André Ventura tem aproveitado o caso de Luís Neves para pressionar António José Seguro a agir. Vestindo o fato de líder da oposição, não só pediu uma audiência em Belém para ser ouvido e ouvir o Presidente da República, como apelou diretamente ao chefe de Estado e ao chefe do Governo para agirem contra o ministro da Administração Interna. Agora, aumenta a pressão relativamente a Seguro — e espera tirar proveito de uma saída de Luís Neves.
Durante a corrida a Belém, em que, na segunda volta, teve um frente a frente com António José Seguro e perdeu para o socialista, André Ventura procurou construir a imagem do fato de Presidente da República que vestiria se vencesse as eleições: interventivo, impossível de ser ignorado e avaliador dos resultados do Governo. Agora, com dois ministros do Governo de Luís Montenegro debaixo de fogo, o líder da oposição utiliza todos os critérios que foi estabelecendo para pressionar o Presidente da República, crente de que Seguro tem mesmo de fazer alguma coisa relativamente à situação de Luís Neves.
Numa altura em que o caso do ministro da Administração Interna tem vindo a ganhar diferentes contornos, fonte próxima de André Ventura refere ao Observador que o líder do Chega considera que a Polícia Judiciária ter encontrado indícios de descaminho e abuso de poder no processo do atrelado, como revelou o Expresso, passa o limite para que o chefe de Estado não intervenha.
Para Ventura, sublinha a mesma fonte, “o inquérito tem de levar o Presidente da República a atuar” — “É imprescindível” que o faça.
Depois de Montenegro, pressão a Seguro
Nos últimos dias, o líder do Chega tem feito pressão para a saída de Luís Neves do Executivo. Começou por pedir a demissão com um “apelo ao próprio” para que “saia pelo próprio pé”, mas também reclamou a “autoridade política de Luís Montenegro”. Na visão de Ventura, já no fim da semana passado havia “suspeitas graves” que, “sem explicação e sem sustentação”, não davam condições ao governante para se manter em funções.
De tal forma que, no sábado, Ventura optou por escrever uma carta ao primeiro-ministro a apelar que, não tendo Luís Neves apresentado a demissão, seja o chefe de Governo a afastá-lo definitivamente. Não só considera que “a permanência em funções do ministro da Administração Interna afeta muito negativamente a imagem do Governo”, como acredita que “arrastá-lo-á irremediavelmente para a cumplicidade criminosa, pressão sobre as instituições de investigação criminal e perda de autoridade institucional”.
Nessa mesma comunicação do líder da oposição e primeiro-ministro, André Ventura deixou uma nota relevante: “Após a reunião mantida com o Presidente da República fiquei ainda mais convencido do que é preciso fazer neste momento.” Com esta frase e mesmo sem mais explicações, o líder do Chega, que esteve reunido com o Presidente da República a propósito deste tema, dava a entender que Seguro pode estar incomodado com a situação ou mesmo tentado a pressionar o Governo.
E depois desta conversa a sós, a pedido do presidente do Chega, tem sido o próprio Ventura a carregar na ideia de que Seguro tem de dar um passo em frente, procurando ser visto como o influenciador de uma decisão que possa vir a acontecer. Enquanto isso se desenrola, o Presidente da República diz estar “muito atento” a tudo o que se passa e apenas fala “no momento certo e no local adequado”, mas Ventura vai insistindo.
Aliás, na carta que enviou ao primeiro-ministro, o líder do Chega fez questão de recordar o caso de Miguel Macedo, o “antigo MAI que se demitiu por se ver envolvido numa suspeita criminal durante o governo de Pedro Passos Coelho”, para justificar que uma pasta tão sensível “não pode estar sem autoridade ou integridade”.
Perante os jornalistas, Ventura voltou a insistir na ideia de que Seguro tem de fazer algo e chamar Montenegro à atenção, dando o exemplo de antecessores do atual Presidente da República para cimentar a tese: “Acho que o Presidente da República deve alertar o Governo que Luís Neves não tem condições para continuar a ser ministro. Jorge Sampaio, por razões muito menos contundentes, disse isto de Armando Vara.”
E recuou ao Ventura de janeiro, o candidato Presidencial, para argumentar que é preciso um chefe de Estado interventivo, realçando que “em Portugal a responsabilidade dos Governos tem dois vértices, um de cima e um de baixo — o de cima é o do Presidente da República, que pode, sem ser diretamente, apelar ao regular funcionamento das instituições e garanti-lo. O outro é o Parlamento, que, na minha perspetiva, deve apenas recolher instrumentos mais letais ou mais custosos em últimas circunstâncias, e dando a oportunidade aos governos de agir primeiro.”
A verdade é que, independentemente da postura mais recente de Ventura, tal como o Observador escreveu, Seguro esteve mesmo de prontidão no fim de semana para qualquer eventualidade no Governo que pudesse levar à necessidade de intervenção — até porque Seguro não tem competências para demitir um ministro: essa é uma função a cargo do primeiro-ministro e o Presidente da República apenas tem de dar posse a um seguinte.
Neves nunca foi abençoado e caso ajuda Chega
A escolha de Luís Neves para o Governo sempre foi problemática para o Chega. Na altura, como o Observador escreveu aqui, o Chega estranhou a escolha de alguém que fez questão de alimentar uma “agenda contra o Chega” quando falou sobre a inexistência de relação entre imigrantes e criminalidade — uma bandeira do partido de André Ventura.
Além de se considerar que a escolha era consagração de um “voltar atrás” do Governo no discurso da imigração, no Chega concluiu-se que era “alguém que está muito mais próximo da mundivisão cor-de-rosa do PS do que da nossa”.
Por outro lado, a promoção de Luís Neves para o Governo tinha sido aplaudida por vários segmentos da sociedade e os polícias não ficaram de fora, desde logo por se tratar de um político de carreira. Neste sentido, o Chega, que sempre procurou (e conseguiu) apoio junto das Forças Armadas e assentou algumas das suas bandeiras aí, tinha de trabalhar com pinças para não ostracizar um ministro que poderia roubar votos ao partido.
Porém, nessa altura, no inner circle de Ventura recordavam-se as palavras de Montenegro quando disse que o Governo não vai pôr “nem mais um cêntimo” no acordo com polícias, em julho de 2024, e as de Luís Neves, que chegou mesmo a defender que os elementos da PSP e GNR deviam receber o subsídio de risco idêntico ao que foi atribuído aos inspetores da PJ em 2023, quando já era diretor daquela polícia — para se fazer notar que, na altura do Orçamento do Estado, algum deles teria de ceder. Se fosse Luís Neves, o Chega estaria lá para cobrar e tirar proveito político disso mesmo.
Não foi preciso aguardar até à discussão orçamental para que os problemas de Luís Neves fossem usados como arma de arremesso por André Ventura. A começar pelo caso das obras na casa do ministro que podem ser ilegais, passando pela mesa e bancos construídos com madeiras dos caminhos de ferro oferecidas pela Infraestruturas de Portugal e terminando nos indícios de descaminho e abuso de poder no processo do atrelado que estava dado como desaparecido e foi encontrado a 350 quilómetros num camião da Construbarcelos, empresa do amigo de Neves. O líder do Chega encontrou o motivo perfeito para alimentar o caso e carregar na teoria de que o ex-diretor da PJ tem de cair enquanto ministro. Se vier a acontecer, o partido vence uma batalha que iniciou no dia em que foi escolhido por Montenegro.