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Luís Represas (1956-2026): cantor português, de qualquer chão e tempo

Compositor e voz inconfundível, preparava espetáculos nos Coliseus de Lisboa e Porto para assinalar 50 anos de carreira. Deixa obra que marcou gerações, do Trovante a "Feiticeira" ou “Timor".

Joana Moreira
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Cabelo comprido, sorriso afável e uma voz de timbre inconfundível. Luís Represas, um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa, que se revelou enquanto vocalista do grupo Trovante e depois assumiu uma carreira em nome próprio, morreu esta quarta-feira, aos 69 anos. Preparava-se para assinalar meio século de carreira com espetáculos agendados a solo nos Coliseus de Lisboa e do Porto no próximo ano, mas acabou por sucumbir a um cancro do pulmão em fase avançada.

Nascido em Lisboa a 24 de novembro de 1956, Luís Paulo Fontes Represas despertou para a música cedo. Não adivinhava que a sua adolescência, vivida nos corredores do Liceu Pedro Nunes, teria como pano de fundo as intensas transformações do pós-25 de Abril. “Só quem fosse amorfo ou vegetal é que não percebia aquilo que se passava à sua volta”, chegou a dizer ao semanário Expresso. “É óbvio, até para alguém que era profundamente despolitizado como era até aí. Comecei a partir daí, pelo menos, a reunir ideias na minha cabeça”.

Naquele liceu que o próprio recordava como “colmeia”, acabaria eleito porta-voz da LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária), movimento de oposição ao Estado Novo que, tendo nascido para a ação armada contra o regime, rejeitou o recurso a atos terroristas. “Éramos seis. Observávamos aquilo que se estava a passar. Não tínhamos uma intervenção política como tinham os outros. Nós não éramos os guardiões da tranquilidade, mas gostamos de ter evitado que algumas coisas mais graves tivessem acontecido”, recordou na mesma entrevista.

A opção de seguir Medicina findo o ensino secundário acabaria por ser descartada, com uma disciplina a ditar o que o contexto do país e a urgência da arte viriam a corroborar. “A matemática escolheu por mim e tudo o que aconteceu no país depois de 74 decidiu por mim. A música caiu-me no colo.”

O ponto de viragem definitivo chegou no verão de 1976. Em Sagres, no Algarve, cinco jovens de férias e mochila às costas resolveram dar forma a uma banda: os irmãos Luís e João Nuno Represas, acompanhados por João Gil, Manuel Faria e Artur Costa (a quem se juntariam mais tarde Fernando Júdice, José Martins e José Salgueiro). Nascia o Trovante, assim, no singular.

Haviam-se conhecido na União dos Estudantes Comunistas (UEC), a ala estudantil do PCP. Um caldeirão que não é de somenos, pois foi essa ligação que permitiu à recém-formada banda atuar em palcos e festivais internacionais de relevo na Checoslováquia, na RDA, na Bulgária e em Cuba, nomeadamente no Festival Mundial da Juventude de 1978. “Tivemos contactos com públicos de todo o mundo em formato condensado. Isso abre-te os horizontes e a vertente criativa de uma forma incrível. A génese do Trovante está muito aí… Muito mais fundamentalmente com o berço cultural e da música e das palavras do que propriamente de termos nascido num ambiente político”, disse Luís Represas também ao Expresso.

O tempo levá-los-ia a fazer canções menos comprometidas e a conotação partidária ia-se afastando do Partido Comunista, sem conflitos, recordou. “Começaram a dizer “já não são os mesmos”. E não éramos. Mas que fique claro que termos ido a esses festivais internacionais, na Bulgária, na Checoslováquia, em Berlim, foi fundamental para o nosso crescimento. E isso aconteceu porque, de facto, estávamos próximos do PCP. É uma coisa que não esquecemos. Também fomos a Cuba, ao festival de 1978. Não olhamos para isso com desdém, antes pelo contrário”, disse numa entrevista em 2025.

Numa entrevista em 2022, Represas recordou como Álvaro Cunhal, então secretário-geral do partido, reagiu quando lhe sussurraram que a banda andava a distanciar-se: “Alguém se chega ao pé do Cunhal e diz: ‘A rapaziada do Trovante anda a portar-se mal’. Com a sua inteligência e alma de artista, disse: ‘Eles são jovens, deixa-os voar.'”

E voariam, cruzando a tradição da trova com o pop-rock moderno, um rigor vocal apurado e o cuidado minucioso com a palavra. Em menos de nada, afirmavam-se como um dos maiores fenómenos da música portuguesa. Álbuns como Em Nome da Vida (1979), Baile no Bosque (1981), Cais das Colinas (1983), Trovante 84 (1984), Sepes (1986), Terra Firme (1987) e Um Destes Dias… (1990) marcaram a época. Temas como “Perdidamente” (com poema de Florbela Espanca) e 125 Azul transformaram-se em hinos geracionais.

A carreira a solo de Represas podia ter-se proporcionado antes, como confessou à Blitz em 2025. “Antes dessa fase, quando o Trovante ainda estava bem, saudável e recomendava-se, tive da parte da editora contactos no sentido de fazer um disco a solo. E eu dizia “não, não faço”. Parecia-me estranhíssimo. A minha resposta era sempre a mesma, já estava em piloto automático: “Se a música que gosto de fazer está no Trovante, para que é que vou fazer a mesma música para a porta ao lado?” Eu não queria fazer outra música, mas havia, de facto, essa pressão”.

Foi só quando a banda arrumou as botas que o cantor se permitiu voar a solo. “No meu caso, foi fundamentalmente quando se disse ‘acabou’. Quando isso acontece, há, de facto, um período de orfandade: ‘O que vou fazer da minha vida? Vou dedicar-me ao Xafarix? A fazer o quê? Não sei!’ De repente, achei que podia começar a fazer canções, mas sentindo sempre que não estava fora da música que sempre gostei de fazer. Vou buscar novos parceiros e, cheio de medo, começo a juntar umas notas com outras e a escrever. Mas foi um processo. Tive de dizer: ‘Não, eu tenho 16 anos de experiência para trás e são esses 16 anos que vou pôr em cima da mesa.’ Não foi um ‘uau, estou livre, vou fazer coisas’.”

Em 1993, viajou para Havana para gravar o seu primeiro álbum em nome próprio, Luís Represas. O disco revelou a sua paixão pela música cubana e deu ao país o êxito Feiticeira, gravado em dueto com o lendário Pablo Milanés. Seguiram-se trabalhos como Cumplicidades (1996), A Hora do Lobo (1998), Código Verde (2000, gravado em Espanha), Reserva Especial (2001) e Fora de Mão (2003). O seu 15.º e último disco de estúdio, Miragem (2024), trouxe uma faixa-título cuja composição havia começado mais de uma década antes com o músico Ricardo Leão.

Paralelamente aos palcos, Represas foi empresário e homem da noite. Em 1986, fundou o Xafarix, um bar histórico no bairro de Santos, em Lisboa. Conhecido como “o bar do Luís Represas”, o espaço, decorado com os discos de ouro e platina atribuídos ao Trovante, manteve-se aberto durante quatro décadas como um bastião de promoção de música ao vivo.

O grito por Timor-Leste e a consciência cívica

A intervenção pública de Represas esteve sempre associada a causas humanitárias. Em 1985 integrou a gravação de Abraço a Moçambique, canção que reuniu dezenas de artistas nacionais contra a fome no país africano. Na mesma altura, foi convidado por José Afonso para cantar o tema Agora no derradeiro álbum, Galinhas do Mato.

Contudo, uma das suas canções mais impactantes surgiria no último disco do Trovante, Timor. Inicialmente composta para a banda sonora do telefilme Flores Amargas (1989), de Margarida Gil — sobre um acampamento de refugiados timorenses no Vale do Jamor —, a música acabou reivindicada pela luta pela independência de Timor-Leste. Quando as milícias e as forças indonésias espalharam o terror no território após o referendo de 1999, a canção de Represas tornou-se o hino da solidariedade do povo português e, um ano depois, o artista acabaria mesmo por acompanhar o Presidente da República, Jorge Sampaio, numa visita ao território recém-libertado, cantando Timor perante multidões emocionadas. O papel valeu-lhe a condecoração com a Medalha da Ordem de Timor-Leste, concedida pelo Presidente Taur Matan Ruak.

“Esta canção não foi uma encomenda. Aconteceu. Foi uma reação e não só uma reação, foi abraçada e aconteceu-lhe isso. […] A canção Timor deixou de me pertencer no dia em que as pessoas a cantaram nas ruas”, lembrou à Rádio Observador em 2024, numa entrevista em que se referia a uma canção sua como verdadeiramente ativista. Referia-se ao tema Prece, do álbum Fora de Mão (2003), em que faz um apelo direto à urgência climática (“Os campos desertos de gente / No mar já quase não se vê água / No céu o ar morre de quente…”). Em 2005, o Estado português atribuiu-lhe o grau de Comendador da Ordem do Mérito.

A busca da voz e da palavra “mastigada”

Zeloso da língua portuguesa, Luís Represas fazia da palavra o centro do seu trabalho criativo. “Eu dedico uma enorme atenção e bastante tempo a mastigar as palavras, as letras dos poemas. E a dar-lhes o tempo e a divisão para a leitura auditiva ser o mais clara possível”, admitiu ao jornal Público.

Sobre o impacto da idade na sua capacidade vocal, em 2024, falava na Rádio Observador com total desassombro: “Igual igual não está. Claro que as coisas mudam um bocadinho, as rugas que vão aparecendo, e há rugas boas que aparecem, na voz também. […] A voz tem essa particularidade, de te acompanhar na vida, se for tratada como deve de ser… Todos nós, que abraçamos as artes, o que ansiamos sempre e mais cuidamos é termos a nossa identidade.”

Nos últimos anos, Luís Represas envolveu-se em projetos culturais além da música. Em 2010, estreou-se como escritor no universo infantojuvenil com o livro A Coragem de Tição (Dom Quixote), uma narrativa passada no fundo do mar que aborda a amizade e a entreajuda, que integra o Plano Nacional de Leitura. Mais recentemente, fazia o programa Língua Mãe, da Sociedade Portuguesa de Autores, na CMTV, entrevistando criadores lusófonos.

Após o fim da banda em 1992, Luís Represas defendeu reiteradamente em entrevistas que o ciclo do Trovante estava encerrado e que o seu foco absoluto era a afirmação da carreira a solo, recusando a ideia de um regresso comercial da banda. Aceitaria reunir o grupo em momentos pontuais com valor simbólico, primeiro a convite do Presidente Jorge Sampaio em 1999 no então Pavilhão Atlântico, e mais recentemente, em 2026, para celebrar os 50 anos de carreira do coletivo.

Sempre discreto em relação à vida privada, Luís Represas foi casado com Maria Cristina Thorbjornsen, com quem teve dois filhos: João e Carolina. Mais tarde, casou-se com a jornalista e apresentadora Margarida Pinto Correia, de quem teve mais dois filhos: Nuno e José Alberto (o casal separou-se em 2013). A veia artística da família manteve-se viva através do filho Nuno Represas, que seguiu a carreira de ator, integrando o elenco da peça Clube dos Poetas Mortos, atualmente em cena no Teatro da Trindade, em Lisboa.

Sabe-se que era sócio e adepto fervoroso do Belenenses, pois fazia da paixão pela Cruz de Cristo uma marca pública, tendo mesmo atuado na Gala do Centenário do clube em 2019. Numa nota de pesar, a direção do emblema do Restelo recordou-o como alguém que respondeu sempre ‘de forma generosa, voluntária e desinteressada aos chamamentos do Belenenses’.”

A notícia da sua morte provocou, de resto, um sentimento imediato de perda nacional. Numa nota pública acompanhada por uma fotografia tirada nos bastidores do concerto na MEO Arena, o Presidente da República, António José Seguro — de quem Represas fora apoiante aquando das eleições presidenciais no último ano — reagiu a partir de Cabo Verde: “Há vozes que não pertencem apenas a quem as canta. Pertencem ao tempo, à memória e ao coração de um povo. Hoje perdi um amigo. Choro a sua partida… Partiu o homem. Ficou a voz.” Também o primeiro-ministro e a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, prestaram tributo a “uma das maiores referências musicais do país”.

Luís Represas parte deixando um acervo lírico imune ao tempo. Das canções de intervenção cívica às baladas românticas que embalaram memórias de várias gerações, a sua obra imiscuiu-se de forma definitiva no tecido da cultura popular portuguesa. As suas melodias não só ajudaram a redefinir a música de autor, como se entranharam no quotidiano de um país inteiro, através das bandas sonoras das grandes novelas televisivas e transformando-se em temas cujas letras quase todos os portugueses sabem de cor e arriscam cantar à primeira nota. A sua voz continuará a ser, exatamente como ambicionou ao longo de meio século de carreira, profundamente inconfundível.

[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]