Em Espelho Partido, o leitor acompanha três gerações da família Valldaura. É cerca de meio século visto no interior de uma casa senhorial em Barcelona, desde a viragem para o século XX até aos anos que se seguem à Guerra Civil espanhola (1936-1939), numa história que a autora demorou seis anos a escrever.
Criando um conjunto de fragmentos que se colam, arquitectando uma estrutura orgânica, funcional, num todo, a autora espanhola mostra a família como território onde a vida inteira existe e, por isso, como o terreno mais fértil a que a literatura vai colher. Ora, esta família, aristocrática, vai mostrando os seus elementos, com o que têm de complexo, desde as mentiras às expectativas ou às vontades que não confessam a ninguém. Nisto, não há vilões, mas também não há heróis: há uma família que parece patinar entre os segredos, as traições, os filhos ilegítimos, a compostura. No meio, há incursões na vida psíquica, íntima, das personagens, que vão pontilhando a acção, dando a conhecer, em simultâneo, o dito e o não dito. Por exemplo:
Porque Quim estava cansado da sua vida de solteiro já com tantos anos, dos desenganos, das esperas, dos “agora sim, agora não”, do seu andar vazio de afeto, de uma sensação pouco tranquilizadora de vida que não vai a parte nenhuma. Precisava de amar e de que o amassem e Eulàlia, aureolada de solidão e de dor, chegara no exato momento em que mudar o destino de um homem é a coisa mais simples do mundo.” (p. 209)
Ora, muito do que se passa às escondidas chega ao leitor através dos sussurros da casa aristocrática, desde um suicídio no estrangeiro a um filho ilegítimo, a uma amante ou a um assassinato. Esses sussurros são os das histórias que as empregadas mais antigas contam às mais novas. Isto está bem introduzido na narrativa, uma vez que mostra que as personagens secundárias, ao não serem encaradas como personagens principais, ganham o condão da absorção de informação – informação essa que passa e que deixa os segredos a refulgir nas sombras. É uma boa manobra técnica, já que permite à vida da família continuar sem aceder a certas ideias-chave e, em concomitância, permite ao leitor receber a informação, ao mesmo tempo que junta as peças. Como está mais tempo do que as personagens no romance e tem acesso a múltiplas perspectivas, só ele pode compor um retrato panorâmico, o que não implica atar as pontas todas.

De resto, quase tudo é Valldauras. O contexto histórico está lá, mas a autora atenta mais no que se passa em casa. Com tudo lido, não se pode dizer que os Valldauras sejam uma família disfuncional – em vez disso, são uma família. E como tal, são infelizes à sua maneira própria, com os seus desconfortos a serem mostrados ao leitor através de uma prosa polifónica, que não só mostra o silêncio sobre o passado de Teresa (a personagem em quem o romance mais se foca), que é um mistério, como também mostra a vida a passar, com o que tem de morte e de mudança.
Felizmente, não é fácil simpatizar com ninguém, e é nisso que o romance brilha, recusando uma lógica clubista, futeboleira: pode querer-se à vontade que a vida corra mal a toda a gente. E, num zás, passam-se vinte anos na narrativa, que por vezes se perde em descrições sensoriais sobre a natureza, que até podem enriquecer textualmente o livro, mas obrigam a algumas clivagens técnicas, até escusadas. Esse momento em que vinte anos são varridos do enredo acaba por ser magistral: o leitor, que acompanhava a vida da casa, é levado para duas décadas de silêncio, ficando frente-a-frente com uma nova realidade, e cabendo-lhe também compor o que ficou para trás. Esta relação com o tempo está bem doseada, e traz um quê, e bem valente, de efemeridade à prosa, que o leitor não pode ignorar. Afinal, todo o romance é essa passagem do tempo.
No prefácio, a escritora Rosa Montero refere que o livro jamais podia ter sido escrito por uma autora jovem, dizendo que tamanhas dor, melancolia e perda não podiam ter sido improvisadas. Talvez faltem aqui a ideia de amargura e desalento. O que é certo é que o olho de Rodoreda conseguiu equilibrar distância e proximidade em simultâneo. Não fica nada turvo, mas jamais se cede ao drama, mostrando-se, como quem encara a inevitabilidade, o fim da inocência e a inexorável decadência. O envelhecimento leva também ao fim do desejo e da fúria de viver e, à medida que se lê, percebe-se que é mesmo o tempo que vai comendo a intensidade aos dias, só por passar sem travões.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.