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PJ aponta indícios de crimes de descaminho e abuso de poder no atrelado de droga ligado à empresa do amigo do ministro Luís Neves

Ministério Público abriu inquérito após PJ reportar indícios criminosos. Fonte judicial diz que só Luís Neves, como diretor nacional da PJ, podia autorizar a movimentação do atrelado.

João Paulo Godinho
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A Polícia Judiciária (PJ) recolheu indícios da eventual prática dos crimes de descaminho e abuso de poder na análise ao caso da movimentação do atrelado de droga apreendido na “Operação Pacoba” e que foi encontrado nas instalações da Construbarcelos, a empresa do empreiteiro amigo de Luís Neves, ex-diretor nacional da PJ e atual ministro da Administração Interna.

A informação é avançada esta terça-feira pelo Expresso e foi confirmada pelo Observador junto de fonte judicial, que refere ainda que essas informações foram reportadas ao Ministério Público, que validou o inquérito anunciado na sexta-feira pela PJ.

De acordo com a edição online do semanário, as alegações de que o processo de movimentação do atrelado apreendido para a guarda da empresa Construbarcelos, do empreiteiro João Santos Carvalho, estaria documentado não se terão confirmado nas primeiras diligências da PJ. Ou seja: poderão não ter sido cumpridas todas as regras e formalidades neste procedimento.

https://observador.pt/2026/07/17/pj-confirma-inquerito-sobre-atrelado-de-droga-apreendido-que-foi-encontrado-em-empresa-de-amigo-do-ministro-luis-neves/

Luís Neves, segundo o Expresso, ainda não foi ouvido no âmbito do referido inquérito.

Uma outra fonte judicial assegurou ao Observador que só Luís Neves poderia ter autorizado a movimentação do atrelado apreendido (com bidões de produtos químicos usados para a produção de droga) em dezembro de 2024 no âmbito do processo ‘Operação Pacoba’.

“Do ponto de vista da autorização, só há uma entidade que o pode fazer e que é o diretor nacional da PJ. Neste caso concreto, o processo é investigado pela PJ, portanto, só pode ser o diretor da PJ”, refere, acrescentando: “O diretor da PJ tem poderes para que um bem seja levado para um particular. Tem é de ser fundamentado”.

Esta mesma fonte considerou “estranho” que os produtos químicos usados para a produção de droga fossem entregues a um particular, ainda mais a um empreiteiro sem uma habilitação para o uso ou transporte desse tipo de substâncias. “Isso não é normal. O atrelado, sim; esses produtos não. Isso tem de ser muito bem justificado para entregar a um particular. Do ponto de vista do bom senso jurídico, não me parece muito correto. Tem de haver qualquer fundamento para entregar produtos desse tipo a um particular”, notou.

Por isso, apontou para uma possível “informalidade que não é admissível” numa situação deste tipo, levantando como hipóteses teóricas os crimes de descaminho, abuso de poder ou prevaricação.

Ao que o Observador apurou, a investigação do caso poderá fazer com que Luís Neves possa ser visado pela alegada suspeita do crime de abuso de poder enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária, pois trata-se de um crime praticado por um funcionário (ou agente público) no exercício de funções.

PJ confirmou inquérito na sexta-feira e PGR falava em análise a “factos noticiados”

A Polícia Judiciária confirmou oficialmente na sexta-feira a abertura de um inquérito sobre o caso do atrelado de droga apreendido que foi encontrado nas instalações da empresa Construbarcelos e adiantou ainda que o inquérito foi comunicado ao Ministério Público.

“No passado dia 14 de julho, a Direção Nacional da Polícia Judiciária (DNPJ) teve conhecimento de que uma galera [atrelado] apreendida, no âmbito de um inquérito relacionado com o tráfico de estupefacientes, havia sido movimentada e parqueada em Barcelos. Tendo por base essa suspeita, a DNPJ determinou, de imediato, a instauração de um inquérito para apurar as circunstâncias da alegada movimentação, que poderia confirmar a prática de ilícitos criminosos”, lia-se no comunicado da Judiciária.

De acordo com o que o jornal Público avançou no fim de semana, os bidões de produtos químicos para produzir estupefacientes estariam não só no atrelado, mas também dentro das próprias instalações da empresa Construbarcelos.

https://observador.pt/2026/07/18/quimicos-para-produzir-droga-da-operacao-pacoba-estavam-dentro-da-empresa-do-amigo-de-luis-neves/

O atrelado havia sido apreendido no âmbito da investigação da PJ apelidada de “Pacoba”, uma megaoperação de combate ao tráfico de droga. No decorrer desta investigação, a PJ anunciou, em dezembro de 2024, o desmantelamento de um laboratório de cocaína em Portugal.

O atrelado tinha sido levado para instalações da Marinha, no Seixal, e acabou por sair dali em 2025 para ficar até à semana passada na Construbarcelos — a empresa que celebrou 17 contratos com a PJ no valor de cerca de 2,3 milhões de euros e tem obras particulares em curso nos montes alentejanos do ministro Luís Neves.

Em paralelo, fonte oficial da PGR afirmou também na sexta-feira que o “Ministério Público tem vindo ainda a acompanhar outros factos noticiados e, nos termos da lei, procede à respetiva análise; havendo fundamento e necessidade, desenvolve depois todas as diligências que considera pertinentes ou adequadas”.

Esta afirmação está relacionada com os factos noticiados sobre as obras particulares que o empreiteiro João Carvalho fez no monte alentejano de Luís Neves.

Texto alterado às 14h59m