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(A) :: Caso Plus Ultra. Arguidos mudam de estratégia e encostam Zapatero à parede. Mas Governo espanhol mantém apoio ao ex-primeiro-ministro

Caso Plus Ultra. Arguidos mudam de estratégia e encostam Zapatero à parede. Mas Governo espanhol mantém apoio ao ex-primeiro-ministro

Arguidos quebram silêncio e responsabilizam Zapatero pelo alegado esquema de corrupção. Confissão pode impedir anulação de provas mas não aponta quem, em Madrid, é que foi alvo da influência do ex-PM.

Madalena Moreira
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Quando, no início de 2024, o caso Koldo foi tornado público em Espanha, um nome surgiu no centro da polémica: Víctor de Aldama. Ao contrário do ministro José Luis Ábalos e do assessor Koldo García, Aldama não ocupava um cargo público, era “apenas” um empresário bem relacionado. Passados mais de dois anos, a justiça espanhola condenou Ábalos e García a pesadas penas de prisão, mas Aldama colaborou com a justiça e foi condenado a quatro anos de prisão com pena suspensa. A mesma estratégia — a imprensa espanhola classifica-a como “a via Aldama” — está agora a ser utilizada por outro empresário, noutro caso de corrupção que toca o Governo de Pedro Sánchez.

O caso Plus Ultra também remonta à pandemia de Covid-19, quando o Executivo autorizou um resgate financeiro à companhia aérea venezuelana Plus Ultra. A decisão, acredita a justiça espanhola, terá sido tomada devido à intervenção em Madrid do antigo primeiro-ministro espanhol José Luis Zapatero, que liderava, através de uma empresa de consultoria espanhola, a Análisis Relevante, um esquema de tráfico de influências.

https://observador.pt/especiais/uma-empresa-venezuelana-uma-consultora-espanhola-e-um-ex-chefe-de-governo-no-topo-da-piramide-6-respostas-sobre-a-investigacao-a-zapatero/

Desde a primeira hora em que foi implicado no caso, o antigo líder do PSOE insistiu na sua inocência, enquanto os restantes arguidos no caso, detidos já em dezembro de 2025, se mantiveram em silêncio. Até esta segunda-feira. Em três requerimentos entregues ao tribunal, Julio Martínez Martínez, Julio Martínez Sola e Roberto Roselli quebraram o silêncio, responsabilizaram Zapatero pelo esquema, alimentando a teoria do Ministério Público, e disponibilizaram-se, tal como fez Aldama há mais de um ano, para colaborar com a justiça.

Esta terça-feira, perante o juiz José Luis Calama, Julio “Julito” Martínez, o fundador e diretor da Análisis Relevante, insistiu que era Zapatero que “ditava o caminho a seguir” pela consultora. As declarações de Martínez e do CEO e presidente da Plus Ultra contradizem as declarações que o antigo líder socialista já tinha feito em tribunal. Mais: na prática, impedem que o advogado de Zapatero procure anular o julgamento. Contudo, as palavras de “Julito” também não esclarecem todos os detalhes do caso. Os “não sei” e “não me lembro” abundaram durante a audição e continua por responder a questão: quem foi, afinal, a pessoa que terá sido, alegadamente, corrompida por Zapatero para atribuir o resgate à Plus Ultra?

Martínez quebra silêncio e contraria argumentos

Julio Martínez chegou à Audiência Nacional, um tribunal que julga a criminalidade mais grave, pouco antes das 9h locais (8h em Lisboa). A audição à porta fechada durou cerca de três horas, tendo o arguido falado por uma hora e 15 minutos, relata a imprensa espanhola citando fontes judiciais. Foi ao longo de pouco mais de uma hora que o empresário de Valência, amigo de Zapatero, contradisse várias das informações-chave que o ex-primeiro-ministro tinha detalhado no mesmo tribunal há cerca de um mês.

Zapatero esteve envolvido na fundação da Análisis Relevante? O nome do ex-primeiro-ministro não faz parte da estrutura acionista da empresa de consultoria de Julio Martínez. Zapatero garante que, desde 2020, trabalhou sempre como consultor externo e que a sua ligação à empresa surgiu de uma proximidade pessoal com Martínez — proximidade essa que levou a que Zapatero prestasse serviços apenas com um “contrato verbal”. Martínez argumenta por sua vez que Zapatero esteve envolvido desde a primeira hora na fundação da empresa, em 2019, e que foram mesmo dois amigos do ex-chefe de Governo que propuseram a criação de uma “empresa de consultoria estratégica” que tivesse no centro da operação o próprio José Luis Zapatero.

"Eu simplesmente liguei ao senhor Cendoya [vice-presidente do banco Santander] e pedi-lhe que olhasse para isso e acho que eles trabalharam juntos."
José Luis Zapatero sobre o que diz o único contacto que fez em nome da Plus Ultra

Zapatero coordenou as negociações entre a Análisis Relevante e a Plus Ultra? No seu testemunho na Audiência Nacional, Zapatero declarou ter feito apenas um contacto em nome da Plus Ultra, para o vice-presidente do banco Santander. Essa foi, disse, a primeira vez que ouviu falar da companhia aérea. “Eu simplesmente liguei ao senhor Cendoya e pedi-lhe que olhasse para isso e acho que eles trabalharam juntos”, insistiu, distanciando-se de uma carta enviada posteriormente pela empresa ao banco, em que se podia ler que estavam a “seguir instruções do presidente Zapatero”.

Já Julio Martínez refere que foi Zapatero que colocou a Plus Ultra e a Análisis Relevante em contacto pela primeira vez, em maio de 2020. Ainda antes disso, no dia 30 de abril do mesmo ano, Martínez Sola, o presidente da companhia aérea, recebera um telefonema de um número privado. Do outro lado, falou-lhe Zapatero, que explicou que o colocaria em contacto com Martínez Martínez para orientar diretamente o processo para a aquisição de fundos espanhóis.

As ordens de Julito vinham, contudo, do próprio Zapatero, asseguraram os arguidos. “Na qualidade de consultor, era Rodríguez Zapatero que ditava o caminho a seguir”, pode ler-se nos requerimentos citados pela imprensa espanhola. Ainda que não fizesse parte da estrutura acionista da Análisis Relevante, “era ele que liderava e tomava todas as decisões relativamente à estratégia e aquisição de clientes”. Mais tarde, foi também Zapatero que, alegadamente, informou os outros arguidos que o processo de candidatura ao resgate tinha sido aceite pela Sociedade Estatal de Participações Industriais (SEPI).

Zapatero recebeu dinheiro pelo resgate da Plus Ultra? Esta é mais uma questão que, perante a justiça, Zapatero foi rápido a negar. “É uma verdade inquestionável”, afirmou, negando ter recebido parte dos fundos alocados pela Moncloa à companhia aérea. Os argumentos dos restantes arguidos dão conta da existência de dois contratos. Um de prestação de serviços no valor de 5 mil euros por mês, pelo “trabalho e influência”, outro que dependia do sucesso do resgate. Caso este fosse atribuído à Plus Ultra — como se verificou — Zapatero teria direito a 1% do financiamento atribuído por Madrid. Tendo em conta que a companhia aérea recebeu fundos no valor de 53 milhões de euros, o ex-primeiro-ministro terá, alegadamente, recebido cerca de 530 mil euros por “compensação pelos serviços prestados e o sucesso da operação”.

“Achas que conseguimos pedir ajuda a Zapatero?” As mensagens que voltam a surgir como prova

Os requerimentos apresentados esta segunda-feira não colocam um problema apenas do ponto de vista do conteúdo da defesa de José Luis Zapatero. No final do mês de junho, o advogado do ex-líder do PSOE, Víctor Moreno Catena, avançou com uma tentativa de anulação do julgamento. Em causa estava a “legalidade e possibilidade de utilização” dos conteúdos do telemóvel de Rodolfo Reyes Roja.

Reyes, um empresário venezuelano e acionista maioritário da Plus Ultra, foi visado na investigação das autoridades espanholas em dezembro do ano passado, mas nunca foi detido no âmbito do caso. Os conteúdos do seu telemóvel — obtidos por agentes dos serviços de imigração dos Estados Unidos da América quando foi detido na fronteira em maio de 2021 e, posteriormente, entregues às autoridades espanholas este ano — são, contudo, uma parte central da acusação contra Zapatero.

O telemóvel continha mensagens trocadas com responsáveis do regime chavista em que falavam sobre a necessidade de “obter ajuda a nível político” e “bater às portas” para obter um resgate para a Plus Ultra. “Achas que conseguimos pedir ajuda a Zapatero?“, perguntou a certo ponto Reyes. Catena procurou anular estas provas junto da justiça espanhola, argumentando que os tribunais “têm o dever constitucional de verificar a legalidade de todas as informações submetidas como provas”. O advogado questionava se a permissão dada pelas autoridades norte-americanas às espanholas permitia que o telefone fosse utilizado como prova em tribunal.

Contudo, essas mesmas mensagens são relatadas por Martínez Sola e Roselli em dois documentos — um com 56 páginas, outro com 57 — anexos aos requerimentos apresentados esta segunda-feira. Mesmo se a justiça espanhola der razão à defesa de Zapatero e excluir os conteúdos do telemóvel de Reyes das provas válidas em tribunal, essas informações podem agora ser consideradas em julgamento, como parte das alegações de defesa dos arguidos.

Ou seja, o formato é diferente, mas o conteúdo, as informações a ser consideradas pelo tribunal acabam por ser as mesmas, equipara o El Mundo. Por esse mesmo motivo, o jornal espanhol escreve que “a confissão do empresário Julio Martínez e dos executivos da Plus Ultra destrói a estratégia de defesa de Zapatero”.

Governo fala em resgate “correto”, Martínez diz “não saber” quem é o alegado contacto de Zapatero em Madrid

O caso Plus Ultra é apenas mais um na longa lista de investigações judiciais que têm assombrado o Governo de Pedro Sánchez, devido à sua proximidade com os acusados: um dos seus ministros, a mulher, o irmão, um dos seus mentores e aliado político. No caso de Zapatero, o Governo manteve, ao longo dos últimos dois meses, uma posição firme, defendendo a presunção de inocência do antigo chefe de Governo.

A Moncloa insiste que as ações do Executivo em 2020, durante o resgate, foram “corretas” e que a Plus Ultra foi identificada como uma empresa “estratégica para o turismo, o emprego e a conectividade”. Esta terça-feira, a porta-voz do Governo relembrou que o processo foi longo e não passou apenas por um órgão. “É importante lembrar que este empréstimo foi aprovado pelos serviços técnicos da SEPI, foi alvo de aconselhamento financeiro e legal externo, revisto pelo 15.º tribunal de instrução de Madrid e analisado pela Comissão Europeia. Foi alvo de auditorias pelo tribunal e monitorizado pela própria Comissão Europeia”, elencou Elma Saiz, em conferência de imprensa depois do Conselho de Ministros.

"É importante lembrar que este empréstimo foi aprovado pelos serviços técnicos da SEPI, foi alvo de aconselhamento financeiro e legal externo, revisto pelo 15.º tribunal de instrução de Madrid e analisado pela Comissão Europeia. Foi alvo de auditorias pelo tribunal e monitorizado pela própria Comissão Europeia."
Elma Saiz, porta-voz do Executivo espanhol

O Governo também recusou pronunciar-se sobre a tentativa de Zapatero de anular as provas-chave do julgamento e o passo atrás que as confissões dos arguidos podem representar nesse plano. “Não vamos comentar, nem avaliar as diferentes versões, as diferentes declarações ou as diferentes estratégias de defesa que serão apresentadas em tribunal. Continuamos a defender a presunção de inocência do presidente Zapatero”, insistiu Saiz.

Porém, mesmo que o tribunal condene José Luis Zapatero e os restantes arguidos pelos crimes que lhes são imputados, continua por responder quem é que dentro do Executivo (ou dos serviços públicos) foi alvo direto da influência do antigo chefe de Governo. Quem era, afinal, o alegado contacto de Zapatero em Madrid? A inquirição do juiz Calama a Martínez esta terça-feira terá sido feita precisamente nessa direção, avançou o El País, que cita fontes judiciais. A essa questão, o empresário valenciano respondeu não saber quem é que Zapatero terá contactado diretamente para permitir ou acelerar o resgate da Plus Ultra e detalhou que nunca esteve presente em nenhum encontro nesse sentido.

Face às respostas de Martínez, que colocam esta linha da investigação num beco sem saída, o juiz tê-lo-á questionado se essa postura não fazia do empresário um mero “correveidile” (palavra derivada da expressão “corre, vê, diz” e que pode ser traduzida como coscuvilheiro) de Zapatero. Martínez — insistindo no seu papel como um participante que apenas transmitiu ordens e não as tomou — não negou a leitura do magistrado.

[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]