ucraniano esta terça-feira durante o seu discurso diário.

De acordo com o Governo, a missão que Mykhailo Drapatyi tem pela frente passa por reorganizar o Estado-Maior, acelerar as reformas do Exército, melhorar os sistemas de mobilização, reforçar a integração de novas tecnologias e preparar a resposta ucraniana para uma nova fase da guerra. Mais do que a substituição de um comandante, a escolha de Drapatyi representa a aposta de Kiev numa geração de oficiais moldada por mais de uma década de combates contra a Rússia (desde a anexação russa da Crimeia em 2014), para quem a inovação e a responsabilização dos chefes são condições essenciais para enfrentar um conflito já desgastado.

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