Como quase todas as áreas da experiência humana, também a música vive hoje em dia um processo de metrificação – tudo é medido e o sucesso de cada empreitada depende da grandeza dos números alcançados. Taylor Swift lança um disco e de imediato há um texto a dizer-nos que os X milhares de milhões de escutas da canção Y são um recorde; o número de seguidores de cada artista no Instagram é constantemente lembrado; uma digressão é boa se tiver muitas datas e, acima de tudo, se cada sala ou estádio por onde passar tiver muitas dezenas de milhar de pessoas a assistir.
O próprio discurso sobre a música mudou: tudo agora é extraordinário e urgente. Antes, as publicações editavam críticas que não raro arrasavam artistas queridos do público. Agora, as mesmas publicações avisam-nos que temos de ir já ver o novo vídeo de sabe-se lá que, e que nem vamos acreditar no outfit que fulaninha ou fulaninho usou no seu concerto, ontem à noite, numa qualquer paragem da digressão.
No meio deste inferno da grandiloquência, existem os Belle and Sebastian, que sempre foram uma espécie de antídoto contra a pompa e sempre pareceram viver num anti-estrelato menos deliberado que natural: uma banda interessada em fazer canções e seguir a sua vida, sem perder semanas a ensaiar coreografias para os concertos, muito menos interessada em gastar pipas de massa em vídeos.
De acordo com a bitola das métricas atuais, o concerto desta terça-feira à noitedos escoceses no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, não deve ter sido um sucesso: a casa estava razoavelmente cheia, mas era possível circular sem andar aos encontrões com ninguém; as bancadas estavam razoavelmente vazias; não parecia estarmos a viver propriamente um clima de apoteose (e hoje tudo tem de ser apoteótico).


Esta digressão tinha uma particularidade: Tigermilk e If You’re Feeling Sinister, os dois primeiros álbuns dos B&S, saíram em 1996, pelo que fazem agora 30 anos. A digressão celebra-os, pelo que se inclui em mais uma moda contemporânea, a do revivalismo, que leva a que bandas que já acabaram voltem para mais uma digressão (os Pavement são um exemplo). Sendo que os B&S nunca acabaram, e a digressão – de que Lisboa foi a última data – tem um aspecto curioso: numa noite eles tocam Tigermilk completo, na seguinte tocam If You’re Feeling Sinister completo. A nós calhou-nos If You’re Feeling Sinister e ainda bem – apesar de ser o segundo álbum da banda. foi o primeiro que ouvi e aquele com que estabeleci uma relação emocional mais funda.
E quando digo que tocam o disco na íntegra é mesmo ipsis verbis, seguindo o alinhamento do disco original. Na altura não houve assim tanta gente a ouvir isto, e os B&S tornaram-se uma banda de culto apelidada de twee, sendo esta uma referência ao lado ameninado de cada membro: em vez de casacos de cabedal usavam casacos de malha, e as meninas usavam ganchinhos no cabelo. Ninguém parecia ser um macho alfa, antes gente que passava as tardes a ler livros e que certamente tinha alguma dificuldade de sociabilização.
Talvez o público que os B&S encontraram na altura tenha sido composto por gente parecida com eles próprios – gente tímida, de óculos enfiados nos livros, que nunca tinha tido uma namorada, rapazes razoavelmente imprestáveis num campo de futebol ou incapazes de trocar um pneu. Mas reparem no que aconteceu no encore, quando eles foram buscar canções de outros discos que não If You’re Feeling Sinister – pediram ao público para subir ao palco e dançar e, de repente, ali estava uma data de gente das mais variadas idades, incluindo um rapaz que não devia ter mais de 16 anos e era bastante parecido com o meu filho (mas não era o meu filho).
Como é que isto aconteceu, como é que esta música passou dos que têm agora 50 para os que têm agora 35, para os que têm agora 17? Nunca mostrei os B&S ao meu filho e no entanto há dias descobri que ele os tem numa das suas milhentas playlists. Nunca houve muita publicidade à volta dos escoceses, por isso isto deve ser simples boca a boca e também alguma eventual sorte algorítmica. Talvez passados 30 anos ainda estejam por aí rapazes e raparigas com escassas capacidade sociais e a quem estas canções delicadas apelam como boa literatura íntima.


E sim, 30 anos depois estas canções ainda soam delicadas e íntimas, como se estivéssemos a assistir a Stuart Murdoch a dizer-nos ao ouvido das suas maleitas de coração. Hoje os B&S são 9 pessoas em palco, o que inclui cordas, teclas, guitarras e permite todo o tipo de arranjos, mas o cerne musical permanece: uma espécie de folk de câmara, íntima e profundamente melódica, cheias de melancolia e contemplação.
Stars of Track and Field continua a ser a faixa de abertura perfeita, Me and the Major Permanece uma melhores canções sobre a distância geracional (e a moralidade conservadora Vs. a não-conservadora), e aquelo trio de canções consecutivas (Like Dylan in the Movies, Fox in the Snow e Get Me Away From Here, I’m Dying) continuam a ser arrepiantes, em particular a lindíssima Fox in The Snow. O final, com Judy and the Dream of Horses, é perfeito – tem 7,8 milhões de escutas no Spotify, se isto vos interessar.
No encore, eles finalmente foram buscar canções de outros discos, como Dog on Wheels ou I’m a Cucko, o público subiu ao palco e se calhar este não foi o concerto com mais público de sempre, os vídeos que dele resultarem não vão ter milhões de views no Instagram, mas acho que foi o concerto em que mais me senti em casa e em que mais me identifiquei com quem estava em palco e com quem me rodeava. Isso não é mensurável em números, mas é o que nos faz voltar 30 anos depois.