A descoberta da carcaça de um tubarão-da-Gronelândia na costa do condado de Sligo, na Irlanda, em abril deste ano, foi o ponto de partida para o aprofundamento do estudo sobre a sobrevivência da espécie nas águas gélidas do Ártico. Terá sido a primeira vez que um tubarão-da-Gronelândia, que tem a Gronelândia, o Canadá e a Islândia como habitats naturais, foi encontrado na ilha.
O tubarão-da-Gronelândia (Somniosus microcephalus) é a espécie animal mais longeva do mundo. A esperança média de vida da espécie ainda é objeto de debate, mas estima-se que possa viver entre 300 e 500 anos, de acordo com um estudo da Science, publicado em 2016. Mede, em média, cinco metros e mergulha a 1.200 metros de profundidade, refere a National Geographic.
O espécime encontrado tinha cerca de três metros de comprimento e tinha mais de 150 anos, algo que, para um tubarão-da-Gronelândia, representava um jovem em idade de reprodução, explicou Emilie De Loose, bióloga marinha do Irish Whale and Dolphin Group, à BBC.
“É uma pena. Este espécime levou 150 anos para chegar ao ponto em que poderia reproduzir-se, contribuir para o equilíbrio da população e talvez não tenha tido essa oportunidade”, acrescentou ainda.
Por serem nadadores lentos, a alimentação desta espécie é feita através da ingestão de cadáveres, mas também de animais vivos como focas, tudo capturado quando estão em repouso ou presos no gelo.
“Os tubarões-da-Gronelândia são nadadores muito lentos, por isso são geralmente considerados necrófagos que se alimentam de carcaças. Mas, às vezes, eles parecem conseguir, de forma oportunista, capturar presas vivas e velozes”, como focas, detalhou à mesma estação Lily Fogg, investigadora de pós-doutoramento em biologia evolutiva na Universidade de Basileia.
A autópsia que se seguiu ao encontro do cadáver permitiu descobrir o que permite que a espécie consiga sobreviver durante tanto tempo e em ambientes extremos. “Há algo muito íntimo em trabalhar com animais mortos, porque conhecemos realmente a espécie”, disse, por seu turno, Jasmine Stavenow Jerremalm, investigadora da University College de Cork, na Irlanda, que acrescenta que “animais mortos podem dizer muito sobre os vivos“.
Quando foi encontrado, o espécime foi coberto com algas para não ser bicado por aves e foi transferido no dia seguinte para um laboratório veterinário na região. Foi içado por um guindaste para o atrelado de um camião e levado para o local da autópsia, onde foi analisado numa sala ventilada por investigadores de várias instituições, protegidos por máscaras, luvas e macacões.
“Quando se trata de um animal que pode ter algumas centenas de anos, pode haver qualquer coisa dentro dele, então, por questões de saúde e segurança, é preciso garantir que os procedimentos adequados sejam seguidos”, ressalvou Jerremalm, referindo-se a possíveis bactérias ou vírus que possam estar alojados no cadáver do animal e que tenham também centenas de anos.
Apesar do pouco que se conhece sobre a espécie, sabe-se que as altas concentrações de substâncias químicas na pele permitem que possam lidar com o frio, apesar de tornar a carne venenosa.
No entanto, aspetos importantes sobre os locais de acasalamento e de nascimento das crias ainda são desconhecidos, assim como detalhes sobre a reprodução, algo que dificulta a contabilização do número de espécimes existentes e a segurança do tubarão, muitas vezes apanhado em redes de pesca. Até hoje, apenas foi avistada uma fêmea da espécie.
O espécime foi examinado para detetar algum ferimento ou corte que explicasse a sua morte, mas não foram encontrados sinais. Depois, a pele, coberta de dentículos, foi retirada e conservada para ser taxidermizada e, possivelmente, exposta no Museu Nacional. O tubarão foi posteriormente aberto e os seus órgãos retirados: o fígado de 50 quilos, o coração com 34 quilos e os olhos, que serão usados para determinar a idade do tubarão.
Os olhos são um dos órgãos mais importantes desta espécie e cujo funcionamento ainda é desconhecido. “Durante muito tempo, os tubarões-da-Gronelândia foram descritos como tendo uma visão muito fraca, ou mesmo sendo cegos”, afirma Fogg, devido à longevidade da espécie e aos parasitas que se prendem à parte frontal dos olhos.
No entanto, um estudo da autoria da bióloga, juntamente com outros investigadores, descobriu que este órgão consegue manter intactas as células e as moléculas durante vários séculos — ao contrário da visão humana —, e é “altamente especializado” para condições de luminosidade muito baixa.
“Isso é bastante surpreendente, pois sugere que podem ter desenvolvido mecanismos para resistir ou retardar esse tipo de degeneração relacionada com a idade”, realçou Fogg, que admitiu que tal pode ser feito através da ativação de genes envolvidos na reparação de ADN danificado.
Um outro aspeto ainda pouco conhecido é o coração destes animais. Apesar de apresentarem sinais comuns de envelhecimento, como cicatrizes, é saudável e resistente a “marcadores de envelhecimento associados à saúde cardíaca precária noutros animais, incluindo humanos”.
Em relação à alimentação, o espécime analisado apresentava dentes adaptados para arrancar a carne de carcaças. O estômago sugere que o animal tinha digerido alimentos antes de ter ficado preso na Irlanda.
Os únicos indicadores de preocupação são um testículo torcido e a cor aparentemente “incomum” do baço, mas os investigadores garantem que o tubarão parecia saudável. As análises secundárias que serão feitas vão revelar não só qual poderá ter sido a causa da morte, mas também se o animal estava doente.
Será enviado para um outro laboratório uma amostra de tecido muscular, que vai determinar a idade do espécime através do comprimento dos telómeros — estruturas protetoras localizadas nas extremidades dos cromossomas e compostas por sequências de ADN. “Os telómeros tendem a encurtar com a idade, além da exposição a fatores ambientais stressantes”, sublinha a BBC.