Há medos muito frequentes nas crianças: o escuro do quarto, os monstros debaixo da cama, os cães na rua, o barulho da trovoada. Outros miúdos têm medos menos frequentes mas, ainda assim, não muito originais: elevadores, palhaços, balões, estátuas. Quando, em algumas fases, as crianças têm muitos receios, isto também gera receio nos pais, que ficam sem saber como reagir aos episódios de choro ou desconforto frequentes.
Uma das ideias mais consensuais sobre o desenvolvimento infantil é esta: os medos fazem parte deste processo e vão mudando à medida que as crianças crescem. Há muitos estudos recentes sobre o tema, mas a revisão científica de referência sobre este assunto foi publicada há mais de duas décadas. Depois de analisar mais de um século de investigação, a autora, a psicóloga australiana Eleonora Gullone, concluiu que os medos infantis seguem um padrão bastante previsível: mudam de conteúdo à medida que a criança cresce, tendem a diminuir em intensidade e frequência com a idade e, na maioria dos casos, são transitórios e fazem parte do desenvolvimento normal. Além disso, embora existam diferenças culturais no conteúdo de alguns medos, tanto os tipos de receios como a forma como surgem e desaparecem ao longo do desenvolvimento são surpreendentemente semelhantes entre diferentes culturas.
“Os medos evoluem à medida que a criança cresce e acompanham o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social”, explica a psicóloga clínica e forense Rute Agulhas. A especialista, que atende sobretudo crianças e adolescentes, refere que tanto a literatura científica como a prática clínica mostram que nos primeiros anos de vida são mais comuns os medos de separação dos pais, de estranhos ou de ruídos fortes; na idade pré-escolar surgem frequentemente os medos do escuro, monstros, fantasmas ou animais – por vezes, relacionados com o mundo imaginário e dos desenhos animados e, na pré-adolescência, aparecem sobretudo preocupações relacionadas com o desempenho escolar, a aceitação pelos pares, acidentes, doenças, mortes ou acontecimentos reais, como sismos e tsunamis.
A explicação para estes medos e para as suas mudanças, diz a psicóloga, está na forma como o cérebro infantil se desenvolve. “A criança vai crescendo e adquirindo maior capacidade de compreensão do mundo que a rodeia e perceção dos riscos. Ao mesmo tempo, não possui ainda a maturidade necessária para avaliar essas situações de forma realista.”
Há uma tendência natural para querer proteger os filhos de tudo aquilo que os faz sofrer. Outra, igualmente frequente, é desvalorizar: “não sejas bebé”, “isso não existe”, “não tens motivo para ter medo”. Nenhuma das duas costuma ajudar.
Rute Agulhas refere que os pais devem “acolher e validar as emoções da criança” e sugere frases simples como “Percebo que estás assustado”, “Estou aqui contigo” ou “Não estás sozinho”, transmitindo calma, ajudando a criança a identificar o que sente e incentivando-a gradualmente a lidar com a situação. Por outro lado, é preciso não cair no erro de alimentar o medo: demonstrar preocupação excessiva tende a aumentar a insegurança. “É também importante evitar que a criança receba constantemente a mensagem de que precisa de ser protegida – o que reforça a ideia de que a situação é realmente perigosa e deve ser receada e evitada.”
“O equilíbrio está em oferecer apoio sem promover respostas de evitamento.” Ou, como resume a psicóloga, “a criança precisa de sentir que os pais a compreendem, mas também de descobrir que é capaz de enfrentar desafios e que não está sozinha neste processo.”
Na prática, isso significa avançar devagar. “Por exemplo, uma criança com medo de cães pode começar por observá-los à distância, aproximar-se gradualmente e, mais tarde, interagir com um cão tranquilo. Esta exposição progressiva e gradual ajuda a construir confiança e mostra à criança que consegue lidar com o que receia.”
A maioria dos medos não exige ajuda especializada. Mas há sinais que merecem atenção. “Um medo é geralmente considerado normal quando é passageiro, pouco intenso, adequado à idade e não impede a criança de participar nas suas atividades habituais”, explica Rute Agulhas. O cenário muda quando o medo “é muito intenso, persistente e provoca sofrimento significativo”.
Por isso a psicóloga frisa que os pais devem procurar ajuda quando:
- a criança evita sistematicamente determinadas pessoas, locais ou situações;
- existem alterações persistentes do sono;
- se queixa frequentemente de dores de barriga, dores de cabeça, náuseas ou vómitos sem causa médica aparente;
- apresenta crises de ansiedade ou sinais de sofrimento intenso;
- o medo começa a interferir de forma significativa com a vida escolar, as relações sociais ou a dinâmica familiar.
Nesses casos, conclui a psicóloga, “quando o medo limita claramente e interfere com a vida da criança, deve procurar-se apoio especializado”.
Rute Agulhas é psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. É coordenadora do Grupo VITA.