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Castelos, palácios e palacetes em Portugal para dormir, comer e viver entre luxo e história

São locais com história em Portugal que oferecem mais do que uma cama confortável. Espaços recuperados que mantêm vivas algumas tradições e que propõe experiências pouco habituais.

Larissa Faria
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Da antiguidade até a atualidade, do imaginário infantil dos contos de fadas para a realidade. O que não falta em Portugal são castelos, palácios e palacetes luxuosos. Alguns, construídos para defender o território nos arredores, com muralhas e ampla vista para o horizonte. Outros, grandes casas que acolheram reis, rainhas, aristocratas e os membros das respetivas famílias.

Estes não imaginariam que um dia as suas grandes casas se tornariam alojamentos para quem deseja, assim como fizeram, viver um dia de realeza em ambientes de decoração clássica. O Rei Dom Luís, que viveu durante algum tempo no Palácio do Governador, em Belém, talvez gostasse de dar um mergulho na piscina que hoje lá existe, ou mesmo de ligar o ar condicionado num dia quente de verão — um luxo não disponível naquela época, mas que foi instalado nos tempos modernos. E Umberto II — o último rei de Itália — poderia ficar orgulhoso por saber que algumas das tradições do seu país foram cá mantidas, inspiradas pelo período em que o próprio viveu em Cascais.

Muitos dos sítios abaixo mencionados fazem parte de períodos históricos importantes do país, como os Descobrimentos e as Invasões Francesas. A transformação das construções privadas em alojamento possibilitou abrir ao público a possibilidade de ter uma noite (ou dia) de rei e rainha em cenários exuberantes. A remodelação destes espaços mantendo as características marcantes e históricas para a abertura de portas ao turismo é mesmo uma tendência que há anos ocorre, sobretudo desde 2016, quando foi lançado o programa Revive, de recuperação de património do Estado. E há uma nova morada anunciada há pouco: em julho deste ano, o Observador noticiou que o Palácio do Grilo, no Beato, será transformado em hotel.

Do alojamento a atividades paralelas, tome nota de algumas experiências possíveis.

Uma noite num castelo com um grupo de amigos

Castelo de Santa Marta de Portuzelo. Rua António Pereira da Cunha 4, Santa Marta de Portuzelo, 4925-020 Viana do Castelo

À partida, o valor inicial da noite (a partir de 1.100 euros, varia consoante a altura do ano) neste alojamento em estilo neomanuelino em Viana do Castelo pode assustar. Mas trata-se afinal do Castelo de Santa Marta de Portuzelo, com nove suítes e um grande jardim com piscina — o que o torna ideal para uma escapadinha com um grupo de amigos a menos de uma hora do Porto. O edifício romântico de dois andares, grandes salões e capela própria foi construído em 1853, mas uma fonte do século XVI que ali estava foi mantida. Foi o aristocrata António Pereira da Cunha e Castro Lobo quem desenhou a planta desta que era a sua casa dos sonhos. Em 1977, foi classificado Imóvel de Interesse Público, tendo sido vendido no mesmo ano pelos herdeiros ao antigo parlamentar José Pulido de Almeida, que deu o uso turístico ao terreno.

Apericena com vista para o mar

Grande Real Villa Itália Hotel & Spa. Rua Frei Nicolau de Oliveira 100, 2750-319 Cascais

O último rei de Itália, Umberto II, exilou-se num edifício da família portuguesa Pinto Basto em frente à Boca do Inferno, em Cascais, entre 1950 e 1961. Após este período, apoiantes da monarquia daquele país financiaram uma casa para Umberto II mesmo ao lado daquela em que estava. Foi nesta construção que recebeu o nome de Villa Itália que o monarca realizou festas luxuosas, onde morou até a sua morte em 1983.

Ambos os imóveis foram anexados em 2004 para dar lugar ao hotel e spa Grande Real Villa Itália. O empreendimento organiza uma experiência (não só para hóspedes) de apericena, palavra italiana que define o jantar que é substituído por variedades de petiscos e bebidas. O evento é realizado todos os dias entre 17h e 19h no bar do hotel com vista para o mar, custa 22 euros por pessoa e inclui: antipasti de queijos e charcutaria italianas, grissinis e pão guttiau, arancini de tomate e mozzarella, mini panino de prosciutto, burrata e rúcula, pica-pau de novilho com sementes de mostarda, Aperol Spritz e cafetaria — recomenda-se reservar.

O chá das cinco que começa às 15h

Palácio Estoril Hotel, Golf & Wellness. Rua Particular, 2769-504 Estoril

O empreendimento próximo de completar 100 anos (foi inaugurado em 1930) foi o abrigo de algumas das famílias reais europeias (espanhola, italiana, francesa, búlgara e romena) que ali se refugiaram da Segunda Guerra Mundial. A presença dos membros da realeza chamou também a atenção de espiões britânicos, alemães e franceses que passaram a frequentar o Bar Estoril — cenário do filme 007 – Ao Serviço de Sua Majestade.

Para recordar a presença da aristocracia, o hotel organiza uma tradição que teve início no século XIX: o chá das cinco foi um hábito criado pela sétima duquesa de Bedford na cidade de Londres, tornando-se um símbolo da nobreza britânica. No Estoril, este ritual é realizado todos os dias, das 15h às 18h, com um custo de 30 euros por pessoa. Inclui uma seleção variada de pastelaria, chás da marca Ronnefeldt e sanduíches.

Menu de sete momentos e vinhos do Bussaco

Palace Hotel Bussaco. Mata do Buçaco, 3050-261 Luso

Foi o Rei Dom Carlos I que mandou construir este palácio em 1888 como uma residência de verão e pavilhão de caça. As obras encerraram-se três anos antes de ser ali realizada a última cerimónia oficial da monarquia portuguesa, em 1910. Sete anos depois, o grupo hoteleiro Alexandre Almeida assumiu o espaço, chamado Palace Hotel Bussaco, na freguesia do Luso (a 25 quilómetros de Coimbra), do qual é gestor até aos dias de hoje.

A sala de banquetes dos Bragança, hoje chamada Restaurante Mesa Real, permanece decorada por telas que ilustram as viagens marítimas que marcam a história do país. Neste espaço, hóspedes e não hóspedes podem reservar um jantar que junta as cozinhas francesa e portuguesa: o menu de sete momentos custa 140 euros, com versão vegetariana a 78 euros. À parte, o brinde pode ser feito com os vinhos do Bussaco, ali engarrafados com colheitas desde 1944.

Workshop de chanfana

Palácio da Lousã Boutique Hotel. Rua Viscondessa do Espinhal, 3200-257 Lousã

O brasão na fachada do prédio do século XVIII remete ao período em que este nobre edifício foi habitado pela viscondessa do Espinhal, Maria da Piedade de Melo Sampayo Salazar. No período das Invasões Francesas, o palácio funcionou como quartel-general, onde o Marechal Masséna estava prestes a jantar quando soube que o seu exército tinha sido atacado nas proximidades pelos portugueses e ingleses. Masséna levantou-se da sua cadeira e fugiu, sendo esta logo em seguida ocupada então pelo Duque de Wellington, que celebrou a “derrota” do adversário e comeu a sua refeição que foi ali deixada. No Palácio da Lousã, referido como o primeiro hotel boutique do país pela Câmara da Lousã, pode-se agora não só dormir num dos 44 quartos como também preparar — e comer, sem ter de fugir — um prato típico da região. O chef Miguel Silva lidera o workshop de chanfana (35 euros por pessoa) num jantar de degustação.

Pequeno-almoço com violino e piano

Palácio das Especiarias. Rua da Horta Seca 11, 1200-221 Lisboa

O nome dado a este sítio refere a chegada de especiarias que eram ali armazenadas no período dos Descobrimentos. As fundações do Palácio das Especiarias, construído entre o Chiado e o Bairro Alto, remontam ao século XVI e resistiram até mesmo ao terramoto de 1755. O interior foi remodelado de forma a manter a identidade clássica nas áreas comuns e nos 38 quartos do hotel boutique aberto em 2017. Durante o pequeno-almoço continental, há sempre um músico a tocar piano ou violino. Os hóspedes têm ainda incluídas na reserva (uma noite custa a partir de 116 euros) algumas das comodidades disponíveis no spa ali instalado, como o banho romano (que promete um efeito “relaxante e revigorante”) e o uso da sauna.

Cocktails entre obras de arte

Pestana Palácio do Freixo. Estrada Nacional 108, 4300-316 Porto

Foi o rico cónego Dom Jerónimo de Távora e Noronha o responsável por trazer o arquiteto italiano Nicolau Nasoni a Portugal, em 1725. E a este encomendou o projeto barroco que teve início no século XVIII, num grande terreno com 10 mil metros quadrados só de jardins à beira do rio Douro. Ao longo dos séculos, a propriedade teve diferentes usos, até ser restaurada pelo arquiteto Fernando Távora entre 1995 e 2003 e transformada no hotel Pestana Palácio do Freixo em 2009, com 87 quartos e suítes. No Nasoni Bar, decorado por pinturas de Júlio Resende, pode pedir cocktails como o “A Viagem de Vida de Nicolau Nasoni” (tequila, coco e alvarinho, 16 euros) e o “Roma” (rum, ananás, limão, gengibre e manjericão, 16 euros).

Mergulho com vista para o Tejo

Palácio do Governador. Rua Bartolomeu Dias 117, 1400-030 Lisboa

O que no período romano era uma fábrica de preparados de peixe deu lugar em 1519 à residência do primeiro governador da Torre de Belém, Dom Gaspar de Paiva. A seguir, viriam a residir ali os Condes de Atalaia (no século XVII) e os Marqueses de Viana no século XIX — quando aquela morada foi também em algumas ocasiões a residência do Rei Dom Luís. Todos os nobres ex-moradores não tiveram ali, nos dias quentes em Lisboa, um luxo que hoje se pode ter no hotel que ali funciona: um dia na piscina, com espreguiçadeira, toalha, uma garrafa de Earth Water e 20% de desconto em consumos do menu do pool bar (50 euros por pessoa, 25 euros para crianças dos 4 aos 12 anos).

Pequeno-almoço com cafés especiais

Palácio do Visconde — The Coffee Experience. Rua Maria da Fonte 55, 1170-220 Lisboa

O primeiro palacete deste terreno na zona dos Anjos foi construído por ordem do visconde Francisco Anselmo da Silva em 1883. Oito anos depois, um palácio vizinho foi erguido, conectado ao primeiro por um jardim interior e uma ponte, para que ali também pudesse viver a sua irmã Maria Andrade. Aquela família que tinha entre os seus negócios a importação de café fundou nas cavalariças do palacete em 1923 a fábrica de cafés Negrita, a mais antiga torrefação de Lisboa. Em 2023, deu lugar ao hotel boutique Palácio do Visconde com 23 quartos, cada um destes inspirado na história de membros da família do visconde. Quem deseja passear pelo jardim apenas para um café também pode: todos os dias, das 7h30 às 10h30, um pequeno-almoço “digno de realeza”, diz o espaço, é servido no salão nobre e na área externa (19 euros por pessoa, com opções como sumo de laranja natural, variedades de cafés, seleção de padaria e pastelaria).

Workshop de Queijo da Serra da Estrela

Parador Casa da Ínsua. Quinta da Ínsua, 3550-126 Penalva do Castelo

Foi do Brasil que veio o projeto para este solar em Viseu, no século XVIII: o governador do Mato Grosso e Cuiabá, Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, enviou para o outro lado do oceano o seu pedido para o arquiteto José Francisco de Paiva. Através de uma grande obra em estilo Barroco, queria imprimir o seu status social além-mar. Aquele terreno já pertencia à sua família, que no século XVI ergueu ali a primeira casa, uma capela e um terraço — estes dois últimos preservados até aos dias de hoje. E engana-se quem pode pensar que construções antigas como esta são sinónimo de falta de infraestrutura: os herdeiros deste património tornaram-no um dos primeiros sítios em Portugal a ter acesso à eletricidade no início do século XX, com a criação de uma central termoelétrica que fornecia energia também para as povoações de Ínsua e de Castendo.

Transformado no hotel Parador Casa da Ínsua em 2009, o espaço mantém ali uma queijaria, onde une a sua história também às tradições antigas daquela região: hóspedes e não hóspedes podem inscrever-se num workshop de produção de Queijo da Serra da Estrela, feito com o leite das próprias ovelhas daquela quinta. Os participantes, além de produzirem o seu próprio queijo, visitam as três câmaras de conservação e maturação, também o ovil e o campo do cardo — a experiência custa 20 euros por pessoa (mínimo de 4 pessoas) e ocorre de novembro a maio, de segunda a sexta-feira, às 9h30.

Quartos clássicos e receitas típicas

Pousada Castelo Estremoz. Largo Dom Dinis, 7100-509 Estremoz

A construção do século XIII foi um presente de Dom Dinis à sua mulher, a Rainha Santa Isabel, que por lá viveu por alguns períodos até à sua morte. Em 1910, o edifício com uma torre de menagem medieval e mais de oito séculos de história foi classificado como Monumento Nacional. Sessenta anos depois, passou a funcionar como Pousada Castelo Estremoz, um alojamento turístico de decoração clássica, com dossel em algumas das camas e peças de mobiliário dos séculos XVII e XVIII — é possível reservar uma noite a partir de 98 euros. Foram mantidos ainda na decoração três potes chineses oferecidos pelo rei da Prússia ao Rei Dom Carlos em 1905. A ementa do restaurante do hotel também preserva as tradições da cozinha daquela região: entre as opções, estão o bacalhau dourado com ovos e batatas, cuja receita é de 1942 (21 euros) e o pudim de água de Estremoz (8 euros).

Noites entre muralhas a brindar com ginjas

Pousada Castelo de Óbidos. Largo de São Tiago do Castelo, 2510-999 Óbidos

Dom Dinis não mimou a Rainha Santa Isabel só quando esta estava prestes a morrer. Prova disto é este castelo erguido entre muralhas, — pelos muçulmanos, no século VIII, tendo passado para a posse da coroa portuguesa em 1148 — que foram um presente de casamento para a sua mulher após a noite de núpcias do casal, em 1282. E não só: toda a vila de Óbidos passou também a pertencer à rainha.

Quem desejar viver uma escapadinha romântica como a do casal pode fazê-lo na Pousada Castelo de Óbidos: desde 1951, funciona ali um alojamento, com noites a partir de 179 euros. E sendo o licor de ginja típico daquela região, não podiam faltar no restaurante do empreendimento as sobremesas com este: pêra rocha “bêbeda”, em vinho tinto e ginja d’Óbidos (10 euros) e o gelado de ginja com crumble crocante de chocolate (14 euros).

Vista panorâmica e vinhos de Palmela

Pousada Castelo de Palmela, 2950-317 Palmela

Uma colina na Serra da Arrábida com vista panorâmica para os rios Tejo e Sado foi o sítio escolhido pelos muçulmanos entre os séculos VIII e XII para vigiar e proteger o seu território. A 230 metros acima do nível do mar, a fortaleza foi conquistada por Dom Afonso Henrique em 1147, tornando-se em 1443 a sede nacional da Ordem de Santiago. Com os danos severos causados pelo terramoto de 1755 à construção e a extinção das ordens religiosas em Portugal em 1834, os monges foram expulsos, dando início a um processo de degradação que seria revertido apenas 136 anos depois. Classificado como Monumento Nacional em 1910, o recomeço do castelo ocorreu em 1970, quando o Estado português encomendou o restauro das ruínas claustrais que permitiram abrir ali na mesma década a Pousada Castelo Palmela.

O restaurante do alojamento funciona no antigo refeitório da ordem dos monges-guerreiros. Na carta, há entre as entradas a sopa caramela (típica daquela zona, 9 euros) e gratinado de queijo de Azeitão D.O.P com duo de compota e grissinis (13 euros). Após os pratos principais, que variam entre carne, peixe, massas, risotos e opções vegetarianas, pode-se pedir um pudim de requeijão com bolacha de figo e moscatel crocante recheada com frutos vermelhos e salpicado de suspiro (10 euros) — que pode incluir um brinde com um dos vinhos de Palmela disponíveis na carta.

Workshop de produção de chocolate

Palacete da Real Companhia do Cacau. Largo Alexandre Herculano 1, 7050-110 Montemor-o-Novo

O palacete construído em 1895 para uma família de aristocratas do alentejo foi em 2010 vendido para o casal Moisés Gama e Sandra Rodrigues de Gouveia. Decidiram abrir não só as portas da grande construção transformada em alojamento (com direito a jardim e piscina), mas também ter ali uma paixão que ambos partilham: o chocolate. O antigo picadeiro coberto tornou-se então a Real Companhia do Cacau, com frutos selecionados para a produção do doce. E os hóspedes das cinco suítes ali disponíveis não ficam a passar vontade ao sentir o cheiro da fábrica: são realizadas visitas em que se pode ver de perto o cacau ser transformado em chocolate, participar numa degustação de chocolates e bombons e até fazer a sua própria tablete. O workshop é realizado para hóspedes (40 euros para adultos, 25 euros para crianças até aos 14 anos) e não hóspedes (entre 1 de julho e 15 de setembro, 60 euros os adultos e 35 euros crianças até aos 14 anos).

*Todos os preços referidos foram consultados nos sites dos respetivos empreendimentos, pelo que podem variar consoante o período do ano.

[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]